A passiva dessensibilização do controle de TV



A passiva dessensibilização do controle de TV

Por: Juliana Gurgel

É sensato concluir que aprendemos com os nossos erros. É um processo natural. Quando crianças vamos associando nossas ações às respectivas consequências de nossas escolhas e a tendência é construir um comportamento a partir desse registro.

Em maior escala, podemos igualmente prever consequências avaliando comportamentos repetidos. A criação artística, dentre suas inúmeras possibilidades, é uma forma de processar esses comportamentos, sejam eles referentes a situações pessoais ou a episódios históricos, por exemplo.

Quando a arte audiovisual, um filme – como forma de criação artística – é elaborado, ele necessariamente possui um tema ou intenção. A linguagem com que o tema é conduzido, nos permite avaliar o que foi apresentado. Assim, a forma na arte é indissociável de seu conteúdo (voltaremos a este tema em uma outra ocasião). Um poema, uma pintura, uma escultura, uma peça de teatro, uma sinfonia, cada uma das linguagens artísticas possui força e possibilidade para a fruição e apreensão do público. Podemos propor o mesmo tema para diferentes artistas e cada um virá com uma realização única. O audiovisual possui esta característica. Um tema pode conter inúmeras potências em sua realização e a sua forma indicará como o público irá receber este conteúdo.

Vamos pensar no filme ‘Chuck Norris vs o Comunismo’, (Romênia,2015), como o socialismo não tem uma quantidade de filmes proporcional aos milhões de mortos que causou (e causa), precisamos em alguns momentos voltar a filmes já comentados ou antigos. A força deste filme é a sua abordagem. Vemos no filme da romena Ilinca Călugărean, que o comunismo não significa unicamente a escassez de alimentos, que acontece ainda em Cuba e na Venezuela, ou como ocorreu no pouco conhecido Holodomor (a Grande Fome na Ucrânia). A aplicação do pensamento comunista priva as pessoas, além da comida, de sua liberdade total, e isso inclui sua autonomia em relação à fruição da arte.

Nesta época, A Estação de TV da Romênia era o único canal do país e visava promover o partido e influenciar a população. Nas duas horas de programação que a TV transmitia, a população ficava cativa de discursos cuja temática era ressaltar o socialismo sem qualquer restrição e criticar qualquer outra forma de governo: “O futuro pertence ao socialismo, ao comunismo. A um mundo sem imperialistas capitalistas”. Assistir a filmes em casa era ilegal. O salário era de 2 mil e um videocassete custava 55 mil (mais do que um carro zero); ainda assim, milhares de pessoas corriam o risco de serem presas e punidas, ao assistirem junto de seus compatriotas a “filmes imperialistas”, como os filmes do Chuck Norris.

Os jovens ficavam mais assombrados ao ver a fartura das mesas onde aconteciam as lutas e todo o desperdício de comida, do que a própria habilidade marcial dos atores. As crianças se inspiravam na perseverança de personagens como Rocky Balboa e no sentimento de lealdade e patriotismo do Rambo; os jovens contam como os filmes foram essenciais em sua formação e que eles eram ‘famintos por cinema’.

As pessoas na Ucrânia, fossem crianças, jovens, adultos ou idosos, se reuniam para cultivar a esperança de que a vida não estava restrita ao que o Estado lhes apresentava. A força da arte transcende o entretenimento; a arte nos eleva e nos possibilita acessar o divino. Ainda que fosse “apenas” um entretenimento, isso já seria muito em se tratando de vidas privadas de liberdade. Viktor Frank, médico criador da logoterapia, conta uma passagem de quando estava no campo de concentração e como na presença de tanta morte, os prisioneiros reuniam forças para criarem uma espécie de teatro: ‘Apresentam-se algumas canções e recitam-se poemas, contam-se ou apresentam-se cenas cômicas, ou mesmo sátiras alusivas à vida no campo de concentração, tudo para ajudar a esquecer. E realmente ajuda! Ajuda a tal ponto que alguns prisioneiros comuns, não privilegiados, vêm para esse teatro, mesmo exaustos da labuta do  dia, e mesmo perdendo por isso a distribuição da sopa.’

Notem que os prisioneiros trocavam a rala sopa diária para neste dia especial se reunir com outras pessoas e esquecer da mazela em que viviam. E isso só era possível por meio de elementos artísticos, de contos, sátiras, músicas e encenações. O filme, para os romenos funcionava como forma de entretenimento, informação e confraternização. Lembrando que as religiões eram proibidas (como em todo regime comunista) e as igrejas haviam sido destruídas ou estavam fechadas. A força de um livro, filme ou uma canção, enfim, a força da arte é imensurável em situações ordinárias e extraordinárias.

Há um relato em que um grupo estava assistindo a Nero (Quo Vadis, 1951), e após a exibição uma senhora falou com a outra (as conversas sobre filmes eram evitadas ou apenas com pessoas de confiança), ‘Nero é como Nicolae Ceaușescu, queimando as igrejas’. Essa reflexão é preciosa, a senhora conseguiu associar o ditador romeno com o imperador Nero por seus comportamentos. Ela relacionou as duas situações ultrapassando a época e momento histórico desses dois personagens, pela interseção de um filme.

O processo de cerceamento em um regime socialista é gradativo, não há pressa, aliás, quanto mais discretos no agir mais eficaz é o resultado. Pode-se começar com a limitação das notícias, perseguição de filósofos que expõem o pensamento hegemônico, suspensão de contas em redes sociais, proibição de filmes e documentários e tantas outras manobras sorrateiras. Quando a população percebe os cidadãos estão desarmados e vulneráveis ao poder do Estado, a economia está desequilibrada e o país está politicamente isolado.

O sempre ‘futuro ideal que nunca chega’, ou ‘o socialismo nunca foi aplicado da forma correta’; um regime que permite que barbáries sejam realizadas no presente em prol de um futuro hipotético, não pode continuar a ser legitimado como uma proposta viável. Não por pessoas que buscam a verdade.

Se possuímos a capacidade de aprender com comportamentos repetidos e resultados equivalentes devemos soar o alarme. Antes da censura ser instaurada, muitas etapas vão sendo realizadas e uma delas é a nossa dessensibilização. Todo o país ficaria deveras estarrecido ao acordar e constatar que temos apenas uma única emissora de televisão, cujo intuito é divulgar notícias que atendem aos interesses de um determinado grupo que esteja no poder. Porém, se ao invés disso, tivermos várias emissoras, inúmeros jornais, dezenas de rádios e veículos da grande mídia que divulguem notícias alinhadas e em prol de um objetivo em comum e do mesmo grupo de poder, bom, talvez isso não seja tão assustador, certo?

A impressão de liberdade nos fornece uma sensação de tranquilidade; ficamos pacatos diante de um controle remoto que nos dá acesso a diversas emissoras de TV a cabo; nem de longe somos cerceados como em um país socialista, afinal, eu escolho o que vejo, certo?

Ficamos sossegados porque afinal de contas, aprendemos com os nossos erros. E a humanidade, aprende com os erros de outras sociedades do passado recente e antigo, ou, como foi dito anteriormente, ‘podemos prever consequências a partir de comportamentos repetidos’, certo? Bom, não devemos contar com isso.

A habilidade em distorcer e renovar propostas de um objetivo derrotado anteriormente continua a nos surpreender. Crer que a quantidade de jornais impressos, revistas e emissoras de televisão, atesta a liberdade de expressão é ingenuidade.

Vemos a hiperestimulação da dúvida e a relativização dos fatos. Ou seja, a mídia convencional ou mainstream têm tido como função instaurar o caos. Sua leitura está viciada. E por este motivo estão sendo substituídos por mídias alternativas que surgem da necessidade do leitor em conhecer os fatos sem a interpretação comprometida da ‘extrema imprensa’. ‘Extrema imprensa’ é como tem sido chamada a grande mídia dedicada a deturpar fatos com o intuito de combater propostas e pessoas com as quais não compactua ideologicamente. As mídias alternativas são mantidas pelos próprios leitores e não por dinheiro público.

Cogitar a regulamentação da mídia é o reconhecimento de nossa apatia. É perder a oportunidade de aprender com erros cometidos no decorrer da história, sendo que, se no passado não se sabia dos riscos de uma mídia regulamentada e calada, hoje já temos informações suficientes para compreender o que significa a intervenção do Estado sobre a liberdade do discurso. Não temos mais como culpar a ignorância.

 

Filmes:
Chuck Norris vs Comunismo – Dir. Ilinca Călugăreanu, 2015.
The Soviet Story (Documentário A História Soviética) – Dir. Edvins Snore, 2008

Sobre o Colunista

Juliana Gurgel

Juliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

13 Comentários

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  • E qual é a conclusão, o que vocês sugerem? Trancar-se num convento e/ou se isolar numa ilha deserta sem televisão, rádio, internet etc? 😉 KKKKKKKKKKK! 😀

  • Maria, não seja estúpida, em nenhum momento ela sugeriu tal coisa, mas sim ficarmos atentos ao que vem ocorrendo no mundo, e principalmente, aqui no Brasil. Não podemos ficar parados e deixar que eles façam o que quiserem, pois assim algum dia não muito distante, podemos acordar e estarmos como numa Venezuela, e não digo na questão de falta de comida, mas sim de liberdade, os Venezuelanos caem as ruas para protestar pela saída do Maduro e estão sendo agredidos pelas forças do ditador e até mesmo mortos. Os nossos vizinhos Venezuelanos já perderam até mesmo a liberdade de poderem protestar contra o governante.

  • Parabéns ao Terça Livre por esse lindo conteúdo que vocês inserem sem aquela deturpação da extrema mídia.

  • @Alison , legal, de acordo com você “Não podemos ficar parados e deixar que eles… blablabla”. Então o que você sugere que se faça? Qual é o plano? 😉

  • É mto importante, cara Maria Vaicoasôtra; tentarmos entender uma mensagem, ao menos, antes de comentar. Senão cretinices é o que vai rolar. Ou então a senhora vai procurar um canal ao qual pertença mais quiçá organicamente. Fica à dica😉🤭🤓

  • @Ricq Galvão , pelo contrário! Entendi muito bem o que autora da matéria quis dizer, i.e., que a Mídia manipula os telespectadores. Só tem um “probleminha”: para pessoas sensatas isso é ÓBVIO ou elas estão CARECAS DE SABER. Agora, a questão é: O QUE VOCÊS SUGEREM QUE SE FAÇA? 😉 KKKKKKKKKKKKKK! 😀

  • É +complexo, Maria. Tipo, vc está a analisar binàriamente; qndo a situação é multifacetada. O objetivo fundamental é q nos eduquemos p/ lidar melhor com cada situação e contextos; aumentando nosso coeficiente de liberdade e autonomia. Esse tipo de conformismo só ajuda quem estiver montando em algum tipo d privilégio idôneo ou seja massa d manobra dos dito-cujos. Enfim, minha cara Maria Vaicoasôtra: vamos ter +humildade e menos bazófia; respeitar o espaço dos q querem entender a Realidade, em vez d ficar acomodado com meias verdades, meias liberdades e meios cérebros encefálicos.

  • @Ricq Galvão , eu vou repetir a pergunta para vocês saírem do seu “conformismo”: O QUE VOCÊS SUGEREM QUE SE FAÇA? “O objetivo fundamental é q nos eduquemos p/ lidar melhor com cada situação e contextos; aumentando nosso coeficiente de liberdade e autonomia” como? De que jeito? 😉 KKKKKKKKKKKKKK! 😀

  • Esqueceu o Gramscismo? Hoje em dia o meio cinematográfico ocidental serve majoritariamente para enfiar essa merda toda de identidade de gênero, culto ao niilismo, depravação como fonte de propósito existencial e etc na cabeça do povo distraído. Existem dois extremos e um não exclui o outro.

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