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Bate papo com Professor Doutor Ricardo da Costa sobre O Código Da Vinci

Há pouco escrevi uma crítica do filme O código Da Vinci. Essa película me chamou atenção pelo alto nível de desinformação histórica e por seu grande número de espantalhos sobre a História Medieval e o Cristianismo.

Para solucionar as questões, bati um papo com o Prof. Dr. Ricardo da Costa (1962- ), medievalista da UFES e dono de um currículo notável, com 26 obras publicadas (algumas em diversos volumes), 137 artigos escritos, 43 entrevistas para TV e palestras, 60 traduções de textos antigos e medievais, além de uma longa formação acadêmica.

Sua trajetória pode ser consultada na Wikipedia (em português, espanhol e catalão), na Plataforma Lattes e em seu próprio site ricardocosta.com.

O filme O código Da Vinci está baseado no argumento que Jesus teve um relacionamento com Maria Madalena e gerou filhos; a seguir, uma sociedade secreta ocultou seus restos mortais para que, no futuro, fosse feito o exame de DNA. Tal exame desmontaria toda a suposta falácia histórica cristã.

O historiador iniciou nosso diálogo com a apresentação de um problema autoral: o processo que Dan Brown (1964- ) sofreu por plágio da obra ficcional O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, dos autores Michael Baigent (1948-2013), Henry Lincoln (1930- ) e Richard Leigh (1943-2007), publicado em 1982. Brown foi processado pelos 3 autores por plágio.

O Prof. Ricardo iniciou sua análise com uma abordagem a respeito dos problemas de adaptação narrativa do Cristianismo para as gerações pós-Concílio Vaticano II(1962-1965), de como o politicamente correto inseriu mentiras e distorções para moldar a História às suas intenções filosófico-políticas.

Em seguida, o tema foi o marxismo cultural no Cinema a partir da década de 50, conforme denunciado pelo senador Joseph McCarthy (1908-1957) e que resultou, quase 30 anos depois, no livro Venona: Decoding Soviet Espionage in America (1999).

O professor desmistificou o Opus Dei (prelazia da Igreja fundada em 1928). Explicou o que é a entidade face a loucura difamatória do filme. Explicou a diferença entre o imperador Constantino (272-337) que o filme apresenta e o personagem histórico, além do I Concílio de Niceia (325), desfazendo assim as falácias de Dan Brown.

A respeito do Concílio de Niceia, Ricardo da Costa ainda citou, como referência bibliográfica, o livro Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394) (2007) do historiador Paul Veyne (1930- ).

Ao abordar a conversão de Constantino, Ricardo da Costa esclareceu suas circunstâncias e sua consequência para o Cristianismo e o Império Romano.

Os assuntos seguintes foram as sociedades secretas no filme: O Priorado de Sião e a Ordem dos Cavaleiros Templários. Com muita didática, explicou os assuntos de modo claro, além de comentar as falácias do autor de O Código Da Vinci acerca de sua suposta pesquisa histórica mencionada no início do livro.

Sobre o Santo Graal, o professor explicou sua mitologia: trata-se de uma criação literária, uma ficção, um objeto imaginário que integra o conjunto de obras que narram a lenda do Rei Arthur.

Acerca da relação de Leonardo da Vinci (1452-1519) com a Igreja Católica, apontou os fatos históricos do Renascimento (sécs. XIV-XVII), tanto deste artista como de outros do mesmo ambiente cultural. Suas considerações incluíram a difusão e a preservação da Cultura por parte da Igreja, ainda que muitas vezes contra sua própria tradição (e estendida a todas as áreas): Literatura, Filosofia, Pintura, História, Escultura, Poesia, Desenho, etc.

Como centro da narrativa ficcional transformada em película cinematográfica está o casamento de Jesus Cristo com Maria Madalena e seus filhos. Acerca desta mentira, o professor citou a obra Antiguidades Judaicas (93-94) do historiador judeu Flávio Josefo (c. 38-101); mencionou a Bíblia e ainda expôs a campanha difamatória anti-cristã no ambiente acadêmico.

O entrevistado ressaltou o grande número de mentiras contra o Cristianismo nas artes, mas que nenhuma resiste à análise histórica e ao teste documental; que inclusive as universidades surgiram graças ao patronato da Igreja Católica hoje atacada. Também tratamos da Inquisição. Ele explicou o surgimento do Tribunal do Santo Ofício no final da Idade Média e de sua herança. A partir dele surgiu o sistema jurídico processual, com julgamentos baseado em provas, com testemunhas, interrogatórios com notários, e que antes deste tribunal os julgamentos eram sumários e baseados em provas irracionais. Demonstrou como a Igreja embora proferisse condenações processuais, não levava a cabo as execuções: quem o fazia eram os estados, e ainda que a Igreja praticasse a tortura no desenrolar dos processos, todos os sistemas jurídicos aceitavam a tortura; que muitos dos objetos de tortura exibidos em museus fazem parte de construções literárias dos séculos posteriores.

Ao contestar os números apresentados pela esquerda política e cultural, o professor apresentou uma comparação entre os números de mortos pela Inquisição Espanhola e a Revolução Francesa: de como, em apenas um ano, a Revolução guilhotinou muito mais gente que durante toda a existência da Inquisição. Como suporte bibliográfico, recomendou a obra Cidadãos – Uma crônica da Revolução Francesa (1989), de Simon Schama (1945- ). Para concluir este tema, explicou como os estados monárquicos europeus no período moderno se apropriaram da Inquisição para seus fins políticos e novamente desmentiu Dan Brown, pois o filme baseado no livro do escritor induz o expectador a acreditar que o Opus Dei seria uma espécie de herdeiro da Inquisição.

Para elucidar algumas questões históricas, o doutor nos indicou o livro História dos judeus de Paul Johnson (1928- ), que dedica um capítulo a Hollywood e o Cinema, além de ressaltar como é perceptível para o historiador a mudança de tom nas adaptações históricas do Cinema a partir do final dos anos 50.

Após a conversa, Ricardo da Costa respondeu a perguntas de expectadores: qual o papel da mulher na Idade Média e perante a Igreja (sua resposta provocou risos); explicou como o Cristianismo elevou os direitos da mulher (até então inexistentes).

Bem-humorado e culto, o historiador classificou a obra de Dan Brown como um delírio narrativo.

Participar de uma conversa com o Prof. Dr. Ricardo da Costa foi uma experiência que valeu cada segundo. Indicamos, para os interessados em aprofundar os temas abordados, seu site (www.ricardocosta.com) que disponibiliza todos os seus trabalhos, publicados no Brasil e no exterior, além de suas traduções de documentos medievais.

Fonte: Blog do Ricardo Rovervan

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Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

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