ArtigosLuis Vilar

A provocante mente de Mark Lilla. Vale a pena conhecer!

Não concordo com tudo que o escritor Mark Lilla expõe. Todavia, muitas de suas análises provocativas – na análise de pensadores do mundo contemporâneo – são fundamentais aos dias atuais. É com grande satisfação que vejo chegar ao Brasil o A Mente Imprudente e A Mente Naufragada.

No primeiro, o diálogo com pensadores como Hannah Arendt e outros destacam a origem de uma mentalidade revolucionária e sua busca pelo mundo perfeito independente dos efeitos colaterais na História, sendo o mais grave deles o genocídio, como ocorrido no nazismo e no comunismo. Lilla reflete as consequências disso em um mundo bem atual.

Em A Mente Naufragada, o pensador Mark Lilla ressalta, por exemplo, que todo intelectual que passa a acreditar que encontrou uma fórmula de mundo perfeito por meio de suas abstrações e, com isso, o sentido da historia… acaba flertando com a “tiranofilia” (vocábulo usado pelo escritor).

Lilla faz essa crítica tanto em posturas tidas como reacionárias quanto nas tidas como revolucionárias. É algo que se prova na História, inclusive ao observarmos o espírito daqueles que não suportam críticas às suas ideias por acharem que estas abrigam um monopólio das virtudes.

Diante disso, o outro é o mal a ser combatido simplesmente por ser discordante.

Lá atrás, Aron já falava que isso era um ópio para os intelectuais. Paul Johnson também fez a mesma crítica, de certa forma.

É algo também presente em Thomas Sowell, ao mostrar isso dentro de uma intelectualidade orgânica, que não mais é composta pelo intelectual, mas por toda a rede falante que reproduz a ideia de mundo melhor. São os chamados meios culturais.

Eis a sistemática gramsciana.

Marcurse notou que esse era o X da questão ao misturar o marxismo ao pensamento de Freud com discordâncias a este último, na tese de liberar totalmente o Eros no processo civilizatório, sem compreender que determinados valores que contém ímpetos são justamente aqueles que garantem progresso.

A tiranofilia descrita por Lilla requer uma bolha ideológica com uma fé demasiada na política, para que ela não seja mais um elemento de resolução de conflitos, mas o veículo propício a mudar o mundo dentro de uma filosofia transformadora antes de ser contemplativa.

Em outras palavras, essa característica revolucionária de querer mudar tudo antes mesmo de compreender o que se muda. Enfeitiçar por meio de uma gnose (tomando emprestado o termo muito usado por Eric Voegelin). Este é um ponto muito caro ao pensamento de Michael Oakeshott.

O especialista em um tema passa a enxergar o todo pela sua especialidade e assim se observa detentor de opiniões sobre tudo. O artificial vira o natural. O desejo vira direito. O ser vira um pilar a ser preenchido por materialismo bruto misturado ao idealismo hegeliano.

É um hiato ontológico que despreza a natureza e qualquer possibilidade do que nos transcende. Não apenas a transcendentalidade religiosa, mas a da consciência do que ignoramos e está acima de nós em função da complexa realidade na qual buscamos a verdade.

Como disso no início, não concordo com tudo que Mark Lilla pontua, pois o vejo ainda como alguém muito secular. Todavia, sua literatura é provocante.

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4 Comentários

  1. “Diante disso, o outro é o mal a ser combatido simplesmente por ser discordante”.
    Qual o significado desta frase? Que eu não devo combater quem discorda de mim? Dependendo da situação, sim, eu devo combater.
    Vejamos um exemplo:
    Eu discordo dos valores/ideias dos marxistas e muçulmanos, não devo combatê-los mesmo a História mostrando e provando o que eles fazem quando chegam ao poder?
    Uma coisa muito comum que acontece é as pessoas acreditarem que tudo que os intelectuais falam e escrevem são a mais pura perfeição e verdades inquestionáveis, mentalidade típica de criancinha encantadas com contos de fadas.
    Os intelectuais antes de tudo são seres humanos por isso, muitas vezes, cagam pela boca.
    Uma ovelha não pode combater um lobo porque é discordante dela?

  2. Amigo, o sentido está no SIMPLESMENTE. Veja: “O outro é o mal a ser combatido SIMPLESMENTE por ser discordante”. Há uma diferença entre uma eventual discordância que eu tenha com alguém sobre um determinado assunto e, por conta disso, se trave um debate honesto. Isto não quer dizer que do outro lado esteja o MAL, mas por vezes alguém enganado ou até eu mesmo seja o que tenha a visão errada e acabe por me convencer. O professor Olavo de Carvalho ressalta algo nesse sentido em O Jardim das Aflições quando diz que trata as próprias opiniões a chicotadas para ficar com o que se mostra verdadeiro nelas. Ou seja: confronta todo tipo de argumento que possa surgir. Agora, é claro que há MALES travestidos de IDEIAS que devem sim ser combatidos, como por exemplo, o comunismo. Eu não tenho discordância com comunistas. Eu tenho aversão ao comunismo pelo que ele foi e é. Neste sentido, obviamente, ali há ALGO a ser combatido por ser um MAL. Eu combato as ideias da mentalidade revolucionária não por simplesmente discordar, mas por enxergar claramente um MAL ali que resulta em tragédias. Então, aí não há uma disputa de ideias, mas uma DENÚNCIA clara e explicita do que é esse MAL. A chave de interpretação está, portanto, no SIMPLESMENTE. Com muitas pessoas, no cotidiano, podemos ter divergências e reconhecer as boas intenções no que é dito apesar de identificar erros e até mesmo ouvir o que é dito para identificar erros em nosso pensamento e assim nos curvarmos à verdade. É DEVER de uma ovelha combater o LOBO, pois nesse caso não se trata de IDEIAS, pois só se debate IDEIAS com quem as tem. Nesse caso, trata-se de sobreviver ao MAL. Eu – mais do que ninguém – prego que não deve acreditar em alguém simplesmente por este ser visto como um intelectual. Intelectuais, muitas vezes, fazem parte de uma intelectualidade orgânica de interesses inconfessáveis e é necessário estarmos sempre atentos ao conjunto de correntes de poder que atuam sobre essas ideias. Entende porque fiz questão de usar o SIMPLESMENTE? Está palavra está na sentença justamente porque eu concordo com você: há coisas que devem ser combatidas porque é nosso DEVER combater o MAL, assim como é nosso dever termos a inteligência, que é dom de Deus, para identificá-lo claramente. Forte Abraços. Luis Vilar!

  3. Pensar não faz mal a ninguém, instigar o pensamento é um dom.
    Acho impossível explicar o mundo sem uma visão Cristã somente por formulações sociológicas ou políticas, creio que saí da bolha que acha que o mal está num nível espiritual e só lá , o mal é presente, pensado, instruido, e muito bem trabalhado , senão não teríamos tantas pessoas nesta seara vermelha e sanguinolenta.
    Jesus Cristo se fez homem ( o Verbo) veio a terra , escolheu , juntou , treinou, testou pessoas e estratégias e fez viva sua Igreja desejo do Pai desde a fundação do mundo. Então o bem espiritual se fez ação , se fez verbo.
    Lúcifer ( Estrela da Manhã ) , que até no nome é uma fraude ,o mentor e inimigo do bem e de Deus , também O copia, também se faz verbo, não o Divino é claro, se fingindo deus promete o paraiso , só que na terra, e também treina , também prepara , também envia seus seguidores , a proclamar a mentira.
    Se nossa relação com Deus for apenas “espiritual e mística” , seremos presas fáceis , pois não levaremos em conta o trabalho terreno do diabo , que como dito, é real, efetivo e com muitos trabalhadores.
    Se não conhecermos nosso inimigo , como lutar contra ele? Batalha perdida.
    Não despresar o conhecimento é conselho de Deus , e sábio, continuemos nossa busca diária pelo entendimento.
    Obrigado Luis por seus textos.

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