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Argentina: fruto de um desastre do Estado gigante e populista 

Toda intervenção estatal demasiada associada à ausência de transparência para com os dados do próprio governo e à impressão desenfreada de dinheiro estoura um dia. E aí, quem mais sofre são os mais pobres. Este é o retrato da “Era K” na Argentina, o que não significa que o atual governo de Macri não possa ter seus erros.

Afinal, todo e qualquer governo deve trabalhar sob vigilância, que é – no final das contas – o verdadeiro preço da liberdade. Mas como vigiar um governo que, de forma autoritária, esconde seus próprios dados, mente e dissimula, que é o que Cristina Kichner fez nos últimos anos na Argentina?

Um dos fatores mais cruéis do governo de Cristina Kirchner era justamente a ausência ou maquiagem dos dados. Em uma declaração polêmica de um ministro, este disse que não divulgaria os dados de desemprego porque isso “estigmatizava”, por exemplo.

Em discursos, Kichner falava de uma taxa de 5,9% e todos tinham que acreditar nela. E não havia sequer levantamentos alternativos aos dados estatais.

O índice que media a pobreza parou de fazê-lo em 2013 e os não-oficiais variavam entre 5% a 40%. Nesse período estive na Argentina com a minha esposa e tínhamos que ficar verificando o mercado do dólar todos os dias e mesmo assim, as informações de jornais não batiam com a realidade. O governo ainda tinha fama de mentir sobre as reservas e os subsídios de energia, água e transporte chegaram – dados não confiáveis! – a 5% do PIB em 2014. Na prática, ninguém sabia de fato quanto eles custavam.

Na segunda metade do período chamado de “Era K”, as contas ficaram no vermelho. O déficit orçamentário chegou a 7% do PIB. O governo – sem conseguir se financiar sequer via empréstimos – recorreu à impressão de dinheiro para cobrir déficits. É impressionante o crescimento da curva no período que vai dos anos 2000 até 2015, conforme o próprio Banco Central da Argentina. Isto gerou descontrole de preços e impactou na inflação.

Em 2007, o governo usou das forças policiais para controlar o Instituto Nacional de Estatísticas. Afinal, dominar os números junto a um discurso populista. Adotou o congelamento de tarifas e gastou cerca de 170 bilhões de peso para financiar o setor energético. Estava em cena um ciclo vicioso.

É só um pouco da encrenca que caiu no colo de Macri. Há sofrimento para grande parte da população? Sim. Infelizmente. É onde o populismo deságua. Macri ainda errou – a meu ver – quando reduziu gastos em dois pontos percentuais em relação ao PIB (num volume que correspondia a 20%), além de uma agenda de gradualidade quando se esperava mudanças. No corte de subsídios, não se repôs sequer as perdas inflacionárias. Afinal de contas, Macri temeu ser o vilão por lidar com as consequências do passado dentro de uma óptica óbvia e matemática.

Para cobrir déficit, Macri também recorreu a endividamento e inflação monetária. Houve aumento de dívida interna e externa, logo no início. Não sei como está hoje. Parei de acompanhar. Além disso, também imprimiu mais dinheiro. A inflação de 2016 chegou aos 41%.

Há uma herança terrível no colo de Macri? Sim! Mas a opção pelo gradualismo não o ajudou em nada. E isto em um cenário em que fogem os investidores ao mesmo tempo em que é difícil a recuperação. A maioria dessas informações foram estudadas e apontadas pelo doutor em economia aplicada Adrián Ravier, que trabalha na Faculdade de Ciências Econômicas e Jurídicas da Universidade Nacional de La Pampa, na Argentina.

Quando li o trabalho dele, fui atrás da maioria das fontes primárias. Todas que encontrei batiam exatamente com o que ele dizia. No dia de hoje, vemos uma greve geral que também tem seus componentes ideológicos-partidários. Creio que sejam até os maiores incentivadores. Enfim, quebrar com o estamento não é fácil por conta daquilo que ele joga no colo de seus oponentes e pela forma como este esquece que a maioria dos problemas foram bombas plantadas por eles mesmos. Mas é que quando se é pedra, basta tratar o outro como vitrine e ponto final. A verdade em meio às narrativas é o que menos importa…

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