A ideóloga do totalitarismo venezuelano e fundadora do Foro de São Paulo

Chilena de nascimento, cubana por matrimônio e revolucionária por ofício, a socióloga Marta Harnecker foi educada em uma família católica de classe média engajando-se ainda jovem nos movimentos de esquerda em ascensão no Chile nos anos 50. Depois de uma rápida passagem por Havana, logo após a Revolução Cubana, ela é enviada para estudar na França. Em Paris, recebe formação marxista de uma elite intelectual de professores membros do Partido Comunista Francês, na École Normale. De volta a sua terra natal, se filia ao Partido Socialista de Chile-PSC, e milita de forma muita intensa e próxima a Salvador Allende. Com a queda do governo socialista chileno, em razão do golpe do General Pinochet, Marta foge para Cuba, lá se casa com o temido Manuel Piñeiro Losada, o chefe da polícia política secreta cubana.

Manuel Piñeiro, conhecido como el Barbarroja, foi um revolucionário guerrilheiro cubano que, segundo as informações publicadas pelo site StB no Brasil – portal que disponibiliza documentos dos anos 60 dos serviços de inteligência do bloco soviético – recebeu treinamento em Moscou e foi escolhido por Raúl Castro como chefe do serviço secreto cubano quando da organização e fundação da agência de inteligência na ilha (Acessem aqui Raúl Castro, os arquivos da StB e o serviço secreto cubano para ler o artigo). Manuel, antes da revolução, era um garoto de família abastada, filho de um executivo da multinacional indústria de bebidas Rum Bacardi. Seus pais o enviaram aos Estados Unidos em 1955 para estudar administração, mas foi aí que acabou se envolvendo com a dançarina Lorna Burdsall, que era membro do Partido Comunista dos EUA. Tempos depois Piñeiro retorna a Cuba para lutar com Fidel Castro em Sierra Maestra. Desse relacionamento nasce Manuelito, que migra para Cuba com a mãe durante a Revolução Cubana.

Já a história de Manuel com Martha Harnecker, muito provavelmente, começa antes da derrubada do governo de Salvador Allende, pois é sabido que seu governo, assumidamente socialista, mantinha relações muito próximas com Fidel Castro.

Mas vamos a um documento importante sobre a história desse casal, um vídeo de homenagem póstuma ao revolucionário cubano, produzido em 1999, um ano após sua morte em um acidente de carro em Havana. O instituto responsável pela filme é dirigido por Marta. Ele se chama MEPLA, Memoria Popular Latinoamericana, com sede na capital cubana, uma agência de propaganda do governo dos Castro. Faz-se necessárias algumas pontuações com relação ao vídeo. É nítido caráter de propaganda ao qual ele serve. O roteiro, segundo os créditos, foi redigido por Marta e a filha Camila, que narra de forma comovente as memórias do pai – Camila é casada com o jornalista correspondente do Washington Post para América Latina, Nick Miroff. Importante não nos deixarmos levar pela imagem do homem do vídeo que aparece brincando de forma carinhosa com crianças e esbanjando simpatia com várias pessoas. Ele é o mesmo que chefiou por décadas a polícia política cubana, logo, é ele o responsável direto por inúmeras prisões e execuções de inimigos do regime dos Castro. Mas o mais interessante do vídeo é que vários fatos ali narrados são verdadeiros, como o protagonismo político de Barbarroja nos bastidores da agenda internacional do país enquanto chefe da inteligência cubana. Há também raras imagens, pois o líder cubano, em razão da importância da posição que ocupava, dificilmente deixava-se fotografar ou filmar. Barbarroja manteve relacionamento próximo com todos os líderes comunistas da América Latina e África. Várias fotos e vídeos de encontros e reuniões são exibidas no filme. Repare que Marta, uma marxista, confessa na entrevista que Manuel, veja só, mantinha relações com “grandes empresários de todo o mundo” que ajudaram a financiar o país e compensar as limitações criadas com os embargos americano.

No vídeo é dito também que na mansão do chefão da polícia política cubana eram recebidos diariamente líderes e militantes da esquerda latino-americana. A respeito deste importante detalhe narrado pela família de Barbarroja recorremos ao testemunho de um conhecido jornalista brasileiro ligado aos governos petistas de Lula e Dilma, que publicou na internet várias fotos de encontros com Fidel Castro e Manuel Piñeiro nos anos 80. Nas imagens é possível reconhecer várias figuras da esquerda brasileira. O jornalista visita Cuba com frequência hoje em dia e é recebido com tapete vermelho ao chegar à ilha.

 

O jornalista amigo do regime onde não existe jornalismo.

Fidel e Manuel Barbarroja (à esquerda) com brasileiros em Havana.

Delegação brasileira no Floridita: Vallandro Keating, Eric Nepomuceno, Ricardo Ohtake, Morais, Leonardo Boff e Frei Betto.

 

A participação de esposa do chefe do serviço secreto cubano no movimento comunista da América Latina ganharia ainda mais relevância com a realização da 1ª reunião do Foro de São Paulo em 1990. Marta já era influente na intelectualidade marxista da América Latina. Os jornais brasileiros da época registravam com frequência sua presença em vários eventos de militância promovidos por partidos de esquerda no Brasil. O 1º Encontro do Foro de São Paulo, à época nomeado “Encontro de Partidos e Organizações de Esquerda da América Latina e Caribe”, foi realizado em São Paulo, no salão de eventos do antigo Hotel Danúbio. Marta discursou ao lado de Lula, José Dirceu, Marco Aurélio Garcia e Luciano Coutinho. Esse último, anos mais tarde, ajudaria o PT a financiar com bilhões de dólares do BNDES todos os governos alinhados ideologicamente com a esquerda brasileira durante seu mandato na presidência do banco.

Lula, Marco Aurélio Garcia, à época a frente da secretaria de relações internacionais do PT, João Machado, fundador do PT, hoje dirigente do PSOL e professor de economia na PUC-SP, e José Dirceu, apresentado no encontro como secretário-geral do PT.

Outro fato importante a respeito de Marta Harnecker é que ela é uma das principais intelectuais com cargo de assessoria no Poder executivo da Venezuela desde o começo do mandato Hugo Chávez em 2003. Há vídeos na internet de cerimônias de homenagem a Marta prestadas tanto por Chávez como por seu sucessor, o atual ditador Nicolas Maduro. Ela é vista como uma das cabeças mais importantes da militância ideológica comunista na Venezuela bolivariana. Em 2012, Marta foi entrevistada pela Folha de São Paulo e disse o seguinte: a Venezuela é o país menos desigual do continente e que Chávez é autoritário, mas fundamental. Em 2015, o ditador Nicolas Maduro entregou em mãos o prêmio Libertador al Pensamiento Crítico a Marta Harnecker. Uma imagem que vale mais do que mil palavras.