fbpx

Ariel de Andersen e a Ariel da Disney

 


Por: Juliana Gurgel

A adaptação para o cinema de um personagem dramático ou dramatúrgico, envolve um sério comprometimento do diretor e demais envolvidos.

Quando soube que o ‘Senhor dos Anéis’, livro tão caro à minha adolescência, seria adaptado ao cinema, fiquei inquieta em relação ao que deveria esperar do diretor e roteirista. Ao saber da paixão de Peter Jackson sobre a obra de John Ronald Reuel Tolkien, percebi que a essência seria mantida e os personagens respeitados. E foi exatamente isso que ocorreu, ainda que com adaptações (como antecipação de alguns eventos e exclusão de personagens), nada na adaptação da obra do fantástico J.R.R ficou aquém de sua excelência.

Quando um artista lança uma obra, esta obra deixa de ser exclusivamente sua e é compartilhada com a humanidade. Não falo sobre propriedade intelectual e sim sobre o imaginário e a influência que esta obra passa a exercer sobre quem a consome. Se a obra fosse exclusividade do autor, ele a reteria na imaginação, ou seja, jamais publicaria seu trabalho. A exposição da obra faz parte de sua existência. Um ator, só será mesmo um ator quando mostrar seu trabalho a um público, do contrário, não será um ator, antes apenas, um talento entre as quatro paredes de sua casa. Da mesma forma, os personagens só existem quando em contato com seus leitores, se ficarem apenas na imaginação do autor e mão forem compartilhados, serão apenas virtuais que não se atualizarão. Toda obra e objeto de arte só existe em contato com o público. Se Shakespeare jamais tivesse sido lido, ele não existiria enquanto dramaturgo.

Dito isto, é justificável toda a atenção que determinadas obras recebem, quando divulgam a transição da linguagem original (em geral da literatura ou arte sequencial) para o áudio visual, cinema. Diante de modificações diversas, a licença poética do diretor e atores são justificáveis, mas há um limite. Quando a adaptação do personagem altera uma característica já apresentada anteriormente, ocorre a rejeição por parte do público.

Há limites para a familiaridade com o personagem e isso envolve o que é verossímil, – como Aristóteles aborda em sua Poética -, mas também o que é viável. Vamos guardar como exemplo, o filme ‘A Teoria de Tudo’ (2014), em que o ator Eddie Redmayne, representou (e ganhou o Oscar por isso) o físico Stephen Hawking. O métier do ator é justamente representar e dar vida a uma outra vida, que não a sua, é representar um personagem. Ponto.

No entanto, quando por opção (por vezes) arbitrária, um diretor reformula um personagem, os demais fruidores da obra, ficam incomodados e sentem-se traídos.

Um exemplo, quando escolheram uma americana para interpretar a personagem inglesa Bridget Jones’ na filmagem do livro “O Diário de Bridget Jones”, houve um movimento em reprovação. A verdade é que esta escolha não influenciou o resultado do filme. Quem não soube deste bastidor, não notará diferença alguma ao ver o filme, pois, a atriz interpretou a personagem tal como ela fora criada: uma inglesa. Então exigir que uma inglesa interpretasse este papel, quando uma atriz americana pôde reproduzir o sotaque inglês, seria um preciosismo.

Há portanto, exemplos bem sucedidos, como a trilogia recriada por Peter Jackson; o ator que encenou a vida de Stephen Hawking até a fase de sua doença degenerativa (notemos, o ator não possuía a Esclerose lateral amiotrófica (ELA)/ ele representou); a atriz americana que encenou uma personagem inglesa, e tantos outros casos em que o personagem fora representado da forma como foi criado por seus autores.

Existem, contudo, casos em que os personagens são desconfigurados. Um exemplo recente é a personagem Ariel, uma sereia criada por Hans Christian Andersen – um romancista, dramaturgo e poeta dinamarquês. Andersen (1805~1875) além de criador de ‘A pequena sereia’, escreveu mais de 160 contos, dentre eles ‘O patinho feio’ e ‘O soldadinho de chumbo’.

Walt Disney Pictures desenvolveu a animação ‘A pequena sereia’, inspirado no conto de Anderson em 1989. Ariel é descrita por Andersen, da seguinte forma: “Sua pele era clara e delicada como uma pétala de rosa. Seus olhos eram azuis como um lago profundo.” Na animação, Ariel é exatamente assim, a licença poética foi ela ser ruiva, pois isto não estava escrito.

A Disney divulgou, agora em julho, o nome da atriz Halle Bailey, que fará a Ariel no cinema, utilizando a tecnologia live-action. A atriz, linda e talentosa (canta, dança e atua), é também negra, e isso gerou indagações.

Algumas delas: 1) por que não criam uma princesa da Disney, com as características da Halle Bailey? 2)Para quê alterar um personagem já existente, como a Ariel?

A iniciativa de uma mudança deste tipo, gerou estranhamento na internet, o caso virou motivo de acusações de racismo, a quem questionou a mudança, mas este não foi o motivo dos comentários. O tema de racismo é inexistente nas insatisfações apresentadas, o que se viu sendo discutido era a descaracterização de um personagem já estimado e estabelecido no imaginário infantil.

Tenho certeza que a atriz será uma bela sereia, não vi quem disse o contrário. O que encontrei foi a constatação correta de que não possuindo as características de Ariel, o que será mostrado é uma outra sereia, com o mesmo nome da Ariel de Andersen. Romper o cavalheiro acordo com o público, é induzi-lo a deixar de sonhar com o que se está vendo. E se assim for, de nada vale fantasiar que se é uma sereia, uma guerreira, fada ou princesa.

Sobre o Colunista

Juliana Gurgel

Juliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

10 Comentários

Clique aqui para comentar

  • Bom dia TL, Juliana,

    Concordo plenamente, sou do tipo de pessoa que gosta do original, li o Sr. dos Anéis várias vezes, li as Crônicas de Nárnia várias vezes, Eragon completo, entre outros.
    Alguns personagens, que desde sua criação tem características fortemente descritas na obra literária, não podem ter suas características alterada do nada para satisfazer um aqui outro ali, ou por uma narrativa impor a mudança, isto serve para qualquer personagem indiferente da cor, raça ou credo, seria o mesmo que refilmar O Nome da Rosa, com um pai de Santo no lugar de um padre católico, não tem nada haver, a história se desenrola na igreja católica, quer filmar um filme com pai de santo, parecido com O Nome da Rosa? Ótimo, mude o nome do filme altere um pouco o enredo (para não ser processado por plágio) de outros nomes para os personagens e faça o filme, que pode ser ou não um sucesso, quer uma Sereia negra (por sinal linda essa menina), ótimo crie uma história para ela com um enredo e um nome só dela, o mesmo digo para o filme do Batman com Michael Keaton, ele é um ator incrível mas o Bruce Wayne não tem 1,60 de altura nem usa óculos, se for pensar em um filme para crianças é ótimo pois a fantasia não se apaga dos olhos de uma criança ao ver o Batman seja ele quem for, mas para as caraterísticas do personagem o ator mais indicado para fazer Batman na época, se chamava Arnold Schwarzenegger, e hoje em dia o Dwayne Johnson o the Rock, porque o Batman tem 1,95 de altura e 120Kg de músculos.
    Não tenho dúvidas que essa menina será um linda Sereia, fará um filme lindo, mas nunca será lembrada como Ariel a Sereia, melhor seria uma nova historia com um nome só dela e ai sim seria a Seria negra mais linda do mundo com uma história linda e emocionante, por sinal a Ariel ruiva tem uma irmã ou uma amiga sereia que aparece no filme que é negra por que não contar a história dela?

  • No começo achei que o texto estava meio confuso mas o final é brilhante!

    “Romper o cavalheiro acordo com o público, é induzi-lo a deixar de sonhar com o que se está vendo. E se assim for, de nada vale fantasiar que se é uma sereia, uma guerreira, fada ou princesa.”

    Isso nos faz pensar se a qualidade dos profissionais do cinema caiu por serem progressistas ou apenas por serem incompententes, afinal chovem motivos pra sabotarmos todos os remakes e continuações de obras que distorcem a criação original a ponto de ofender e revoltar os admiradores mais fervorosos.

  • O mesmo ocorreu com Death Note, uma obra prima de um anime, que a Netflix distorceu as características físicas, emocionais e psicológicas de todos os personagens, mas o pior de tudo: distorceu a história toda, transformando uma obra prima em um lixo.

  • Juliana, seu texto é preciso e correto. Só acho que faltou um pouco de revisão, como se vê em trechos como o seguinte:

    “além de criador de ‘A pequena sereia’, escreveu mais de 160 contos, dentre eles ‘O, desenvolveu uma animação patinho feio’ e ‘O soldadinho de chumbo’.”

    No caso, a frase “desenvolveu uma animação” está, obviamente, sobrando.

    De todo modo, o que mais interessa é o que o texto comunica. Infelizmente, a onda deletéria do politicamente correto há muito passou dos limites e avança na profunda vigarice intelectual.

  • Texto precioso. As pessoas que chamaram de preconceituosas as críticas provavelmente ficam na superficialidade das questões, pouco sabem e muito falam. Bem típico de “carroças vazias”.
    Quando vou assistir um clássico, desejo ver o clássico.

  • Adoro suas críticas, muito bem observadas as constatações, havia discutido o mesmo com alguns amigos dias atrás….

  • Achei mal intencionada a conclusão. Se for criticar, então critique a animação original, que deturpou completamente o desfecho da história original do H. C. Andersen. Me parece que ignorar isso para focar na escolha de uma atriz negra é buscar uma parcialidade desnecessária.

Colunistas

Juliana GurgelJuliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

Paulo FernandoPaulo Fernando

Advogado, professor de Direito Constitucional e Eleitoral para concu...

Polibio BragaPolibio Braga

Políbio Braga é um jornalista e escritor brasileiro. Nascido em S...