A ofensiva retórica de Andreazza

Por Allan Dos Santos e Italo Lorenzon

Entre os conservadores e mesmo entre os liberais, acostumados a lutar contra o homem de massas e o espírito de manada, qualquer semelhança com estas duas realidades, sejam elas reais ou imaginárias, pode parecer o óbito da liberdade individual. Assim, todo discurso que ganha popularidade gera desconfiança e receio.

O medo, entretanto, nunca foi um bom conselheiro. O receio, por sua vez, não é um instrumento analítico que se preze. E como para conhecer algo é, como disse Aristóteles, necessário compreender as suas causas. A leitura sobre os fatos que envolvem o deputado Jair Bolsonaro e seus algozes é necessária para que o analista não fique refém dos jargões usados pela mídia e os membros do Partido.

A política transita dentro do que é possível, não do que é perfeito na seara especulativa. Com isto, queremos dizer que nem Bolsonaro, e nenhum outro homem na terra, é e pode ser isento de críticas, mas toda e qualquer crítica feita a ele precisa pautar-se de uma boa percepção da realidade dos fatos e de seu contexto. Evitando, assim, o juízo temerário que é fatal a toda e qualquer análise política.

Em seu último artigo, o sr. Carlos Adreazza incorreu precisamente neste equívoco. Há uma dissonância entre a análise que ele faz da trajetória política de Bolsonaro e o que ela de fato representa na realidade. É necessário, pois, retirar a muita retórica usada em seu texto para desvelar a ausência de argumentos.

Seguem, pois, seus parágrafos (em negrito) e nossa resposta.

  1. “Jair Bolsonaro é candidato a presidente, tem cerca de 15% nas pesquisas e vem de alugar um partido para concorrer. Nunca, porém, geriu algo que não a vida dos filhos. Precisa, pois, ser tratado seriamente. Cabe ao jornalismo tirá-lo da bolha tuiteira em que alguém como ele pode ser considerado solução para o Brasil e lhe franquear microfones para que fale o que pensa sobre o país.”

Não. Ele é pré-candidato – e não se sabe se poderá ou não ser candidato. Infelizmente, Andreazza tem alguma razão para ficar tranqüilo, visto não ser nada impossível que nosso STF impeça na marra a candidatura deste que ele considera uma tremenda ameaça à democracia. Mas é no mínimo interessante que nenhum outro político tenha despertado tanta preocupação no PT a ponto de este ter adicionado sua destruição a um plano de medidas estratégicas. Veja se qualquer outro presidenciável tem essas credenciais. E não, Bolsonaro não está alugando um partido, mas tão somente aposta no apoio popular que recebe individualmente. No Brasil real, não no imaginário de um editor de lastro, você é obrigado a fazer parte de algum partido, porque é proibido candidatar-se como independente. Embora ele não se insira em patota nenhuma, sua filiação formal é necessária. Isto, aliás, é mais um recurso que o estamento burocrático do país encontrou para prevenir candidaturas de quem possa ferir seu esquema de poder. Quem não tem problema para encontrar partidos é porque, ou é tão sujo quanto os caciques que os comandam, ou é visto por eles como uma marionete. Entendeu? Ou precisa desenhar?

Quanto a não ter gerido mais do que “a vida dos filhos”, não por isso será pior ou melhor do que outros políticos. Boa parte do ofício do governante é saber cercar-se de gente que possa auxiliá-lo em temas administrativos. No Chile, por exemplo, Sebastián Piñera foi um administrador de êxito, que, eleito, entregou a seu sucessor um país com pleno emprego; mas, não tendo nenhum conhecimento sobre a ofensiva cultural da esquerda, seu sucessor foi – não por acidente, mas por sua total incompetência nesse tema – a vermelha Bachelet. Preferimos alguém que conhece os principais problemas estratégicos do país, que não tem medo de enunciá-los e ser atacado pela mídia, que deseja preservar a soberania e a identidade nacionais, mas que necessite de bons assessores administrativos, ao invés de um administrador que não conheça nada disso e termine por administrar brilhantemente – e sem necessidade de ajuda – um país em islamização ou com escolas dominadas pela ideologia de gênero.

  1. “Urge ouvi-lo sobre o tamanho do Estado, sobre reformas, sobre economia em geral — suas opiniões conhecidas a respeito precisam de decodificação antes de poderem ser tidas por alarmantes. Urge ouvi-lo sobre segurança pública, assunto que — com razão — define (é o único a fazê-lo) como prioridade e que seu militarismo sugere ser sua especialidade. Será?É hora de investigar suas aptidões — excluída a capacidade, comprovada, de se autopromover como zelador dos costumes conservadores do brasileiro médio.”

Se urge ouvi-lo, então que se ouça o que ele já disse. Pelo visto, Andreazza não se interessou por pesquisar as propostas apresentadas antes de projetar seus medos no Bolsonaro imaginário que ele construiu a partir de seus próprios preconceitos. Se quiser, que vá aos dois atalhos abaixo, onde o Bolsonaro real deixa claro o que pensa sobre o tema. (É que esse conteúdo é difícil de achar, pois não se encontrará jamais em colunas d’O Globo.)

Vídeo 1

Vídeo 2

  1. Deputado federal desde 1991, mas que já defendeu o fechamento do Congresso, quer ser presidente (já postulou o fuzilamento de um, FHC, por ter privatizado a Vale) empunhando as mesmas bandeiras — de natureza legislativa — que agita há décadas, o que de prático só resultou em fama para o agitador. Ou a agenda progressista não terá avançado livremente na Câmara justo no período mais histérico de Bolsonaro?

Retirados os desvios destinados a dar alfinetadas, às quais em seguida responderemos, o argumento de Andreazza é o seguinte: “Bolsonaro é deputado há 26 anos e a agenda progressista só avançou. E, no período em que mais fortemente denunciou a agenda progressista, mais ela avançou. Suas denúncias foram, portanto, inúteis para o país e só serviram à sua própria fama.” O argumento não é original – longe disso – exceto talvez em seu fraseamento, que imputa a má-fé do engrandecimento próprio à custa da ruína do país.

Pensemos num bombeiro que vê um prédio em chamas e avisa do sinistro aos demais, que não lhe dão a mínima atenção. Quanto mais as chamas se espalham, mais alto ele grita para avisar-lhes. Quando o prédio já está quase todo em labaredas, a conclusão de Andreazza é que este bombeiro – o único que viu o problema e o denunciou – é pior que os outros, porque não conseguiu apagá-lo sozinho enquanto os outros olhavam para a lua, fosse de propósito, fosse por falta de interesse.

Primeiro ponto: Andreazza inverte a ordem causal, como se a escalada nos alertas cada vez mais veementes de Bolsonaro fosse seguida do agravamento dos problemas do país, com a conotação de que seus avisos “inócuos” só resultam em mais esquerdismo. Ora, ao contrário, a escalada nos alertas de Bolsonaro tem sido conseqüência do agravamento da situação política, econômica e social do país. O que se queria? Que ele as denunciasse menos à medida que cresciam? A agenda esquerdista não avançou tendo o mandato de Bolsonaro como causa, mas em conseqüência de anos de domínio dos meios de ação no cenário político e cultural.

Segundo ponto: Como legislador honesto cercado por centenas de pares já comprovadamente corruptos, seria Bolsonaro apreciado por eles? Teria ele apoio para aprovar leis boas? Teria ele apoio para revogar o Estatuto do Desarmamento, quando o Congresso é movido, ou pelo desejo de propinas, ou pelo desejo de dá-las para implantar um estado no qual o povo esteja completamente indefeso?

Terceiro ponto: por Andreazza aparentemente acreditar que Bolsonaro pudesse fazer leis sozinho, ou impedir com sua mera voz no microfone o avanço das pautas contrárias à família, à segurança, à vida, etc., temos quase a impressão de que, ao contrário dos apoiadores de Bolsonaro, que o chamam de “mito” por razões lúdicas, em alusão à sua sagacidade para respostas contundentes e francas, Andreazza parece ser a única pessoa que crê haver em Bolsonaro poderes realmente míticos, que nenhum de nós sonharia atribuir-lhe nos mais exaltados arroubos de admiração.

Quanto às alfinetadas:

Primeiro: É o modus operandi da mente revolucionária atribuir ao inimigo que claramente usa uma figura de linguagem (como no caso do FHC) a manifestação literal de sua vontade. Não julga Bolsonaro pelo sentido de suas palavras nem pelo contexto que têm, mas pelos que gostaria que tivessem para mais facilmente poder condená-lo, como já disse Olavo de Carvalho.

Segundo: quanto ao fechamento do Congresso, este é – hoje, na atual conjuntura – o sonho de todo brasileiro de bem que entenda a gravidade de nossos problemas. Acaso Andreazza realmente crê que os rapapés burocráticos de Brasília significam que temos uma democracia? Quer continuar acreditando em democracia e representatividade política depois dos escândalos que envolveram não apenas o PT, mas quase todos os partidos políticos que hoje existem? Da impunidade proporcionada pelo STF a título de “governabilidade”? As instituições estão funcionando, Andreazza? Pelo visto, o autor – como tantos no cenário político atual – crê que o bem comum se identifica com a existência formal de certas instituições.

Ora, temos urnas inauditáveis, um TSE que é uma piada, uma imprensa que só exagera os defeitos de seus inimigos e perdoa os de seus amigos, ausência total de recursos para anular o mandato de um governante que, cuidadosamente evitando cometer crimes que lhe custariam o mandato, governa com plataforma totalmente oposta àquela que usou para se eleger, um sistema eleitoral que impede candidaturas independentes e que elege “pela legenda” parlamentares de quem o povo nunca ouviu falar, três dúzias de partidos que ocupam todos os espaços para promover o mesmo viés ideológico, domínio total da educação e da cultura pelo mesmo viés ideológico, e, como cereja no bolo, um Judiciário que sentará em cima dos crimes destes tiranos até que prescrevam. Temos realmente uma democracia? O povo realmente é senhor de seu destino no Brasil? Andreazza se preocupa com que Bolsonaro vá tirar do povo uma democracia que ele atualmente já não tem, e tem horror de imaginar que um saneamento de nossas instituições podres não venha pela mão destas mesmas instituições podres pelas quais o povo perdeu sua democracia. Se Andreazza perguntar ao povo – não ao Datafolha –, verá que a idéia de fechar o Congresso no atual estado de coisas não lhe é nada estranha, e com razão. O mesmo povo que quase invadiu o Congresso em 2015 lhe explicará que a mera existência de um Congresso não significa democracia, e o mandará à Venezuela para que veja como eles têm um lindo Congresso, cheio de congressistas lá dentro “congressando”, e como isto não significa nada para a representação dos anseios do povo, mas apenas mantém limpa a cara do regime diante da “comunidade internacional”.

E note que estamos apenas concedendo que a democracia seja o “santo graal” dos modelos de governo, uma premissa que trai uma estreiteza de horizontes quanto à história destes modelos e sua aplicação prudencial segundo cada circunstância. Não nos deteremos tampouco no fato de que os EUA têm muito maior representatividade popular que no Brasil e a palavra “democracia” nem sequer consta de sua Constituição. Nem tampouco no fato de que tiranias comunistas vêm disfarçadas de democracia, e que usam seu sentido correto como objeto de adoração para ingênuos ao mesmíssimo tempo em que só a permitem existir nominalmente, substituindo seu sentido pelo do comunismo e centralizando o poder no Partido, que se arroga por princípio ser o único representante lícito da vontade popular.

  1. Não tendo, pois, conseguido defender a tradicional família brasileira no Parlamento, o lugar apropriado (onde, no entanto, acabou ingenuamente emboscado pelo vitimismo de Maria do Rosário), ele agora pretende levar sua causa ao Executivo, lá onde nada poderia fazer a respeito — senão por meio de uma ditadura. Como não lembrar, a propósito, que já elogiou Fujimori por intervir militarmente no Judiciário e no Legislativo peruanos?

Se você não consegue ter suas leis aprovadas no Congresso, o que deseja fazer no mais alto escalão Executivo de uma República? A conclusão de Andreazza é: implantar uma ditadura. Bolsonaro consegue dominar um partido, o PEN (que mudará de nome), quer o maior número possível de deputados federais e senadores de direita e afirma aos quatro cantos que sozinho não poderá fazer grande coisa no Palácio do Planalto, mas tudo isso é estrategicamente ocultado por Andreazza. Que coisa, não? E diga-se algo mais: se concedemos que a permanência de vinte anos no poder por parte dos militares após 1964 não foi o melhor para o Brasil, e se reconhecemos que os militares cometeram erros numerosos, ao mesmo tempo insistimos que a intervenção mesma, em 1964, foi necessária para evitar que nos tornássemos uma Cuba. Portanto, não deveria gerar escândalo para ninguém que queiramos um presidente sem rabo preso, que, embora claramente não seja esta sua intenção presente, tenha coragem e firmeza de propósito suficientes para – se necessário for, caso as coisas cheguem a isso – empregar o recurso constitucional do artigo 142. Não torcemos para isso, não queremos que isso seja necessário, mas não há pecado nenhum em querer um presidente que esteja disposto a usar todos os recursos constitucionais de que dispõe para evitar que nos tornemos uma Venezuela. Se quiserem confundir uma intervenção pontual com uma ditadura infindável, que o façam. Mas que o façam sem nós.

OBS: Olavo de Carvalho pensa a mesma coisa sobre Fujimori (vejam os minutos 00:33:09), pois não se faz acordo de paz com terroristas. Seria ele um maluco?

  1. Que eu escreva o óbvio: houvesse uma direita no Brasil, e Bolsonaro seria nota de rodapé exótica na história. Ele é produto da doença política brasileira, indivíduo cujo protagonismo é tão decorrente da miséria cultural em que se constitui a vida pública entre nós quanto simbólico de um país que se deixou cuspir aos extremos sem haver cevado o equilíbrio, o dissenso, a própria matéria com a qual se esculpe uma nação.

Se qualquer político sofresse um por cento dos ataques que sofre Bolsonaro, estaria enterrado. Este sim estaria em uma nota de rodapé da história. ACM não sofreu metade disso e foi enterrado em seis meses. Bolsonaro se defende de Maria do Rosário e cai numa armadilha repetida até à náusea pela imprensa, enquanto Lula tem seu passado enterrado, suas grosserias omitidas e sua reputação saneada. É fácil chamar alguém de ingênuo quando contra ele se usam dois pesos e duas medidas.

Bolsonaro já disse mil vezes que a missão de presidente da república é de uma responsabilidade enorme, mas, como não há quem a queira fazer dentro do mínimo de honestidade possível, ele está disposto a sofrer o que for para devolver ao povo o que lhe foi tomado de assalto. O esforço de Andreazza para desqualificar Bolsonaro dentro do cenário político atual é realmente assustador. Parece que há algum Carlos Lacerda por aí vindo à presidência e não estamos sabendo.

  1. Que o militarista estatista Bolsonaro seja confundido com um conservador é prova de que a esquerda venceu. Que alguém com o histórico de indisciplina — de desafio à hierarquia — militar de Bolsonaro, um oficial de carreira sofrível, seja tomado por voz das Forças Armadas é simbólico das três décadas de sucateamento a que Exército, Marinha e Aeronáutica foram impostos desde o fim do regime militar.

Um militar da reserva que deseja a diminuição do estado e o maior número possível de privatizações só é “militarista estatista” na cabeça de Carlos Andreazza. Este tipo de dissimulação é algo que nos surpreende em um artigo de sua lavra, mas parece que estamos destinados a ver de tudo hoje em dia. Voltando ao mérito, porém, o Bolsonaro real (não o que habita seus pesadelos) já falou sobre isso inúmeras vezes e pode facilmente ser encontrado na web.

No mais, já basta desta palhaçada de querer pintá-lo como um péssimo militar por causa de um único episódio em que deu uma entrevista, fazendo-o parecer um insubordinado irresponsável que traiu ordens de seu comandante num teatro de guerra e ceifou a vida de sua tropa. Esse exagero bocó não colou quando dito por petistas, é claro, por ser um tanto ridículo que os maiores incitadores da quebra de hierarquia e da transgressão de regras tivessem resolvido agora amar o decoro militar. Mas tampouco cola quando dito por Andreazza.

  1. O autocrata Bolsonaro é obra-prima do plano de hegemonia esquerdista, aquele que, ao ocupar todos os espaços de produção-divulgação do pensamento, empastelou a chance de que aqui houvesse um partido conservador ao menos. O fato de o PSDB ser considerado de direita é autoexplicativo do modo como as ideias liberais e conservadoras foram excluídas do debate público brasileiro, deformadas a uma única existência — aceitável porque útil: a do extremo.

1: Descrevê-lo como “autocrata” é simplesmente ridículo e indigno de maior comentário.

2: Se ele é a obra-prima da hegemonia esquerdista, então diga-nos por que diabos ele é o único parlamentar que o PT determinou explicitamente que deveria ser expulso da política brasileira.

3: Que demérito há para Bolsonaro no estreitamento proposital do imaginário político do brasileiro, a quem o PSDB tem que parecer a direita para que conservadores (e, concedamos, liberais) apareçam como extrema-direita? Isso vai do nada a coisa nenhuma. Ora, foi precisamente para marginalizar verdadeiros conservadores que se fez o trabalho gramsciano de delimitar o máximo de direitismo socialmente aceitável. Curiosamente, quem é que está sendo o mais marginalizado – talvez o único marginalizado, devido ao alcance nacional de seu nome – por esse esquema cretino? Bolsonaro.

  1. Bolsonaro é útil. Mas não inocente. Depende da inexistência da direita no Brasil tanto quanto da demonização da política. Construiu a própria mitologia nesse vácuo democrático. Num país desprovido de representação conservadora, aceitou a ponta que seria dada a qualquer um que não se constrangesse em encenar o papel de extremista escrito pela narrativa da esquerda. Ele topou; intuiu que, sobretudo a partir da ascensão do PT, haveria cristãos dispostos a embarcar na conversa do político que incorporasse o antipetismo. Ele cresceu — cresce — com Lula. Lula torce para tê-lo como adversário. Um olhar de Geisel para a nação, aliás, une-os.Da mesma forma que o PSDB é a direita falsificada pelo establishment, a que faz o contraponto ao PT, a esquerda que disputa o poder, Bolsonaro é a direita consentida, a extrema, o radical desejado, necessário ao status quo, o ultrainofensivo, que interdita o surgimento de uma direita democrática e que legitima a persistência da esquerda que ainda ousa associar socialismo e liberdade.

“Construiu a própria mitologia nesse vácuo democrático”? Não foi Bolsonaro que construiu sua própria mitologia. Bolsonaro sempre reteve os pontos principais de suas posições políticas, que no todo sofreram algumas poucas alterações, mas sempre retiveram sua essência. E o fez durante anos, precisamente quando essas posições eram impopulares e não lhe garantiriam senão a base de sempre que o elegia como deputado pelo Rio de Janeiro, mas que lhe tolhiam qualquer pretensão de poder executivo nacional. Não foi Bolsonaro que mudou para agradar o povo, mas foi o povo que agora, vendo a essência comunista de seus tiranos, deu razão ao que ele sempre disse, e que antes parecia distante e improvável. Seus apoiadores não são militantes profissionais, mas pessoas comuns que buscam agir politicamente, talvez pela primeira vez em suas vidas. Em outras palavras, apareceu finalmente alguém que não obedece ao estamento e às instituições dominantes e preocupa-se mais em falar a verdade do que em obedecer ao politicamente correto imposto pelos revolucionários de todos os matizes. Quanto a Bolsonaro supostamente ser a “direita consentida”, desde quando a chamada “extrema-direita” é assim rotulada pelos comunistas para ser consentida? Ela é assim rotulada precisamente porque precisa ser neutralizada. Nem Lula nem nenhum dos que dependem da impunidade e corrupção endêmicas de nossas instituições torce para tê-lo como adversário. E, no que diz respeito especificamente a Lula, reiteramos que basta a leitura do artigo 157 do Caderno De Teses do 5º Congresso Nacional do PT, que equiparou a cassação de Bolsonaro à reforma política e à punição dos crimes do período Militar.

  1. Na última quarta, ele votou pela aceitação da denúncia contra Temer. Sintomaticamente, votou como Jandira Feghali e Jean Wyllys. Não houve cusparada dessa vez. Nem discurso. Bolsonaro não homenageou o torturador Ustra nem o ex-deputado Cunha — como quando da votação do impeachment de Dilma. Naquela ocasião, ele também se manifestara pelo afastamento de um presidente.

Dizer que Bolsonaro esteja arrastando a asa para a esquerda porque votou com Jandira e Wyllys é analisar uma parte ínfima do histórico de votações desse parlamentar e considerá-la como o todo. É inconcebível que uma pessoa supostamente culta realmente possa estar sugerindo em boa-fé que Bolsonaro esteja se alistando nas fileiras revolucionárias devido ao encontro acidental de uma única votação. Isto é definitivamente, ou miolo mole, ou má-fé pura e simples. E dissemos “acidental” no sentido técnico, filosófico mesmo: não significamos que o posicionamento de Wyllys e de Bolsonaro tenha sido “sem querer”, ou fruto de uma distração, mas que eles apenas se encontram no resultado periférico que é a votação mesma. As razões que os levaram ao mesmo voto são radical e essencialmente diferentes. Jandira e Wyllys querem a investigação de Temer só porque ele é a bola da vez em seu projeto de poder. Já Bolsonaro quer a investigação de Temer porque NENHUM CORRUPTO deve sair liberado por voto de interesse politiqueiro.

Considerar que uma coincidência de decisões deva ter como pressuposto a igualdade de motivos é uma posição tão gratuita e tão indigna de alguém com um mínimo de “lastro”, que com isso não há como não entender má-fé. Vejamos: duas pessoas decidem não roubar uma casa; sabemos que o motivo de uma é que ela julga não haver nada de valor nesta casa. Mas, acaso estamos forçados a crer que esse também é o motivo da outra? Acaso não poderia ser que esta outra pessoa julga errado por princípio roubar a casa alheia? Não: para Andreazza, se uma decidiu não roubar porque não valia a pena, o mesmo deve ser pensado da outra. É isso que temos de levar a sério? Pelo visto, o lastro de Andreazza é tanto, que o está afundando em direção ao abismo.

  1. Bolsonaro é assim. Não tem bandido de estimação, embora tenha permanecido por dez anos no mensaleiro PP. Ele é plano, direto: contra a corrupção; tipo intolerante a nuances, como só possível a um ser desprovido de lastro intelectual, incapaz de compreender sequer rudimentarmente o momento histórico.

Novamente, Andreazza: sem partido, você não consegue se eleger. Como nenhum partido atual presta, você teria dito o mesmo de qualquer partido no qual ele houvesse passado os últimos dez anos. Vamos repetir mais uma vez, Andreazza: a pertença a um partido é uma necessidade burocrática para o processo eleitoral. Vamos repetir mais uma vez, para ver se entra no seu lastro: nenhum partido presta, Andreazza, e é por isso que não importa muito onde ele tenha passado os últimos dez anos, e é por esse mesmo motivo que as pessoas não votam nele por seu partido, mas apesar de seu partido. E isso não tem nada a ver com idolatria ou culto de personalidade, mas com o fato de que atualmente não há um só partido que defenda integralmente os valores e propostas de Bolsonaro. Vamos tentar novamente, Andreazza: desde que se atendesse ao mínimo moral de não escolher um partido comunista ou sabidamente pertencente ao Foro de São Paulo, havia que se escolher algum partido, que invariavelmente não seria bom. A política é a arte do possível.

  1. Como todos aqueles erigidos no barro do personalismo, é refém da vontade sanguínea dos que o idolatram, daí porque ora atado à camisa de força do jacobinismo em curso — que a todos iguala com método, como se entre os políticos criminosos não houvesse aqueles, maiores, que assaltaram o Estado em prol de um projeto autoritário de poder.

Como pode Bolsonaro ser “refém da vontade sanguínea dos que o idolatram” se ele falou a mesma coisa por todos estes anos, mudando em poucos pontos seu discurso e gradualmente dando-lhe maior precisão semântica? Ser refém da vontade dos outros é ser um demagogo como Lula, que muda de opinião como quem muda de camisa, ou abraçar o politicamente correto (como Dória) para parecer elegante e cheirosinho, sem nem perceber como a aceitação deste código de conduta é uma rendição prévia que anula qualquer conservadorismo minimamente real e concreto. Definitivamente não é Bolsonaro quem escolhe seu discurso e sua conduta movido por modas e medo de ostracismo; seu discurso mantém-se, em essência, o mesmo desde quando era impopular e distante dos holofotes da mídia. É agora que o povo está reconhecendo a existência de (até qualquer prova em contrário) um político sem a demagogia profissional de Lula, Aécio, Marina e companhia limitada; um político que, ao contrário de negar – como alega Andreazza – a existência de bandidos maiores e mais graves, com projetos autoritários de poder, foi justamente quem mais os denunciou, e mostrou como a corrupção endêmica do Congresso estava sendo posta a serviço dos interesses do Foro de São Paulo. Para o conservador de lastro, porém, toda esta cadeia de fatos é substituída pela fé metastática, que contorce as evidências em busca da promoção de uma realidade alternativa.

  1. Como todo inflexível em causa própria, ele só transige — pulando de PP em PSC, de PSC em PEN — se para cultivar a mitologia sobre si. O partido sou eu — dirá. O honesto sou eu — diz. Logo: e daí que seu voto seja presente aos esquerdistas que propagandeia combater? É o preço que paga todo arrivista. E ele sempre poderá se escudar na canalhice segundo a qual votou como Jandira e Jean, mas por motivos diversos.

Sobre a falácia de analisar o todo pela parte, já a comentamos. Não mastigaremos este chiclete novamente.

  1. É assim, com pureza, com distinção, que um mito presta serviço ao PT.

Depois de desfeitas todas as falácias do editor de livros, o que mais dizer? Quem presta serviço ao PT não é Bolsonaro, mas Andreazza, o conservador de lastro.

Por que a oposição ao governo petista se concentrou no fenômeno da "corrupção" em vez da violência genocida cotidiana e…

Publicado por Olavo de Carvalho em Terça-feira, 8 de agosto de 2017

Se quiser ler mais sobre o uso destas falácias da esquerda que Andreazza utiliza, vale muito a leitura destes três artigos do Prof. Olavo de Carvalho abaixo: