Apreensão de drogas na Raposo Tavares: com análise



Na sexta-feira (12/7) a polícia militar de São Paulo novamente encheu os cidadãos de orgulho: policiais do Tático Ostensivo Rodoviário do 2º Batalhão de Polícia Rodoviário, apreenderam mais de 9 quilos de drogas em um ônibus interestadual que trafegava pela rodovia Raposo Tavares.

A drogas estavam na bagagem de uma passageira que ficou muito nervosa quando a polícia abordou o veículo. Na mala dela foram encontrados 11 tabletes, sendo 9 de maconha e 4 de skank, que somaram 9,740 kg.

Ao ser indagada a respeito da droga, a passageira alegou ter sido contratada para o transporte que partiu de Dourados/MS até a Rodoviária de Lins/SP por uma amiga de nome Larissa e, receberia como recompensa além da passagem e R$ 400,00 para despesas, mais R$ 1.500,00.

Ela foi indiciada e recebeu voz de prisão em flagrante. Em seguida foi conduzida à delegacia de Polícia Civil de Presidente Venceslau, onde permaneceu aguardando audiência de custódia para posterior envio a unidade prisional.

Esse caso merece um pouco de análise

O que temos aqui?

Podemos afirmar que boa parte da maconha que circula no país vem do Paraguai, principalmente da fronteira com o Brasil em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.

Não seria nem um pouco demais afirmar que esta é outra rota comum do narcotráfico porque, além de ser comum a passagem de drogas por Ponta Porã, é também o ponto mais próximo de Dourados com a fronteira do Paraguai.

ponta porã - dourados

Dourados/MS fica em média a 1h30 de carro pela BR-463, a 122 km distância.

O Paraguai seria a mais provável origem da droga, suponho, pelos meus estudos anteriores.

Sabendo que a passageira foi detida na rodovia Raposo Tavares (SP 270) e encaminhada à delegacia de Presidente Venceslau, fica óbvio que a apreensão se deu no ponto em que a Raposo passa por esta cidade.

As rotas que entre Dourados/MS e Lins/SP, que passam por Presidente Venceslau, são estimadas entre 7h30 a 8h00 de viagem, e podem variar de 650 a 700 quilômetros de viagem.

dourados - lins

No entanto, a Rodovia Raposo Tavares (SP 270) não passa por Lins/SP. A rodovia mais próxima que é caminho para este destino é a BR-267, que inclusive neste trecho divide o espaço com a Raposo.

Ela receberia R$ 1.500,00 pelo trabalho do transporte, o que significa que só receberia o dinheiro após o trabalho completo. Para realizar a viagem, de ônibus, e demais despesas, como alimentação (no mínimo), ela recebeu R$ 400,00.

Há apenas duas companhias de ônibus que atuam neste trajeto. Numa delas, o preço da passagem varia de R$ 228,00 a R$ 284,00. Na outra de R$ 150,00 a R$ 230,00. Bingo, ela estava no ônibus da segunda companhia, cujo nome não vou divulgar aqui por uma questão ética.

Se ela escolhesse a primeira companhia, os quatrocentos reais que recebeu para viagem e despesas não seriam suficientes, calculando ida e volta.

Existe a hipótese dela ter partido de Dourados/MS e ter ido diretamente a Lins/SP em uma viagem só, acontece que ela teria que voltar de qualquer maneira e a passagem teria novamente o mesmo custo, além do que o narcotráfico estaria dispondo de uma generosidade que, até onde sei, não dispõe.

Ou ela partiu de Dourados e foi até Lins, para voltar depois, ou o inverso, ela foi de Lins a Dourados para voltar depois.

E existe também o fator da mala: com este dinheiro ela não compraria uma mala daquele tamanho (grande) que mesmo no mercado de usados custa entre R$ 120,00 e R$ 400,00. Assim novamente, sendo dela a mala cara, não compensaria usar o dinheiro da passagem para comprá-la. A hipótese mais razoável é que, ou ela fosse dona da mala, ou fosse um empréstimo de parente, ou de parceiros do crime, o custo de perder o objeto seria alto demais para que ela se dispusesse a pagar depois, o que significa que ela só pode novamente, ter viajado pela segunda companhia de ônibus.

O nervosismo da moça na abordagem policial indica que ela pode não ser experiente, o medo aflorou-se nela de tal maneira que entregou a comparsa, a tal Larissa que receberia as drogas em Lins/SP.

Este último fator é um bom sinal: se o crime está precisando recrutar novas pessoas e se arriscar assim para traficar, é porque quem antes ocupava o lugar, os mais experientes estão presos, fora de circulação: aqueles que sabem dissimular quando percebem as autoridades, que não entram em pânico e que não entregariam os comparsas, contando alguma história maluca numa delegacia, não estão atuando, de tal maneira que os inexperientes, como esta mulher, precisaram ocupar seus lugares.

Isto é um sinal claro de que o trabalho da polícia está sendo eficiente.

Há aqui também um fator relevante na geografia que não mencionei.

A BR-463 é uma rodovia federal de ligação brasileira. Começa em Dourados/MS, é a principal via de acesso a Ponta Porã/MS e ao Paraguai via Pedro Juan Caballero, onde atua o EPP (Exército do Povo Paraguaio), uma guerrilha comunista com ares de Movimento Sem Terra (MST).

Há uma exatamente (8/7), foi registrado um incidente na região envolvendo o EPP.

Guerrilha comunista do Paraguai ataca fazenda e executa brasileiro

Quando aventei a hipótese da droga ter partido do Paraguai, justamente pela rota que atua o EPP, me lembrei de uma prisão efetuada em setembro de 2018, em Agudos/SP, de um dos líderes do MST na região de Bauru, conhecido como “Japonês“, Willians Miranda Cabeçoni, conforme noticiado pelo site JCNet.

Ele teve a prisão preventiva decretada em agosto de 2017, acusado de dano, furto e associação criminosa, e era investigado pela Polícia Civil desde 2007, quando invadiu e ocupou uma fazenda em Lins.

É importante dizer que Agudos fica a 13 quilômetros de Bauru e Lins fica a 102 quilômetros. Ou seja, este líder do MST na região, não só conhecia muito bem a região e seus arredores, como atuava com atividades criminosas.

Ele utilizava a bandeira social para cometer crimes, como esbulho, dano, furto e roubo“, observou o delegado em 2009.

Ele aparece em 25 ocorrências policiais, sendo 18 por desobediência, esbulho e lesão corporal – destas, quatro se deram na fazenda da Cutrale“, afirmou o titular da Delegacia Seccional de Bauru, em 2018.

Na época, em nota o MST respondeu, segundo o JCNet, que a prisão de “Japonês” havia sido decretada meses antes pela Justiça de Lençóis Paulista, “em uma ação arbitrária, em defesa da Sucocítrico Cutrale, uma das maiores exportadoras de suco de laranja do mundo“.

É um fato curioso que nas duas pontas suspeitas, Paraguai e Lins, haja a presença do movimento. Coincidência, claro, mas ainda fato curioso.

MST japonês

As coincidências não param por aí.

Em maio de 2009 um traficante foi preso dentro de um acampamento do MST nas proximidades da mesma região. Josenilton Lima Rocha, 27 anos, estava com 26 embrulhos de maconha, outros 26 papelotes da mesma droga, mais 40 pedras de crack e três celulares. Na ocasião era a quarta prisão dele, todas por tráfico de drogas e ficou 24ª Delegacia de Polícia, em Vera Cruz/SP.

bauru - vera cruz

Se o Japonês, preso em 2018, atuava num raio de mais de 100 quilômetros, não seria de se estranhar alguma possível ligação num raio menor, de 94 km, que é a distância entre Vera Cruz/SP e Bauru/SP, em média 1h30 de viagem pela rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (rodovia esta que já noticiei apreensões de drogas antes).

Em abril de 2018, poucos meses antes da prisão do “Japonês“, a Polícia Militar efetuou a prisão de dois homens no acampamento dos sem terra de Bauru, com 28 tijolos de maconha, um de cocaína e outros materiais do tráfico. Eles foram surpreendidos no local, próximo à Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294).

Na época, a a Polícia Militar, equipes da Força Tática e da Rocam foram ao acampamento conhecido como Val de Palmas depois de denúncia de que seu líder, de 37 anos, e outro homem, de 34, utilizariam o local para guardar grande quantidade de drogas.

Na residência dos dois a polícia localizou mais 11 tijolos de maconha e eles acabaram confessando que guardavam mais entorpecentes na laje do cômodo.

Ao todo, na situação de abril do ano passado, foram apreendidos 27,5 quilos de maconha e quase um quilo de cocaína.

MST droga

Em nota, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) informou que “não organiza nenhum acampamento no município de Bauru”, e que também não possui nenhum com o nome de Val de Palmas. E completou a nota, “a ocorrência não diz respeito ao MST”.

Constrangedoramente coincidente.

No mesmo abril de 2018 o MST organizou um protesto contra a prisão de Lula no quilômetro 151 da rodovia BR-153, em Promissão/SP, conforme noticiado pelo Jornal de Lins na altura.

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) bloquearam por quase uma hora os dois sentidos do quilômetro 151 da Rodovia BR-153 em Promissão (SP), no fim da manhã daquela sexta-feira. A interdição começou por volta das 11h30 e a pista foi liberada às 12h20.“, diz a matéria do site.

O município de Promissão fica a 28 quilômetros de Lins, meia hora de carro.

promissão - lins

É tudo coincidência, obviamente.

Em Dourados/MS, há também ações do MST. Em março de 2018, 250 pessoas bloquearam a rodovia BR-163, conforme registrado pelo próprio movimento no Facebook.

mst dourados 2018

Coincidências e mais coincidências.

Voltando ao caso da passageira presa

Outro ponto que precisa ser visto, com relação ao fluxo financeiro: a indiciada receberia R$ 1.500,00 para transportar as drogas por um trajeto de no mínimo 650 km. E isto significa dizer que para a tal Larissa, que receberia o entorpecente em Lins/SP, o preço de custo para formular a venda, incluiu o valor que seria pago à presa.

Oras, 10 kg de maconha e skank, transportados por R$ 1.500,00, significa dizer que, o preço de venda tem que valer muito a pena para a ponta final, que compra, e obviamente, uma margem de 30% seria ridícula de se afirmar.

Mil e quinhentos só pelo transporte, sem contar o valor pago pela passagem, os quatrocentos reais: a conta do custo, aqui sobe para R$ 1.900,00 reais.

Um produto qualquer cujo custo de transporte apenas, seja mil e novecentos reais, por dez quilos, tem que ser um produto de muita procura, com público altamente fidelizado e com margem de lucro acima de 50%.

Traficante pode ser muita coisa, até burro, mas sabe fazer conta e não joga pra perder, principalmente dinheiro.

Assim, contando os valores que abordei aqui, uma coisa é certa: a polícia deu um belo prejuízo para o bolso do narcotráfico. Aliás, qualquer pequena apreensão, representa um grande problema para quem fica sem os ilícitos.

 * Fonte: Polícia Militar

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

6 Comentários

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  • Um dia toda a cumplicidade entre movimentos de esquerda e o crime organizado vai ficar escancarada, chegando até a classe política. Aí quero ver que argumentos os idiotas úteis vão usar para defender seus ladrões de estimação.

  • Faltou ligar o grupo terrorista paraguaio EPP ao grupo terrorista brasileiro MST, já que os traficantes atuam na região de MS e SP tem ligação com o grupo terrorista brasileiro e o utilizam como fachada para suas ações depreende-se uma provável ligação entre terroristas paraguaios e brasileiros através do tráfico, tendo em vista que os entorpecentes saem da região de atuação de um, em direção a região de consumo onde atua o outro, com vários bandidos presos em acampamentos do MST, no mais ótima análise.

  • Uma noticia e texto muito bom, ajudando a quem não esta próximo entender a situação e a possível história ao redor do fato.
    Espero que logo logo essa bandidagem se esgote, ninguém aguenta mais isso.

  • Quem não acredita que o Foro de SP não é aliado dos traficantes deveria se perguntar pq em 16 anos de governo do PT não se falava em tantas apreensões de traficantes? Isto é a diferença que faz eleger Jair Bolsonaro e este ter colocado Sérgio Moro para Ministro da Justiça!

  • E o caso do cargueiro com 20 toneladas de drogas encontrado nos USA, o carguereiro é dos globalistas JP MORGAN ASSET MANAGEMENT, ou seja, o maior banco do mundo é dono desse navio. O valor em cocaína dessas 20 toneladas é superior a 1.3 bilhão de dólares americanos.

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