A visão da crise do vírus chinês vista pelos olhos de um general

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Autor: General de Brigada Reformado Luiz Eduardo Rocha Paiva

A crise do corona vírus, após o primeiro mês na China, não poderia mais ser considerada apenas do ponto de vista da saúde, haja vista a magnitude e implicações em todos os segmentos da sociedade e pelas perspectivas das consequências em âmbito global.

É muito fácil dizer isso depois da crise instalada, pensarão alguns. Realmente, o cidadão individualmente e com seus afazeres e preocupações só percebe a extensão do problema muito tempo depois. Não é dele essa obrigação, pois o Estado é quem deve se antecipar, por ser o ente encarregado de garantir a segurança, o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade e do cidadão. Não pretendo considerar como o tema foi ou deveria ter sido gerenciado em outros países, mas sim aqui.

O Brasil não tem, em nível ministerial, um órgão de elaboração da Estratégia Nacional (ou Grande Estratégia), que trace os objetivos nacionais de longo prazo, fundamentados na Constituição Federal e nas leis complementares, e as diretrizes estratégicas para alcançá-los. Ou seja, um Projeto Nacional, que aponte os rumos gerais sem impor estratégias setoriais, a não ser algumas onde a atuação do Estado seja indispensável. Esse órgão também elaboraria e monitoraria cenários prospectivos, bem como orientaria e coordenaria, com os demais ministérios, a condução das estratégias setoriais.

Assim, os servidores de tal órgão, naturalmente e por atribuição, levantariam os desafios, oportunidades e ameaças dos cenários e proporiam as medidas para com eles lidar, sempre com base em elementos de juízo superiores aos dos demais cidadãos. Essa ideia existe há décadas em muitas cabeças, portanto, não surgiu depois da crise, que só confirmou o acerto desse pensamento e como faz falta sua implementação.

Eis então que, no monitoramento de cenários e lá nos idos de novembro ou dezembro de 2019, esse órgão já teria começado a estudar a crise do corona vírus na China como fato portador de futuro. Isto é, haveria um órgão pensando e propondo medidas para o país se preparar, ciente de que epidemias anteriores também chegaram aqui. Tais medidas seriam voltadas tanto para o setor de saúde, o primeiro a ser priorizado, quanto para outros que teriam de ser mobilizados em se agravando ou em se estendendo o problema.

Hoje, está clara a falta de uma integração oportuna dos setores envolvidos na crise, não restrita ao setor de saúde que, vale dizer, cumpre muito bem o seu papel, porém, focado no que lhe compete. Deveria haver um planejamento prévio e integrado para lidar com o porvir, após o remédio da quarentena radical e seus efeitos colaterais, bem como para coordenar as ações em todos os campos do poder nacional. Eis um dos espaços do órgão em pauta, lembrando que não seria apenas o gerenciamento de crises mas, principalmente, a elaboração da Estratégia Nacional.

No entanto, pasmem os leitores, existe na estrutura de governo esse órgão, amadoristicamente relegado a segundo plano desde os anos 1990. Trata-se da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), cujo Secretário, que deveria ter status de ministro, seria o chefe do gabinete dessa crise. Não significa ser o decisor, mas sim o gestor, coordenando com os demais ministros envolvidos, pois a SAE seria o órgão com maior conhecimento global do problema, ao tê-lo monitorado desde as origens.

Infelizmente, o pensamento estratégico de alto nível não é valorizado pelo governo e, tampouco, pelas lideranças políticas desde os anos 1990. Embora sempre tenha existido, na estrutura de gestão governamental, gente com visão de futuro a se esforçar para incutir o pensamento estratégico nas instâncias decisórias, essa carência permanece como uma perigosa vulnerabilidade nacional.

Um país não pode se atrelar, prioritariamente, ao que pensa o segmento da economia. Ela tem papel de extrema relevância, pois baliza os estrategistas da SAE, de modo a não alçarem voos calcados em anseios e sonhos inviáveis. No entanto, não é nela que se planeja o futuro, embora assessore para garantir objetivos e metas realistas, o ritmo sustentável das ações e o faseamento necessário para a viabilizar a concretização dos interesses vitais da nação. Enfim, para buscar a compatibilização de objetivos com recursos.

Não posso imaginar o Exército com o Estado-Maior subordinado à Secretaria de Economia e Finanças ao invés de assessorado por ela. Pior ainda, se relegado a um nível de segundo plano na estrutura de comando da Força.

Essa crise é para ser estudada como um case, visando aperfeiçoar a gestão de governo no nível estratégico nacional.

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

2 Comentários

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  • Acabando de ler e interpretar uma profecia de Nostradamus…
    Deus não deixa que esta profecia seja cumprida.
    Desterrai. Detenha. Pelo Amor do Seu Santo Nome. Creio em Vós!

  • Que interessante Sr general-de-brigada, a forma como o Sr se expressou no texto ficou parecendo com a fala de alguém que está ressentido por ter ido para reserva apenas no primeiro posto do generalato (mas já se passaram 13 anos!). Por favor, não podemos ser engenheiros de obra pronta, tais comentários para terem efeito prático (ou estratégico) deveriam ter sido sugeridos (diretamente a um “irmão de farda”) lá na época da transição ou no início da gestão ou mesmo até novembro de 2019, ao invés de agora (quando o vírus chinês aqui passeia leve e solto), até pelo fato que já é de domínio público que o SAE acabou de passar para o vínculo de assessoramento direto do Presidente, com a chegada do Almirante Rocha. Ao invés de ficar criticar as ações do governo e logicamente do Presidente (vosso atual comandante, mesmo o Sr inativo, e que recentemente brigou com o Congresso e com a imprensa para lhe garantir, por exemplo, a paridade remuneratória com os da ativa), deveria ter disponibilizado todo esse “conhecimento estratégico” em momento tempestivo ou aguardar as próximas eleições para concorrer ao cargo mais espinhoso e difícil desta combalida República, para colocar em prática toda essa visão político-estratégica. Para concluir, gostaria de solicitar ao Sr comentários sobre a situação do Covid-19 nos Estados Unidos, explicando porque a maior potência do mundo, altamente experiente e desenvolvida no campo estratégico e de inteligência, está a passar sensíveis dificuldades, mas por favor não se esqueça de comentar (o que acabou ocorrendo ao tratar da situação no Brasil) sobre a atuação da imprensa canhota de lá e do partido marxista de oposição ao governo Trump. Desde já obrigado!

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