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A REVOLTA ANTI-GLOBALISTA CHEGA À ROMA

Por Filipe G. Martins*

A cada dia que passa, torna-se mais difícil ignorar a tendência anti-establishment e anti-globalista desencadeada pelo Brexit e pela eleição do Trump. Enquanto nossos jornalistas estão ocupados tentando macaquear seus congêneres americanos e europeus, engajando-se em um jogo fútil de adjetivação e shaming, o mundo passa por uma série de mudanças que são sempre retratadas da forma mais caricatural possível, lançando quem ainda depende da mídia tradicional ao mais inerme estado de confusão e ignorância. Um exemplo atualíssimo permitirá que vocês entendam o que estou dizendo e tirem suas próprias conclusões.

Ao longo do dia de hoje, milhões de italianos irão às urnas para votar em um referendo que, na prática, decidirá muito mais do que as questões que aparecem formalmente nas cédulas. De modo bastante resumido, o referendo, que foi proposto pelo Primeiro Ministro Matteo Renzi, tem por finalidade realizar uma série de reformas constitucionais que alterariam o funcionamento do poder legislativo, levariam a uma concentração maior do poder e dariam ao primeiro ministro os meios necessários para implementar sua agenda política — basicamente, o Senado perderia o poder de veto e veria suas funções legislativas restritas a um escopo bastante limitado e específico; o número de senadores diminuiria de 315 para 100; uma série decisões seriam transferidas das instâncias locais para o governo central; e a composição do governo passaria a depender apenas da Câmara dos Deputados; resultando, por um lado, num sistema mais dinâmico e, por outro, numa concentração exagerada de poder nas mãos do primeiro ministro.

O que está em jogo, entretanto, não é uma simples reforma política. Com o anúncio, feito por Renzi, de que a rejeição das propostas levariam à sua renúncia, os méritos da reforma estão sendo eclipsados pela disputa entre os que desejam que Renzi permaneça no governo e os que desejam que ele dê lugar a políticos de partidos antagonistas e que, de algum modo, se opõem à União Européia — algo que uniu o partido separatista Lega Nord, o amorfo Movimento Cinque Stelle do comediante Beppe Grillo, o Forza Italia de Silvio Berlusconi, e partidos de extrema-esquerda numa campanha pelo “não”.

Como aconteceu no Brexit e na eleição americana, a esquerda italiana (com o auxílio da grande mídia internacional) vem tentando demonizar os opositores da reforma, chamando-os de extremistas de direita, xenófobos e trumpistas. Os especialistas, mais uma vez, vêm fazendo previsões apocalípticas sobre o que acontecerá caso a proposta de Renzi seja rejeitada. Não sem alguma razão.

Além de mostrar o dedo do meio para o establishment italiano e para os burocratas da União Européia, os italianos podem fortalecer o movimento euro-cético nacional, dar o primeiro passo rumo a reafirmação de sua soberania, humilhar e castrar politicamente o Partito Democratico (herdeiro do PCI de Antonio Gramsci) e desencadear um processo que pode resultar não apenas na saída da Itália da Zona do Euro e da União Européia, mas também na dissolução desta última — um cenário apocalíptico para o consórcio das elites globalistas e uma vitória para todos que se opõem ao avanço do globalismo e à dissolução das culturas locais.

Não digo isso com a mesma certeza que disse que o Brexit seria aprovado e que o Trump seria eleito, mas acredito que o “NÃO” vencerá, que Matteo Renzi renunciará, que o Banco Monte dei Paschi irá falir, trazendo instabilidade para a zona do euro e colocando esse monstrengo da burocracia na UTI. Afinal, isso é o mínimo que se pode esperar quando a revolta anti-globalista chega à Roma, berço da civilização latina e uma da pedras angulares da civilização ocidental.
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*Como publicado em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=959269604217390

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