4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias – Na Verdade, Aborto



Estabeleço comigo mesma o compromisso de assistir a filmes que não assistiria se dependesse apenas do critério da minha vontade. Alguns devem ser assistidos logo quando lançados, pois a urgência da situação pede nossa prontidão em defesa dos fatos (sobre isso escrevi o texto ‘Democracia em vertigem – O cinismo e a facada inexistente’); já outros, podem ficar na lista de espera do acaso ou das circunstâncias.

Neste sábado, após ser impactada pelo meu programa favorito: ‘Na Verdade’ (Rede Sec.21), senti a necessidade de visitar essa lista de filmes e encarei o ‘4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias’, do diretor Cristian Mungiu. O filme romeno ‘4 luni, 3 săptămâni şi 2 zile’ (no original) – vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2007 – é ambientado na década de 1980, em Bucareste, durante o regime ditatorial comunista (pleonasmo) do vaidoso Nicolae Ceauşescu.

O diretor nos apresenta duas jovens amigas que dividem um quarto no alojamento do politécnico da capital romena e o título ‘4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias’ é referente ao tempo de gestação de uma delas. O filme acompanha o dia em que essa gestação será interrompida, uma interrupção planejada durante semanas. Este planejamento envolveu a reserva de hotel – onde seria feito o procedimento-, a escolha de um “profissional” (o mais barato) que fizesse o aborto e o levantamento de dinheiro para pagar todos estes custos.

A ambientação do filme em um regime comunista torna a tensão da situação permeada de agravantes. Tudo é racionado, escasso e de difícil acesso; itens básicos como sabonetes e cigarros são contrabandeados e o aborto é ilegal. O fato de o aborto ser ilegal é assunto que merece maior seriedade, visto que, a construção do enredo neste período da história, pode conduzir o público de forma tendenciosa a pensar que fosse o aborto legalizado, nenhuma adversidade aconteceria. Entretanto, basta assistirmos ao documentário Blood Money, para percebermos que mesmo em um país cujo aborto é permitido e legalizado, as mulheres passam por adversidades, sendo a questão financeira a mais fácil de ser resolvida.

Quando o “profissional”, chega ao hotel, para a realização do aborto, ele examina a estudante e constata que a gravidez está entre o quarto e quinto mês. É neste momento, que descobrimos que a jovem Gabriela, de aparência delicada e voz infantil, estava mentido sobre o tempo de gestação. Ela temia não encontrar quem aceitasse fazer o procedimento em tais circunstâncias. Em uma conversa entre Oitilia (a melhor amiga), Gabriela e o “profissional”, somos informados de que, a partir do terceiro mês de gestação o crime de aborto passa a ser julgado como homicídio. Sr. Bebe (este era o nome do aborteiro), se descontrola ao perceber que fora enganado e diante do desespero das jovens ele enxerga um outro tipo de oportunidade. Sr. Bebe apresenta às amigas duas opções: ou a remuneração de 10 mil pelo o procedimento, ou, além dos (quase) 3 mil, elas teriam que satisfazê-lo sexualmente.

As estudantes tinham levado 3 mil (descontaram três diárias do hotel) e não tinham como conseguir mais do que o valor apresentado. Gabriela desesperada, se joga sobre ele e implora para que faça o procedimento; pedindo-lhe que tire de seu ventre o bebê. A situação é surreal, ela se insinua dizendo ser a culpada e, portanto, ela é quem deveria “saldar” a dívida e não sua amiga. Qualquer cena após essa, não conseguiria se igualar no quesito degradação. Sendo assim, quando vemos Oitilia, se despindo e se entregando para o sr. Bebe como forma de pagamento pelo aborto, não conseguimos nos importar, é como se a humanidade de todos já não existisse. Neste momento, Gabriela sai do quarto e deixa os dois sozinhos.  Ao voltar, sua amiga está se lavando, enquanto o sr. Bebe organiza os instrumentos para a realização do aborto.

Concretamente, aos 4 meses de gestação, o bebê mede cerca de 15 cm, pesa em média de 240g, seu coração já está batendo, seus ossos e articulações estão sendo formados, e os rins passam a produzir urina. Ele começa a engolir o líquido amniótico – o que ajuda a desenvolver os alvéolos pulmonares – e chupa o dedinho cujas digitais já estão formadas. Ele é um bebê. Um bebê como o de Gabriela.

A direção do filme é competente em nos apresentar a realidade dos personagens. Porém, pelos ângulos e enquadramentos selecionados (sem close ou planos mais fechados), os enxergamos como simples conhecidos. Eles poderiam ser algum vizinho ou um colega distante talvez, mas não um amigo próximo ou membro da nossa família. A única cena em que realmente nos sentimos parte ou mesmo cúmplices, é na ‘cena do banheiro’. É nesta cena em que somos obrigados a ver aquilo que o “profissional” chamou de “aborto”. O take é longo e brutal – após essa extensa cena, tive certeza de que o diretor Cristian Mungiu é um grande pró-vida. Impossível se deparar com uma barbárie escancarada diante dos nossos olhos e ficar em dúvida sobre o que é certo e o que é errado. Gabriela, Oitilia, e eu, tampouco, jamais esqueceremos aquele bebezinho em formação, expelido de um ventre que não o quis, desamparado e inerte, disposto no piso frio de um banheiro de hotel barato.

Volto ao programa ‘Na Verdade; as apresentadoras e a convidada (a fundadora de uma comunidade que acolhe mulheres em crise com a gravidez, aquelas que pensam no aborto como solução), tratavam sobre as mulheres que abortaram e a dor que elas carregam após o procedimento; compartilharam casos em que essas mães – mães porque elas podem não ter tido o bebê, mas aquele ser humano era real, existiu –  passam a vida calculando os anos que o filho abortado teria, como seria sua fisionomia e há aquelas que após tirarem o próprio filho, chegam a ouvir choro de bebê por meses.

O programa tratou com habilidade a dificuldade de mulheres, como Gabriela, que acreditam ser o aborto a opção mais simples. A generosidade da convidada ao compartilhar que ela própria cogitou não ter o filho, nos surpreende e nos faz perceber que, caso uma mulher pense no aborto como possibilidade, ela precisará de acompanhamento e  orientação, pois, poderá cometer um ato (legalizado ou não) do qual se arrependerá por toda a vida.

A convidada do programa, Adriana Misiara, assim como Gabriela, recebeu apoio de amigas, todas solícitas em oferecer dinheiro para tirar o bebê, porém, bastou uma dizer ‘não aborte, eu te ajudo com a criança, que ela pôde seguir seu instinto e ter o filho. Gabriela teve uma amiga capaz de se “doar” de forma violenta para ajudá-la, mas não conseguiram juntas, vislumbrar o nascimento da criança como opção viável. A diferença entre essas mulheres, está na forma de compreender a vida. Enquanto as personagens do filme propõem esquecer da injustiça que cometeram, acreditando que conseguirão perdoar-se e seguir com suas vidas; a convidada Misiara propôs transformar a própria vida, junto a de seu esposo e filhos, em um apostolado de apoio às gestantes e mulheres que abortaram.

De alguma forma, Adriana pôde dosar as consequências imediatas, afinal, o que são nossas adversidades perante a eternidade? Alice Von Hildebrand, no livro ‘O Privilégio de ser mulher, responde: “Um dia, todas as realizações humanas serão reduzidas a um monte de cinzas. Por outro lado, todas as crianças nascidas de mulher viverão eternamente, pois a elas foi concedida uma alma imortal, feita à imagem e semelhança de Deus”.

Sendo assim, entre a última cena do filme ‘4 meses…’ , em que vemos duas jovens abatidas, Gabriela de olhar vazio, incapaz de comer o jantar devido a aparência do prato e a violentada Oitilia propondo nunca mais falarem sobre o que aconteceu; e uma sorridente Adriana, que oferece seu testemunho como forma de inspirar mulheres que se veem perdidas ao descobrirem-se grávidas, escolho ficar com a Adriana. A diferença entre essas duas histórias não é unicamente a preservação da vida, é a salvação da alma na eternidade.

Filme: “4 meses 3 semanas e 2 dias” – Dir. Cristian Mungiu. Ano: 2007

Livro: “O privilégio de ser Mulher” – Alice Von Hildebrand, Ed. Ecclesiae.

Documentário: “Blood Money – Aborto Legalizado”. Dir. David Kyle. Ano: 2013.

Sobre o Colunista

Juliana Gurgel

Juliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

5 Comentários

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  • Já assisti esse filme, cenas grotescas de uma sociedade decadente, vítimas do socialismo.
    Regime de destrói os valores morais das pessoas e as transformam em meros servos do regime !!

  • FAÇAM VCS MESMOS, EU FIZ uma relação dos filmes em lançamento na NETFLIX, de produção da NETFLIX, cada um, com suas respectivas SINOPSES e advinhem?

    Os lançamentos que vi nesse último domingo (11/08/19), e os temas são:

    – Um desenho animado cuja sinopse diz que é um “animal que esteve no espaço ,por um tempo, e ao voltar EXIGE que seu programa de TV volte como era num mundo DIFERENTE!

    – Jovens sensuais de um time de esporte perdidas e caçadas numa floresta por um HOMEM;

    – Uma moça que levanta de um acidente e tem como seu MARIDO como inimigo;

    É incrível, a NETFLIX só faz filmes e seriados “lacração”…. vejam vcs mesmos!
    Para desinformar, lançam uns filmes de terceiros no meio, mas os de produção da empresa todos tem temas lacradores!

  • Os simbolismos na Netflix também não me enganam.

    É sempre destaque para “LUCIFER”…. “Santa Claire Diet”… lacração em geral.
    Eu também percebo isso que as produções da própria empresa são sempre assuntos esses assuntos.

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Guilherme Galvão VillaniGuilherme Galvão Villani

Mariliense. Gosto pela Administração, Contabilidade e Finanças. Atu...

Juliana GurgelJuliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

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Advogado, professor de Direito Constitucional e Eleitoral para concu...

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Políbio Braga é um jornalista e escritor brasileiro. Nascido em S...