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Aborto não é problema de saúde pública

Rodrigo Serra Palmeira
 


Recentemente no debate público as discussões sobre o aborto se popularizaram, avolumaram-se e como sempre ocorre no Brasil, a argumentação gira em torno de impressões emocionais geradas por meias verdades associadas a uma grave enxurrada de dados imprecisos ou simplesmente falsos, basta lembrar que determinados veículos de mídia afirmam que são praticados cerca de um milhão e meio de abortos anuais no Brasil, quando na verdade o número é inferior a um décimo disto.

Alardeiam o argumento de que o bebê é propriedade física da mãe, sendo um tipo de apêndice cuja permanência estaria vinculada a utilidade que o mesmo poderia ter, e portanto, se a gestante considerar que aquele ser não seria vantajoso, teria o direito e quem sabe o dever de eliminá-lo. Para justificar o “status” descartável do feto, vinculam a própria condição de humanidade com um ente subjetivo chamado de “consciência”, porém a determinação direta da consciência é impossível e sua avaliação necessariamente se daria por dados escolhidos por um consenso científico que seria posteriormente admitido como verdade pelo parlamento.

É importante observar que esse mecanismo ancora a condição de humanidade a ideias estritamente mutáveis, as verdades científicas de hoje amanhã serão desmascaradas, processo inevitável no método científico, cuja natureza é precisamente a construção de conhecimento sobre escombros dos edifícos antigos. Essa caraterística da ciência não diminui sua importância, apenas explicita que é ferramenta inadequada para tomada de posicionamentos normativos e geração de premissas referentes a valores intrínsecos da condição humana.

Existe também o “argumento” que aquele ser ainda em formação dentro do ventre materno, aquele mesmo que foi concebido através de um ato sexual e que a experiência de toda a existência nos mostra que o desenvolvimento normal culmina impreterivelmente em um indivíduo, seria apenas um amontoado de células. Se trata de uma meia verdade, obviamente que o feto é um amontoado de células, porém todos nós também o somos e morreremos sendo. O ser humano passa no decorrer de sua existência por diversas modificações radicais de sua morfologia: feto, criança, jovem, adulto e idoso, a despeito de suas diferenças são a mesma pessoa e do ponto de visto da matéria, a única estrutura que se mantem relativamente constante durante todas estas modificações é o código genético, formado no exato momento da concepção.

Naquilo que se refere às práticas médicas é importante entender que o objetivo primordial de qualquer ação é o de conservar a vida ou a função, curar se possível, caso contrário manter a vida mesmo com prejuízos e quando todos os recursos foram tentados e falharam, resta palear e confortar. Foi neste caminho que a medicina se desenvolveu, aquela perna gangrenada que antes matava, posteriormente foi amputada e hoje é reconstituída de maneira que em muitos casos a função retorna completamente ao normal, melhor ainda, muitas condições que levavam a gangrenas foram descobertas e evitadas, eliminando o início de todo processo de doença.

Nesse raciocínio, podemos então afirmar que a obstetrícia consiste em assistir a genitora e filho de modo que ambos sejam capazes de se desenvolver plenamente, sendo limitada a prática do aborto a aquelas condições em que a permanência do concepto levaria inevitavelmente a morte da mãe. Estes procedimentos infelizes expõem uma falência da medicina, nos forçando a aprimorar os recursos e métodos para posteriormente levar todas as gestações outrora incompatíveis até um desenvolvimento completo e saudável para mães e filhos.

Por fim, o dogma norteador hipocrático conhecido por “evitar infligir o mal”, impele que toda ação de promoção de saúde ofereça benefícios superiores ao danos e é uma norma inatacável, no entanto, por diversas vezes os homens esqueceram dela e sempre o desfecho dessas ações se mostraram terríveis máculas na história da humanidade. Não há resultado cirúrgico pior que o óbito e entendendo que este é o objetivo final do procedimento abortivo é possível concluir que o aborto é o processo patológico a ser combatido, não possuindo as características necessárias para ser oferecido como solução, especialmente no universo da saúde.

Sobre o Colunista

Rodrigo Serra Palmeira

Rodrigo Serra Palmeira

Rodrigo Serra Palmeira, 40 anos.
Médico formado na UFMA, ano de 2002.

6 Comentários

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  • Parabéns pelo texto e também por ser um profissional de saúde que honra o seu juramento. Orgulho de poder chamá-lo amigo.

  • A Ciência não é uma Construção sobre Escombros, é a Evolução Contínua do Pensamento Humano a respeito da Natureza!!!!
    E infelizmente, o texto é muito técnico, não vai no cerne da questão e esquece o “Aborto” que a própria sociedade opera sobre Mães e Filhos em em geral nos Seres Humanos.

    O problema é sim o Problema de Saúde e, mais ainda, um Problema Social. Como diz os versos do Poema abaixo de Castro Alves, que Infelizmente ainda é bastante atual:

    A Mãe do Cativo:

    Ó mãe do cativo! que alegre balanças
    A rede que ataste nos galhos da selva!
    Melhor tu farias se à pobre criança
    Cavasses a cova por baixo da relva.

    Ó mãe do cativo! que fias à noite
    As roupas do filho na choça da palha!
    Melhor tu farias se ao pobre pequeno
    Tecesses o pano da branca mortalha.

    Misérrima! E ensinas ao triste menino
    Que existem virtudes e crimes no mundo
    E ensinas ao filho que seja brioso,
    Que evite dos vícios o abismo profundo …

    E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
    O raio da espr’ança… Cruel ironia!
    E ao pássaro mandas voar no infinito,
    Enquanto que o prende cadeia sombria! …

    II

    Ó Mãe! não despertes est’alma que dorme,
    Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
    O pobre que rola no abismo sem termo
    Pra qu’há de sondá-lo… Que morra sem luz.

    Não vês no futuro seu negro fadário,
    Ó cega divina que cegas de amor?!
    Ensina a teu filho – desonra, misérias,
    A vida nos crimes – a morte na dor.

    Que seja covarde… que marche encurvado…
    Que de homem se torne sombrio reptíl.
    Nem core de pejo, nem trema de raiva
    Se a face lhe cortam com o látego vil.

    Arranca-o do leito… seu corpo habitue-se
    Ao frio das noites, aos raios do sol.
    Na vida – só cabe-lhe a tanga rasgada!
    Na morte – só cabe-lhe o roto lençol.

    Ensina-o que morda… mas pérfido oculte-se
    Bem como a serpente por baixo da chã
    Que impávido veja seus pais desonrados,
    Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.

    Ensina-lhe as dores de um fero trabalho…
    Trabalho que pagam com pútrido pão.
    Depois que os amigos açoite no tronco…
    Depois que adormeça co’o sono de um cão.

    Criança – não trema dos transes de um mártir!
    Mancebo – não sonhe delírios de amor!
    Marido – que a esposa conduza sorrindo
    Ao leito devasso do próprio senhor! …

    São estes os cantos que deves na terra
    Ao mísero escravo somente ensinar.
    Ó Mãe que balanças a rede selvagem
    Que ataste nos troncos do vasto palmar.

    III

    Ó Mãe do cativo, que fias à noite
    À luz da candeia na choça de palha!
    Embala teu filho com essas cantigas…
    Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.

    Castro Alves

    Bom Dia a Todos.

  • Corrigiria o Texto para Aborto é um Problema de Saúde Pública induzindo por um Claro Problema de Não se Assistir Socialmente o Processo de Conceber e por uma Criança no Mundo. Mas Existe o Aborto que a Própria Sociedade provoca ao Recém Nascido.

    Sou Contra o Aborto Físico,

    Mas temos que resolver o “Aborto Social” e acolher o Rebento de maneira que seu futuro não seja a “Morte em Vida Severina”

    Um abraço.

  • Steve Jobs, foi concebido por uma mãe biológica que não desejava o criar e ele foi adotado por uma família que o criou!!! Devemos trabalhar nas instituições para que seja assim.

    Matar qualquer forma de vida com o potencial de valores que uma vida representa.

    Jamais!!!!

    Para um Médico que tem um compromisso verdadeiro com a vida, um aborto é uma terrível dor!!!!
    Alias para qualquer ser humano que valorize os processos mais sublimes da natureza. Para mim dois são emblemáticos:
    1- O Nascimento de uma estrela a partir do efeito da gravidade sobre uma nuvem de poeira cósmica.
    2- O Nascimento de um ser a partir de uma ínfima quantidade de matéria biológica no ventre humano.

    São as duas coisas mais lindas e mais emblemáticas da criação.

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