Luis VilarNotícias

Aos “mestres”, com carinho…mas sem vaselina!

O grande problema dos “inteligentinhos” analistas de plantão, ao falarem de comunismo, é querer defini-lo como um regime político, sem entender que se trata de um movimento contínuo de corpo doutrinário flexível, apoiado em uma ideologia, mas com estratégias de linhas muito bem definidas. 

Daí, Mikhail Gorbatchev já ter sentenciado de forma enfática: “Não vamos desistir nunca!”.

Então, olhar apenas para a definição de dicionário político e com foco no que foi a extinta URSS – seja no período leninista, stalinista ou até nos posteriores – é simplesmente bancar a pose de historiador ou cientista político para dizer que tudo o dito pelos demais não passa de “teoria da conspiração”.

Todavia, o movimento comunista segue vivo. Se antes era um fantasma que rondava a Europa, hoje é um movimento que troca de pele tal qual uma serpente, ainda que ganhe outros nomes. É a visão posta na linha do horizonte que norteia ações, como foi definido em uma palestra assistida por Nikita Kruchev, quando este assumiu o poder.

No relato de Gorbarchev, Nikita assistia um conferencista que definia – já após a queda de Stalin – que o “comunismo estava logo ali radioso na linha do horizonte”. Um camponês russo, também presente ao evento, indagou ao palestrante: “Senhor, o que é linha do horizonte?”.

Todo pomposo, o intelectual respondeu: “é a linha que liga o céu e a terra e que quanto mais nos aproximamos dela, na caminhada, mais ela se distancia”.

Prontamente, o camponês reagiu: “ah, agora então está muito bem explicado o que é comunismo!”. Pois é.

O problema é justamente o que vai acontecendo nessa caminhada que mais lembra a figura de alguém sentado em um burro, estendendo a vara com uma cenoura, enquanto o animal anda inutilmente sonhando em pegar o alimento. Quem seria esse burro? O idiota útil.

Na estrada da história, tal caminho já rendeu – como registra o famoso Livro Negro do Comunismo – milhões de mortos.

Não temos mais a União Soviética. Raramente encontramos os mais radicais que defendem a tomada total dos meios de produção, a estatização 100% etc. Até porque, na história do movimento socialista/comunista, ficou mais do que comprovado a necessidade de algum grau de capitalismo para que esses regimes totalitários funcionem de algum modo. Quem duvida que estude atentamente a Nova Política Econômica de Lênin.

Mas, falemos de enxergar o movimento em si e não apenas dos regimes que já existiram e de alguns que ainda persistem, como a Coréia do Norte, defendida – aqui no Brasil – pelo PCdoB. Cito como fonte, um estudo do cientista político e historiador Archie Brown, cujo título é Ascensão e Queda do Comunismo.

No capítulo 5 desta obra, Brown destaca as características definidoras do sistema comunista e de sua implantação.

De forma didática, ele divide em três blocos a serem analisados: a forma como se observa o sistema político, a forma como se enxerga o sistema econômico e o sistema ideológico que abriga os outros dois; pois, sem a crença em um objetivo inalcançável, os resultados e práticas drásticas do caminho não possuem uma fé metastática (conceito do pensador Eric Voegelin) na qual se apoiarem.

Archie Brown coloca que, em relação ao sistema político, há a necessidade de um partido que se veja e se faça hegemônico, sendo este o monopólio das virtudes e o único com a razão iluminada para transformar a sociedade para melhor.

Este partido passa a ser mais que o Estado, mais que a nação e assume para si, apesar de conduzido por poucos, o papel de “a voz do povo”. Para ele, a política é mais importante que as leis, já que a Justiça – se não for em função do que eles defendem – é um mero instrumento adversário e reacionário para impedir as transformações. É “gópi”! Ela, na visão comunista, age em nome do inimigo a ser combatido.

O partido – desta forma – tem que ocupar tudo e se fazer presente em todas as relações sociais, ainda que sem revelar seu nome; utilizando-se dos meios culturais, por meio de “intelectuais orgânicos” (como definido por Antonio Gramsci) para plantar demandas de interesses desse mesmo partido.

Assim, a cúpula da agremiação responde ao que ele mesmo cria como pseudos necessidades. Quem for contra a esse sistema é inimigo a ser combatido, inclusive se for comunista também. Na URSS houve – neste sentido – o que se chamou de “divisionismo direitista” para dar sustentação ao expurgo promovido por Stalin.

Trazendo para os dias atuais, é só perceber o quanto partidos como o PT, PSOL, PCdoB e outros tomam conta de meios como DCEs, sindicatos etc. Quando nessas manifestações desses partidos não vemos a bandeira nacional, mas somente as bandeiras vermelhas, é um sintoma daquele que se vê acima da nação, apesar de fingir brigar por ela. A tática é comunista porque a revolução é permanente. É um movimento, ora bolas.

No segundo quesito, que é o econômico, trata-se da posse “não capitalista” dos meios de produção. Percebam que não significa necessariamente estatizante, mas não capitalista. Essa diferença é fundamental.

Ou seja: que o Estado interfira o máximo que puder para direcionar a economia como queira, sendo um sócio oculto dos meios de produção, que é o setor produtivo. O excesso de impostos é uma das táticas, bem como a legislação abusiva que atrapalhe o livre mercado e as relações de trabalho, colocando o Estado como mediador e árbitro de todas as relações sociais.

Este ponto – obviamente – casa com o primeiro, pois vale lembrar que o partido quer estar acima do Estado. Qual empresário no Brasil de hoje não possui o Estado como “sócio oculto”? Basta ser empreendedor para saber do que estou falando. Tudo é regulado, legislado em excesso.

Não significa dizer que não devam existir leis. Claro que sim. Elas devem existir. Mas o excesso faz com que se perca o bom-senso dando a impressão de que o povo precisa de uma babá diante dos sempre malvados empresários, e o agente benevolente é o poder estatal que mal presta os serviços essenciais que deveria.

Fica, portanto, a crença de que o Estado quer sempre o seu bem. Mas o Estado é um ente abstrato na mão de políticos que estão em um partido. Se este partido se torna hegemônico e se coloca acima de tudo, dá para perceber claramente quem manda.

Será que é tão difícil enxergar as semelhanças com o que vivemos no Brasil nos últimos anos, em que um estamento agiu exatamente dentro dessas táticas e nos fez odiar políticos ao mesmo tempo em que passamos a acreditar que o Estado resolve tudo? Corrige todas as injustiças? Que precisamos sempre de mais leis e de um sistema completamente positivista?

O terceiro ponto é ter uma ideologia dominante – expressa por todos os meios em discursos que se somam para vender determinadas crenças – que instigue a fé política de que o Estado resolve tudo, para tudo a solução é uma lei ou a interferência dos seres iluminados e ungidos do partido que tomou conta do Estado.

A ideologia é um conjunto de ideias e crenças que traveste um fim político que não se confessa. Estas ideias e crenças vendem aquilo que deve estar na linha do horizonte. Você passa a acreditar que chegará lá nesse mundo melhor, mas quanto mais anda em sua direção, mais distante ele fica. Quanto mais distante ele fica, mas a ideologia ganha força, pois será dito a você que ainda não foi feito o suficiente em nome da fórmula mágica que nos levará à utopia. Então, tome mais mecanismos de controle e pressão para se atingir o objetivo inalcançável. Um destes mecanismos é mais e mais leis.

Claro que o conjunto do que é descrito por Archie Brown não nos levará à URSS como a compreendemos os livros de história, mas o corpo doutrinário é flexível, meus caros. Se um dia o proletariado em cena era o trabalhador versus a burguesia, na luta do nós contra eles, hoje o tecido social é esgarçado de outras formas por meio da coletivização para a construção de grupos de pressão, que possuem até uma verdade ou meia verdade em seus reclames, pois é óbvio que devemos combater injustiças, descriminações, racismo etc.

Acontece que, essa gente que está no poder, utiliza dessas demandas para estratégias políticas. Tanto é assim que uma vítima de preconceito ou abuso deixará de ser vítima se não pertencer a corrente ideológica do partido que se quer hegemônico.

Isto foi visível quando um suposto filósofo brasileiro disse que uma jornalista merecia ser estuprada, mas a militância calou porque aquela mulher não era do clubinho.

Essa engrenagem social que tentam nos impor utiliza exatamente as táticas descritas pelo cientista político Archie Brown. Logo, táticas de revolução. Não enxergar isto como um movimento é o primeiro passo para achar que tudo é teoria da conspiração e nunca perceber o que está por trás dessas coisas. Mas, alguns “mestres” ainda preferem os dicionários e rejeitam Groucho Marx quando diz para não crerem nele, mas nos próprios olhos.

Então, fica a dica aos “mestres inteligentinhos”, com carinho…mas sem vaselina! Até porque se o Estado tomar conta de tudo, a vaselina vai custar os olhos da cara, quiçá outro olho que nem todo mundo está disposto a colocar em negociação…

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3 Comentários

  1. Mais um excelente artigo! Escrever bem, sem gongorismos e conseguir elucidar com palavras cotidianas conceitos complexos, é atributo raro, que poucos mestres em qualquer área exibem. Confesso: virei seu leitor Luis Vilar! Aplausos!

  2. O comunismo reina debaixo de nossos narizes vinte e quatro por dia e é impressionante como os “inteligentinhos de plantão”, como o Sr. William Waack e “et caterva”, insistem em enganar a população ao afirmarem que o comunismo é coisa do passado, antiga, de quase um século atrás, que não existe mais… Ou são doentes mentais terminais, ou inescrupulosos. Na minha opinião são os dois.
    Grato ao mestre Villar.
    Meu cordial abraço.

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