China: O Perfeito Estado Totalitário High-Tech



Reproduzimos, na íntegra, o artigo de Judith Bergman e traduzido por Joseph Skilnik do Instituto Gatestone. Mais uma vez, cabe lembrar, o filósofo e escritor Olavo de Carvalho tem razão ao criticar os políticos e membros do governo Bolsonaro que adulam a China. Confira:

O dia 4 de junho marca o 30º aniversário do massacre de manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial ocorrido em 1989, a data chama a atenção para a extrema censura que acontece na China sob o regime do Partido Comunista Chinês (PCC) e do presidente Xi Jinping.

O aniversário do massacre é eufemisticamente chamado na China continental de ‘o Incidente de Quatro de Junho’. Como não poderia deixar de ser, o regime chinês teme que qualquer conversa, muito menos alguma manifestação pública em homenagem a esse acontecimento histórico possa provocar intranquilidade em relação ao regime, o que poderia colocar em risco o poder absoluto do Partido Comunista Chinês.

Na China a Internet se encontra sob o controle do Partido Comunista Chinês, principalmente por meio da rigorosa censura imposta pelo principal censor da Internet do partido, o Cyberspace Administration of China (CAC), criado em 2014. Em maio de 2017, segundo um informe da Reuters , o CAC introduziu diretrizes rígidas exigindo que todas as plataformas da Internet que geram ou distribuem notícias “sejam gerenciadas por equipes editoriais sancionadas pelo partido” que tenham sido “aprovadas pelos órgãos de informações e da Internet do governo nacional ou local e, que seus funcionários possuam credenciais de treinamento e de apresentação do governo central”.

Em sua avaliação sobre a liberdade na Internet em 65 países em 2018 a “Freedom on the Net 2018” da Freedom House, , posicionou a China em último lugar. No ranking mundial da ONG Repórteres sem Fronteiras sobre a liberdade de imprensa de 2019, a China ocupa a 177ª posição de 180 países, perdendo apenas para a Eritreia, Coreia do Norte e Turcomenistão. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), quando do censo realizado nas prisões em 2018, apurou pelo menos 47 jornalistas encarcerados na China, mas de acordo com o CPJ, o contingente é provavelmente bem maior: “as autoridades estão deliberadamente impedindo que os dados sejam conhecidos”. Em março de 2019, o CPJ estava investigando pelo menos mais doze casos, incluindo prisões ocorridas em dezembro de 2018 de 45 colaboradores da revista de direitos humanos e liberdade religiosa,Bitter Winter, que a China considera um “site estrangeiro hostil“.

Em situações “delicadas”, como a do aniversário do massacre na Praça da Paz Celestial, sites inteiros são impedidos de serem acessados. Desde abril, antes do aniversário do massacre, a Wikipédia já tinha sido bloqueada na China, em todos os idiomas. O site da Wikipédia em chinês encontra-se bloqueado desde 2015. Sites como Google, Facebook, Twitter, Instagram e outros também estão há muito tempo bloqueados na China.

A pesquisa de determinados termos também fica bloqueada em ocasiões “delicadas”. No passado, até palavras comuns e inócuas como “hoje” ou “amanhã” foram bloqueadas.

No caso do aniversário do massacre, segundo consta, o Partido Comunista Chinês iniciou a repressão em janeiro de 2019: em 3 de janeiro, a Administração do Ciberespaço da China anunciou em seu site que havia lançado uma nova campanha contra “informações negativas e prejudiciais” na Internet. A campanha deveria durar seis meses, coincidindo com o aniversário do massacre de 4 de junho. A definição de “informação negativa e prejudicial” abrangia tudo, tim-tim por tim-tim: qualquer conteúdo que fosse “pornográfico, vulgar, violento, execrável, fraudulento, supersticioso, abusivo, ameaçador, inflamatório, fofoqueiro e sensacionalista” ou relacionado a “jogos de azar” ou espalhar “estilos de vida grotescos e cultura de má qualidade” deveria ser removido de toda e qualquer plataforma concebível de Internet. O CAC salientou: “aqueles que permitirem que comportamentos ilegais corram soltos serão julgados e severamente punidos”.

Na China, a censura agora automatizada em larga escala, atingiu “níveis de perfeição jamais vistos, auxiliados pela aprendizagem de máquina e reconhecimento de voz e imagem”, de acordo com uma recente reportagem da Reuters. Ela cita censores chineses fazendo considerações como:

“Às vezes dizemos que a inteligência artificial é o bisturi e o ser humano é o facão… Quando eu comecei a trabalhar nessa área há quatro anos, era possível remover as imagens da Praça da Paz Celestial, agora a inteligência artificial é de longe mais precisa”.

A draconiana censura da China corre paralela à draconiana repressão à liberdade religiosa. O presidente do Religious Freedom Institute, Thomas F. Farr, desenhouem Novembro de 2018 perante a Comissão Executiva do Congresso sobre a China o seguinte: a repressão religiosa da China como “a investida mais sistemática e brutal para controlar as comunidades religiosas do país desde a Revolução Cultural”. A exemplo de outros regimes comunistas, como o da antiga União Soviética, a ideologia comunista não tolera nenhum tipo de narrativa que concorra com a dela.

“A religião é uma fonte de autoridade e um objeto de fidelidade maior que o estado”, escreveu Farr. “Essa característica da religião sempre foi um anátema para os déspotas totalitários da história, como Stalin, Hitler e Mao… ”

A brutal opressão sofrida pelos tibetanos na China tanto religiosa quanto cultural está em andamento ininterrupto há quase 70 anos, mas a China não procurou apenas destruir a religião tibetana. O cristianismo, por exemplo, é visto desde o início como uma ameaça à República Popular da China quando do seu estabelecimento em 1949. “Isso se deu mais intensamente no auge da Revolução Cultural (1966 a 1976), com a demolição, fechamento e readaptação de lugares de culto e a proibição de práticas religiosas”, de acordo com o Conselho de Relações Exteriores. Clérigos cristãos ficaram presos por quase 30 anos. Nos últimos anos, ao que tudo indica, a opressão dos cristãos na China disparou. Desde o final dos anos de 1990, o regime chinês também visa o Falun Gong.

A China vem fechando igrejas e removendo cruzes. As cruzes estão sendo substituídas pela bandeira nacional e as imagens de Jesus pelas fotos do Presidente Xi Jinping. As crianças, futuras mantenedores da ideologia comunista, foram proibidas de frequentarem a igreja. Em setembro de 2018, a China fechouuma das maiores igrejas clandestinas, a Zion Church de Pequim. Em dezembro de 2018, o pastor da igreja clandestina Early Rain Church, Wang Yi e sua esposa foram presos e acusados de ‘incitar a subversão’, crime passível de punição de até 15 anos de reclusão. Juntamente com o pastor e sua esposa, mais de 100 membros da igreja também foram presos. Em abril de 2019, as autoridades chinesas retiraram à força um padre católico clandestino. Trata-se do Padre Peter Zhang Guangjun, ele foi retirado logo depois de celebrar a Missa do Domingo de Ramos. Ao que consta ele foi o terceiro padre a ser levado pelas autoridades em um mês.

Segundo um documento confidencial obtido pela Bitter Winter, no momento a China também está se preparando para desfechar uma repressão às igrejas cristãs que tenham laços com comunidades religiosas do exterior.

O governo também está mandando uigures, uma população que conta com cerca de 11 milhões de pessoas , em sua maioria muçulmana, da província ocidental de Xinjian, na China, para campos de internação para ‘reeducação política’. A China afirma que os campos são centros de treinamento em educação profissional destinados a conter a ameaça do extremismo islâmico. Os uigures lançaram vários ataques terroristas na China, de acordo com um relatório de 2017, “Combatentes Uigures Estrangeiros: um Desafio Jihadista Pouco Avaliado” pelo Centro Internacional de Contraterrorismo em Haia. O relatório também assinala:

“Os uigures se consideram à parte e distintos quanto à etnia, cultura e religião da maioria Han da China que os governa. Essas distinções formam a base da identidade étnica/nacionalista dos uigures, levando alguns deles a se engajarem em atividades violentas destinadas a estabelecer seu próprio país, o Turquestão Oriental…

“A sedução da ideologia radical islâmica fora da China tem atraído muitos uigures a participarem de um jihadismo violento como parte de sua identidade religiosa e como meio de promover sua luta contra as autoridades chinesas”.

“Os chineses estão usando as forças de segurança para o encarceramento em massa de muçulmanos chineses em campos de concentração”, salientourecentemente Randall Schriver, Secretário Adjunto de Defesa para Assuntos de Segurança da Ásia e do Pacífico. “Dado o que entendemos ser a magnitude da detenção, pelo menos um milhão, mas provavelmente algo próximo de três milhões de cidadãos de uma população de cerca de 10 milhões”, poderia estar presa em centros de detenção.

Segundo a The Epoch Times, nos campos de detenção chineses, os uigures vêm sendo drogados, torturados, espancados e mortos por injeções letais. “Ainda me lembro das palavras das autoridades chinesas quando perguntei qual crime eu havia cometedo, “ressaltou Mihrigul Tursun, uma mulher que fugiu para os Estados Unidos com dois de seus filhos. “Eles responderam: o fato de você ser uigur é um crime“.

Perseguição seguida de tormentos físicos contra as minorias religiosas, contudo, não é o suficiente para o Partido Comunista Chinês. Há uma campanha contra o cristianismo nas escolas de todo o país. Por exemplo, o governo obrigou os alunos a prestarem juramento de resistência à crença religiosa. Os professores também foram doutrinados para “assegurar que a educação e o ensino sigam a direção política correta”. Clássicos lecionados nas escolas estão sendo censuradosem Robinson Crusoé de Daniel Defoe, as referências à Bíblia foram excluídas, as referências ao culto dominical ou a Deus nos contos de Anton Chekhov e Hans Christian Andersen foram eliminadas.

Além disso, o uso de palavras ‘melindrosas’ relacionadas à religião, como ‘oração’, não são permitidas em sala de aula.

Tanto na opressão religiosa, quanto na censura à liberdade de expressão, o Partido Comunista Chinês faz uso de meios de tecnologia de ponta para atingir seus objetivos. Há relatos segundo os quais Xinjiang está sendo usada como campo de testes para a tecnologia de vigilância: Os uigures de Xinjiang, segundo um relatório publicado no jornal The Guardian, são monitorados por meio de câmeras de vigilância montadas em vilarejos, esquinas, mesquitas e escolas. Os passageiros têm que passar por postos de controle de segurança em todas as cidades e aldeias por onde passam por meio de sistemas de identificação facial em tempo real e por checagem nos telefones. A China usa a tecnologia de reconhecimento facial que verifica as imagens dos rostos das câmeras de vigilância para identificar suspeitos que constam de um banco de dados.

Em 2018 a China contava com cerca de 200 milhões de câmeras de vigilância e planeja instalar mais 626 milhões dessas câmeras até 2020. O objetivo da China, ao que tudo indica, é montar a “Plataforma Integrada de Operações Conjuntas“, que irá integrar e coordenar dados de câmeras de vigilância operando com tecnologia de reconhecimento facial, carteira de identidade dos cidadãos, dados biométricos, placas de carros e informações sobre a propriedade do veículo, saúde, planejamento familiar, bancos e antecedentes criminais e cíveis, “atividade incomum” e quaisquer outros dados relevantes que possam ser reunidos sobre os cidadãos, como prática religiosa e viagens ao exterior.

Hoje a China já está realizando o que Stalin, Hitler e Mao sonhavam em realizar: o estado totalitário perfeito, com a ajuda da tecnologia digital, onde o indivíduo não tem para onde fugir do olho do estado comunista que tudo vê.

Judith Bergman é colunista, advogada e analista política, também é Ilustre Colaboradora Sênior do Gatestone Institute.

Sobre o Colunista

Allan Dos Santos

Allan Dos Santos

Pai, empresário, jornalista e apresentador do Boletim da Manhã no canal Terça Livre TV.

13 Comentários

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  • Com toda certeza esse sistema de crédito social é a própria marca da besta descrita em apocalipse, onde todo aquele que não se curvar a esse sistema será excluído da sociedade, não podendo mais comprar nem vender.

  • A história nos ensinou que quanto mais próxima da utopia perfeita uma ditadura comunista se aproxima então mais rápido será sua queda. Desta forma, a pergunta que nos provoca a reflexão é quem está ‘bancando’ o sucesso da China hoje?

    Muitos apostam que são os Russos mas isso não seria feito sem o dinheiro de empresários patriotas da Esquerda dos EUA.

    Teria supostamente a Esquerda globalista se juntado a empresários americanos da Esquerda Marxista neste projeto de ’emponderamento’ da China nos anos 70 e fomentado o crescimento de outra nação apoiada no Comunismo como forma de ‘concorrer’ com a elite economica dominante nos EUA?

    Basta vermos o modelo de negócio da Apple ainda hoje é facil concluir que uma das maiores empresas do mundo, senão a mais rica, não conseguiria construir sua liderança global sem a ajuda da China comunista.

    Qual a relação das maiores empresas Coreanas de tecnologia com os EUA?

    Supostamente boa parte dos investidores da Samsumg foram grandes americanos.

    Então não seria essa disputa global comercial mera concorrência pelo poder entre a própria elite economica dos EUA?

    O comunismo Chines consegue garantir o status e a riqueza de poucos metacapitalistas ( geralmente americanos) que estão seguros dentro dos EUA e protegidos pelo próprio governo Chines.

    Então neste cenário pergunto: o Brasil apoiar a China hoje é fazer parte do esquema de poder global dos EUA ou seria apenas uma forma de submissão a Esquerda mundial e assim evitar maiores problemas com metacapitalistas globalizados protegidos por inúmeros esquemas de poder transnacionais?

    Pergunta dificil essa mas que merece nossa reflexão profunda neste momento..

  • Só esqueceram de mencionar a retirada compulsória de órgãos de prisioneiros do regime comunista, levando-os, em geral, ao óbito. E depois vendendo-os no mercado negro ocidental.

  • A região da América Central está quase sob o controle da economia chinesa. Começando com o Canal do Panamá. A China tem investido (e continua) em todas as áreas, especialmente comunicações, tecnologia, agricultura, ferrovias e rodovias … Eles construíram como um presente para a Costa Rica o Estádio Nacional de Futebol! Sem contar a quantidade de centroamericanos sendo formados em Universidades chinesas com bolsas completas de estudos. Sou guatemalteco, imaginen, o que seria aqui o equivalente do Palacio do Planalto é administrado por uma senhora, noiva do Embaixador da China! (fofoca, mas verdade!).
    Saudade do belo Pais de vocês! Espero ter o presente de voltar em breve, se Deus quiser, Ceará! Grande abraço, que Deus esteja com vocês, parabéns pelo seu maravilhoso trabalho!

  • me esqueçi! sou fã e torcedor do governo de Bolsonaro! homem gigante! “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”!

  • “Metacapitalismo” não existe

    “Metacapitalismo”, “capitalismo de compadrio”, “capitalismo de conchavos”, “capitalismo corporativista”, nada disso existe. Mas Olavo de Carvalho e seus seguidores, além de toda a direita liberal-conservadora, adoram falar nestas mistificações.

    Quando descrevem tais fenômenos, trata-se apenas do capitalismo mesmo. Capitalismo padrão. Capitalismo 1.0. Capitalismo original. Capitalismo capitalista. Sem adjetivos, sem prefixos, sem qualificações. É o mais puro, usual, comum e trivial capitalismo.

    Essas terminologias, antes, são utilizadas por pessoas que querem “salvar” o capitalismo contra críticas dirigidas à sua essência, como se estivéssemos falando de coisas circunstanciais, “acidentes” no percurso histórico do capitalismo. Eles ignoram ou camuflam o fato de que essas supostas “imperfeições” históricas do capitalismo são, na verdade, parte das próprias condições necessárias que permitiram o surgimento do capitalismo e seu entranhamento nas sociedades ocidentais.

    O capitalismo dos conglomerados internacionais não é diferente, em essência, das outras unidades capitalistas de produção que operam em escala menor. São apenas fases de desenvolvimento e acumulação de capital distintas. Mas o que o “capitalista nacional” almeja é se tornar igual ao grande capitalista internacional. Portanto, não estamos falando de algum tipo de fenômeno distinto quando falamos nos grandes capitalistas internacionais, os chamados “globalistas”. Eles são apenas o resultado lógico, inevitável e incontornável do desenvolvimento do capitalismo.

    No que concerne às críticas contra as relações promíscuas entre Estado e corporações, ao contrário do que dizem, é correto afirmar que essas relações precedem até mesmo o próprio capitalismo. Elas já vêm da fase mercantilista pré-capitalista. Os reis e parte da burocracia aristocrática se aliaram à burguesia para enfraquecer o resto do sistema feudal e consolidar os Estados nacionais nascentes na aurora da Modernidade. O capitalismo surge já na dependência do Estado.

    Mas há uma questão fundamental a ser compreendida. Existe um entendimento errado sobre essa relação, e esse entendimento errado é derivado da ingenuidade dos críticos do capitalismo.

    Hoje sabemos, obviamente, que o capitalismo não é monarquista. Mas os críticos do capitalismo do século XIX faziam essas associações entre capitalismo e monarquia. Lembrem daquele desenho de livro escolar com o proletariado na base e a monarquia no topo, passando por clero, burguesia, etc. Essa estrutura é puramente circunstancial. O capitalismo, e seus operadores, se utilizam das forças sociais à disposição em um dado momento histórico, mas a partir do momento em que essas forças não favorecem expansões ainda maiores do capital, elas se tornam impedimentos e precisam ser enfraquecidas ou derrubadas.

    E lá se foram as monarquias.

    O mesmo se aplica à Igreja e ao clero. Eles não têm nada a ver com a classe burguesa, com o capitalismo ou com o que seja. Mas, tal como com as monarquias, foram instrumentalizadas enquanto forças sociais com grande influência cultural e moral sobre a sociedade civil. Depois que deixaram de ter tal utilidade (com o surgimento do cinema, da TV, das mídias de massa, etc.), a religião se tornou um alvo. Isso aconteceu por volta do início do século XX. Ou seja, a esquerda estaria cem anos atrasada quando critica o Cristianismo como parte da ideologia da classe dominante. Não é.

    É importante fazer esse percurso histórico pelo seguinte motivo:

    É claro que o capitalismo, hoje, possui uma relação simbiótica com os Estados modernos. Mas isso não é algo inevitável e da natureza do próprio Estado. Então não adianta buscar enfraquecer o Estado, combater o Estado, para atingir o fim de combater o capitalismo.

    O Estado, aí, é um instrumento, tão somente um instrumento, uma ferramenta das forças que controlam o capital. Isso também não muda o fato de que o capitalismo, que cresceu a ponto de não precisar mais dos monarcas, depois cresceu a ponto de não precisar mais da igreja, agora cresceu a ponto de não precisar mais do Estado. E, por isso, conspira em prol de seu enfraquecimento.

    E esse é o modus operandi padrão do capitalismo. Ele vai crescendo como um parasita, se apoiando e dependendo de forças e instituições sociais pré-existentes. Mas essas forças e instituições sociais são, ao mesmo tempo, limitadoras a longo prazo, porque o objetivo fundamental do capitalismo é a expansão infinita, ilimitada, irrestrita, e as forças e instituições históricas, usualmente, desejam impôr limites.

    O capitalismo, resumindo, é um câncer. Um câncer que tende a devorar o planeta e corroer todas as forças e instituições dos povos para garantir a realização de seu objetivo inato. Ao mesmo tempo, o capitalismo é um parasita, que se aferra a essas forças e instituições enquanto puder tirar proveito delas, mas as destrói quando elas perdem sua utilidade ou quando se revelam entraves ao fim último da expansão infinita.

    Não é à toa que é útil pensar no combate ao capitalismo como uma Guerra Santa, uma “Jihad”, um combate contra forças essencialmente devastadoras, anti-humanas e diabólicas. Assim, por trás dos operadores humanos desse câncer parasitário estão as figuras mais sombrias, mais podres, mais degeneradas em um nível que ainda pudemos vislumbrar.

    Eles não são apenas inimigos de classe. Eles são um vírus. E se não extirparmos esse vírus, o risco é a ruína do planeta inteiro.

    Devemos extirpar esse vírus custe o que custar.

  • Não existe Marxismo Cultural

    Olavo de Carvalho já deu aulas mostrando saber que os autores vinculados à Escola de Frankfurt não podem ser descritos pura e simplesmente como “marxistas”.

    Pelo contrário, apesar do intuito de crítica social, eles subvertem os fundamentos do marxismo com forte influência hegeliana, freudiana, existencialista, neo-kantiana e idealista.

    Outras tendências na Filosofia e ciências humanas, como o estruturalismo, o pós-estruturalismo, o desconstrucionismo etc., tampouco podem ser tidas como marxistas.

    Elas se desenvolvem com forte influência dos campos da linguística, semiótica, psicologia e outras.

    São esses desenvolvimentos teóricos e metodológicos que se vinculam mais diretamente à esquerda liberal defensora de pós-modernices, e não o marxismo propriamente dito.

    Quando Olavo e seus sequazes jogam todos esses autores e escolas e militantes num mesmo saco e os rotula de “marxismo cultural”, constroem um espantalho cuja função é meramente erística e voltada para fins políticos.

    Eles pensam que esse jogo retórico não tem nada demais desde que sirva para combater as ideias citadas acima e a militância desenvolvida em torno delas.

    Só que além de espalhar burrice e desinformação, essa retórica ajuda a ocultar as verdadeiras raízes sociais que possibilitam a militância progressista se apropriar dessas tendências.

    E com isso permite que as causas continuem operando nas sombras.

    As causas não estão em ideias e teorias criadas por acadêmicos , mas na revolução cultural impulsionada pelo capitalismo e sua ideologia de base, o liberalismo.

    O consumismo e individualismo liberal capitalista levam à privatização da ideia de bem, ao procedimentalismo, à erosão dos laços comunitários, ao Estado cartesiano, ao transbordamento das paixões para que organizem a vida social por meio do Mercado.

    Olavo e seus sequazes não apenas escondem essa verdade como se tornam agentes daquilo que declaram combater ao proporem como suposta alternativa ainda mais liberalismo e ainda mais capitalismo.

    É o capitalismo liberal que gesta e impulsiona o globalismo cosmopolita pós-moderno fundamentado nas finanças sem pátria.

    Abraçar o capitalismo e o liberalismo como soluções para o cenário atual é como tentar apagar um incêndio jogando gasolina no fogo.

    A mitologia de um “marxismo cultural” já morreu.

    Ela é insustentável em um mundo em que os principais motores das causas globalistas são megacorporações como Apple, Google, McDonald’s, Coca-Cola, Microsoft, Ambev e outras.

    Seguiremos submetidos a essa lavagem cerebral enquanto não atacarmos as suas fontes: o liberalismo, enquanto filosofia, e o capitalismo, enquanto ordem econômica, e especialmente a subordinação ideológica do Brasil aos influxos culturais vindos dos países sede dessa bagunça mental.

  • A culpa é do Capitalismo Cultural

    O discurso da “representatividade” e do “politicamente correto” controlam a Rede Globo, a principal máquina de engenharia social e cultural do Brasil: todas as ideias pós-modernas mais estapafúrdias têm ali um imenso aparato de propaganda à sua disposição, com o objetivo de penetrar em todos os lares brasileiros. E tudo isso paralelamente a uma ampliação do discurso liberal em todos os demais níveis.

    847 gêneros, sim. Apropriação cultural, sim. Gordofobia, sim. Socialismo, não. Patriotismo, não. Desenvolvimentismo, não.

    De onde isso vem?

    A resposta, para a patota acéfala de olavetes, neonazis, monarco-liberais e figuras bizarras semelhantes, dadas às teorias da conspiração mais estapafúrdias, é uma só: “a culpa é do marxismo cultural!”.

    Segundo esses tipos, após perceberem que os intentos revolucionários comunistas na Europa haviam falhado, figuras como Antonio Gramsci teriam começado a defender que a “cultura conservadora” do proletariado era um empecilho. Após isso, ainda segundo esses tipos, teria surgido a Escola de Frankfurt que, secretamente apoiada e financiada pela URSS, teria supostamente se infiltrado no “Ocidente”, especialmente nas universidades, e começado a difundir uma série de pautas cujo objetivo era sabotar as bases culturais desse “Ocidente”: feminismo, gayzismo, ateísmo, promiscuidade, multiculturalismo, imigração, etc.

    Este é apenas um resumo, mas qualquer pessoa que não seja uma idiota total já conseguiria enxergar os problemas em tal tese. Ela está repleta de erros e nenhum de seus apologistas alguma vez já leu algum dos autores que, supostamente, participariam dessa “conspiração”.

    O marxismo é, fundamentalmente, uma matriz político-econômica materialista, que situa a “luta de classes” (em termos marxistas) no centro dos processos históricos. Quaisquer outros elementos de análise, teórica ou de práxis, devem estar a serviço da “luta de classes”.

    O problema é que isso inexiste na Escola de Frankfurt. O principal alvo da Escola de Frankfurt não era o capitalismo das sociedades ocidentais, mas sim o “autoritarismo” em geral, inclusive o soviético. Decepcionados com a falência das pretensões comunistas na Alemanha no início do século XX, e com as histórias de repressão na URSS, a maioria dos pensadores ligados à Escola de Frankfurt recuou na direção do liberalismo político, uma posição mais “segura” e menos arriscada.

    Isso fica absolutamente evidente, por exemplo, em Jürgen Habermas, no qual mal se consegue encontrar uma gota de influência marxista. O próprio Instituto para a Pesquisa Social, nome verdadeiro, acadêmico, da Escola de Frankfurt, passou a ser sediado em Nova Iorque, onde o próprio Theodor Adorno viveu, lecionou, trabalhou e escreveu por anos. A convite.

    Por mais que todos esses autores tenham sido leitores de Marx, eles foram muito mais influenciados por Freud (bem como por Kant, Spinoza, Kierkegaard, etc.) do que por Marx.

    Não houve infiltração. Não houve nada encoberto. Não houve qualquer tipo de conspiração. Setores da inteligência da Grã-Bretanha e dos EUA, simplesmente, começaram a investigar o papel da “moral” na guerra, bem como a possibilidade de travar guerras sem armas, para desmoralizar seus inimigos, por meio do enfraquecimento do tecido social. E, para isso, as teorias dos pensadores frankfurtianos eram úteis.

    Mas o pior é que os pensadores da Escola de Frankfurt, com poucas exceções, nem ao menos são os pensadores hegemônicos das faculdades de humanidades nas universidades ocidentais. Os pensadores pós-estruturalistas e desconstrucionistas são muito mais populares e a maioria deles, como Foucault, é ainda mais antipática ao comunismo e pró-capitalista que os frankfurtianos.

    Assim sendo, o que está por trás das pautas “politicamente corretas” da pós-modernidade e dos ataques aos valores culturais populares?

    É o CAPITALISMO CULTURAL!

    Cada uma das pautas pós-modernas só é possível e só surge em um contexto capitalista, não com um objetivo de enfraquecer este mesmo capitalismo e preparar o terreno para uma transformação socialista, mas sim para radicalizar o capitalismo e torná-lo cada vez mais absoluto e totalitário.

    O multiculturalismo e a imigração generalizada, por exemplo, são o resultado inevitável da demanda da classe capitalista por um mercado de trabalho mais flexível, que facilite o acesso à mão de obra mais barata importada. E o politicamente correto, como um todo, é uma condição de controle social necessária para que as auto-justificativas ideológicas do capitalismo possam ser internalizadas pelas massas.

    Sem o politicamente correto, ou seja, se os grupos raciais, étnicos e religiosos seguirem demonstrando preferência pelos seus próprios correlatos, se ainda houverem corpos discriminados pelos padrões de beleza, se os não-héteros forem excluídos da sociedade de consumo, fica difícil sustentar a fachada pseudo-meritocrática do capitalismo, bem como maximizar os lucros (que dependem de um consumidor que sempre toma decisões racionais).

    O capitalismo, para o seu funcionamento perfeito, depende de um estado em que as pessoas sejam algo como engrenagens intercambiáveis. Por isso, todo e qualquer tipo de discriminação é visto como um fator que reduz a eficiência dos processos capitalistas a longo prazo. No capitalismo, só importa a situação do homem como produtor e/ou consumidor. Quaisquer outros fatores de identificação são “irracionais” e “ineficientes” e, por isso, devem ser extirpados (com todo tipo de engenharia social necessária).

    A promiscuidade generalizada, além de seu aspecto consumista já citado, também está ligada à ampla aplicação do pensamento de Freud pelas grandes corporações midiáticas, especialmente às ligadas à produção cultural, através do sobrinho de Sigmund Freud, Edward Bernays, que trabalhou para inúmeras megacorporações e tinha como “carro-chefe” a apologia ao apelo aos instintos mais básicos, animalescos e mundanos, como forma de se garantir a efetividade da propaganda capitalista e da indústria cultural.

    Não é por outro motivo que nós temos visto o aprofundamento cada vez mais radical do “politicamente correto” pós-moderno, em todas as áreas da sociedade, ao mesmo tempo em que o capitalismo neoliberal se torna cada vez mais forte e onipresente, e o comunismo atinge o máximo grau de irrelevância política global desde que nasceu, frente ao liberalismo político.

    Não é uma contradição, estes dois fenômenos estão associados.

    O CAPITALISMO CULTURAL é uma ferramenta de engenharia social que visa garantir a aceitabilidade social do capitalismo enquanto modo de produção, e do liberalismo enquanto teoria política hegemônica.

    Precisamos, contra isso, travar uma autêntica GUERRA CULTURAL. Uma GUERRA CULTURAL que deverá disputar os corações e as mentes dos povos para insuflá-los à luta contra o capitalismo e contra o liberalismo.

    Morte ao Capitalismo Cultural!

  • Não é possível ser “liberal” e “conservador” ao mesmo tempo

    Uma das grandes modas políticas brasileiras da nossa época é o “conservadorismo liberal”, uma espécie de categoria que associa um “posicionamento liberal” na economia, e um “posicionamento conservador” na cultura e nos costumes. Este conservadorismo liberal prepondera entre os olavetes, os bolsonaretes e nos projetos aos quais estes estão associados, como a farsa do “Brasil Paralelo” e outras semelhantes.

    Estamos lidando com um caso claro e massificado de dissonância cognitiva, aquela condição problemática tipicamente pós-moderna na qual as pessoas sustentam atitudes, crenças e pensamentos fundamentalmente contraditórios.

    A base dessa dissonância cognitiva é a ignorância típica de suas vítimas, que acreditam que o liberalismo não passa de uma teoria econômica, completamente desvinculada de crenças, ideias e posicionamentos específicos de cunho filosófico, político, social, cultural, etc.

    A realidade é o oposto disso. O liberalismo é, em primeiro lugar, uma cosmovisão, um edifício teórico e filosófico, e as suas ramificações econômicas, apesar de essenciais para essa cosmovisão e de servirem como motores para a concretização dessa cosmovisão, não é o elemento mais importante.

    Sob a hegemonia liberal no mundo pós-soviético, todo esse conjunto político-filosófico do liberalismo recuou para as sombras, tornou-se “dado”, “ponto pacífico”, algo que é simplesmente aceito e não é discutido, tornando-se o eixo do debate político mesmo entre os adeptos do comunismo e do fascismo. A isso damos o nome de pós-liberalismo.

    Apenas o aspecto econômico do liberalismo permaneceu sob a luz, pela necessidade de ainda confrontar os resquícios social-democratas e socialistas das alternativas econômicas ao capitalismo liberal, uma contradição que ainda não foi definitivamente solucionada. Nesse sentido, o liberalismo pós-moderno é como um iceberg. Vemos com facilidade apenas a sua ponta, o seu aspecto econômico, mas este é sustentado por tudo aquilo que se afastou de nossos olhos: filosofia, política, cultura, ética, estética, metafísica, etc.

    Por isso é impossível desvincular o liberalismo econômico de toda a cosmovisão liberal, do liberalismo enquanto filosofia e teoria política. E quando acessamos esta verdade tudo fica bastante claro.

    O liberalismo possui um direcionamento específico em todas essas áreas, uma teleologia que aponta para um “Fim da História” que, de forma clara e evidente, está em contradição com tudo aquilo que os supostos “conservadores” dizem defender. Isso não fica muito claro nos panfleteiros e propagandistas do liberalismo, mas é tranquilamente evidente nos seus principais filósofos, de Kant a Rawls.

    O liberalismo é fundamentalmente globalista. A sua teleologia aponta para a construção de um mundo absolutamente integrado e globalizado, formando um Mercado Global, ausentes quaisquer barreiras para a livre circulação de pessoas, capitais e produtos. Se ainda sobrarem nações neste contexto do capitalismo plenamente globalizado, elas terão uma soberania meramente formal.

    O liberalismo é fundamentalmente ateu e antirreligioso. Na mesma medida em que no mundo pré-liberal havia uma associação teológica e filosófica entre a figura do Estado e do governante com a figura de Deus, os liberais compram essa associação com todas as suas consequências. A religião no mundo liberal, SE tiver que existir, será uma atividade meramente privada. A sua presença no espaço público será tão somente tolerada, a não ser que estejamos falando de um “sentimento religioso difuso”, desvinculado de qualquer tradição, como o que encontramos ligado ao movimento New Age.

    O liberalismo é fundamentalmente destrutivo para a família tradicional. O surgimento da “família nuclear” burguesa vem no esteio do desaparecimento da família tradicional pré-moderna. Essa “família nuclear”, individualista, pautada na propriedade privada, nas relações do mercado de trabalho e nos padrões de consumo surgiu primeiro na Inglaterra, junto do capitalismo, e se difunde no esteio do avanço do capitalismo. O liberalismo solapa a “família tradicional” aos poucos, na medida em que favorece níveis cada vez mais radicais de individualismo, começando pela escravização da mulher no mercado de trabalho capitalista e culminando na total dissolução da família, propagada pela mídia de massa através de modelos familiares baseados exclusivamente no “afeto” e no “desejo individual”.

    Também em todos os outros âmbitos culturais o liberalismo tem apontando exatamente na direção contrária do que os “conservadores” dizem defender, em relação à questão LGBT, à ideologia de gênero, e vários outros temas. Essa não é uma movimentação “oportunista” moderna, como defende a esquerda, mas segue a lógica fundamental do individualismo e do pós-individualismo que jazem na essência do liberalismo.

    A consequência desse “conservadorismo liberal” tem sido que o liberalismo tem conseguido aproximar o mundo cada vez mais do seu ideal de “Fim da História”, com todas as suas consequências nefastas, ao mesmo tempo que coloca essas consequências na conta do comunismo. E os “conservadores” (que, na prática, acabam não passando de liberais “light”), inocentes úteis que são, nem percebem o que está acontecendo.

    Nesse sentido, tudo que os “liberal-conservadores” defendem é uma farsa. As suas noções axiológicas são construções liberais e modernas. Defendendo o imperialismo eles encaminham o mundo rumo ao globalismo. Defendendo a família burguesa eles sepultam a família tradicional. Defendendo o enfraquecimento do Estado eles enfraquecem toda autoridade tradicional.

    É assim que o pós-liberalismo pretende cristalizar sua hegemonia., até que esses liberal-conservadores não sejam mais necessários e possam ser descartados.

    Se você conhece alguém vitimizado por essa triste condição patológica do “liberal-conservadorismo”,encaminhe este texto a ele. Talvez você consiga seu despertar e curá-lo.

    Só é possível conservar algo, especialmente o que há de valor e de positivo no passado e em nossas raízes, a partir de uma visão holística, que vise a dignidade e emancipação da pessoa humana, que seja patriótica, distante de todo louco e insano liberalismo.

  • Antifascismo e anticomunismo são estratégias de DISTRAÇÃO

    Quem manda no mundo de hoje? Seriam os fascistas? Não, o fascismo foi derrotado na Segunda Guerra Mundial e desapareceu enquanto força política de pretensões e potencialidades hegemônicas, restando no mundo, hoje, apenas alguns poucos esqueletos que poderiam ser corretamente categorizados como fascistas.

    Mas quem manda no mundo de hoje? Seriam os comunistas? Não, o comunismo foi derrotado durante a Guerra Fria e desapareceu enquanto força política de pretensões e potencialidades hegemônicas, restando no mundo, hoje, apenas uns poucos esqueletos que poderiam ser corretamente categorizados como comunistas.

    Na realidade, a quantidade de pessoas atualmente que se diz fascista ou comunista é minúscula, mesmo se considerarmos as de todo o mundo. E entre essas pessoas, aquelas que são efetivamente fascistas ou comunistas (ou seja, que sustentam crenças e posições efetivamente fascistas ou comunistas) é ainda menor, uma pequena fração dos que se identificam com um ou com outro. Mas se pararmos para conversar com pessoas da direita ou da esquerda sobre o assunto, elas nos garantirão, com o olhar vidrado e as pupilas dilatadas de quem, ou usou alguma substância suspeita, ou sofreu danos cerebrais, ou simplesmente enlouqueceu, que o mundo é governado por forças fascistas ou comunistas, ou de que pelo menos o Brasil se encontra nessa situação.

    Apenas o liberalismo econômico é que que não desperta essas reações desesperadas, fanáticas e amedrontadas. A quantidade de pessoas que dirá que, na verdade, o mundo vive hoje sob uma hegemonia liberal parece pequena, e essas pessoas se pronunciarão sobre isso com toda a tranquilidade de quem chegou a essa conclusão por uma análise, e não através de uma fé política dogmática.

    Para demonstrar seu ponto, direitistas e esquerdistas lançam mão do estratagema de alargar infinitamente as definições de fascismo ou de comunismo. Fascismo deixa de ser uma forma especificamente revolucionária de nacionalismo palingenético para se tornar algum falatório qualquer sobre violência capitalista, ou qualquer discurso de teor soberanista ou conservador. E comunismo deixa de ser um projeto político revolucionário específico, baseado no materialismo histórico-dialético, na crença na luta de classes como motor da História e no proletariado como sujeito político fundamental, para se tornar qualquer falatório que tenha “social” no nome, ou que envolva atribuir algum papel positivo ao Estado.

    De onde vem essa confusão e a quais interesses ela serve?

    Bem, de imediato, é possível dizer que se tanto o fascismo como o comunismo foram relegados ao universo dos projetos históricos falidos, tanto o antifascismo como o anticomunismo são tão politicamente relevantes hoje quanto fazer oposição ao governo dos faraós egípcios ou ao consulado dual da república romana. Contudo, parecem haver forças alimentando de forma permanente, e talvez até mais do que há 10 anos atrás, os discursos do antifascismo e do anticomunismo: ONGs, think-tanks, agências nacionais e internacionais e certos intelectuais parecem ser o principal porta-voz da desses discursos. E ainda assim, como vimos, ninguém fala no liberalismo enquanto a grande ameaça permanente, nem existe um “antiliberalismo” mobilizando massas e mobilizando paixões políticas com a mesma eficácia.

    Não obstante, se entendermos o liberalismo como a teoria política que possui o Indivíduo como sujeito histórico fundamental; que defende uma noção de liberdade negativa (ou seja, liberdade como “ausência de impedimentos para fazer X”); que possui um projeto global de um “grande mercado global” formado por um “mundo sem fronteiras”; que acredita no discurso e no debate como práxis; que defende o secularismo; etc., então torna-se evidente que, estejamos nos referindo à forças políticas à direita ou à esquerda, todas elas são liberais. No Brasil, nos EUA, na Europa e em quase todo o planeta, os partidos dominantes são liberais. As elites são liberais. As instituições são liberais. Os intelectuais são liberais. As forças responsáveis por todos os males da pós-modernidade, do mundo contemporâneo, são liberais. A alternância entre partidos se dá entre diferentes vertentes e diferentes matizes de um mesmo liberalismo. Os debates entre intelectuais se dão entre diferentes intérpretes do liberalismo.

    Após a Segunda Guerra Mundial, o liberalismo atingiu o status de ideologia hegemônica no planeta. E essa hegemonia se tornou tão absoluta que ela promoveu a própria desideologização. Liberalismo virou pós-liberalismo, porque o que antes era visto claramente como discurso ideológico passou a ser vendido como mero “common sense”, pura razoabilidade ou até mesmo como “ciência”.

    Este mesmo processo de naturalização do liberalismo parece acompanhar o fortalecimento dos discursos antifascistas e anticomunistas. O liberalismo se “naturaliza” e se enraiza cada vez mais nas sociedades, os danos e as consequências negativas aparecem com maior frequência, e aí os discursos antifascista e anticomunista aparecem para silenciar todo questionamento desse sistema hegemônico. Sim, ao que tudo indica, parece que o antifascismo e o anticomunismo se tornaram estratégias de distração, cuja finalidade é proteger o Sistema hegemônico liberal. O antifascista e o anticomunista atuam, assim, como Bombeiros do Sistema.

    A função dos intelectuais nesse contexto é tão somente detectar se será mais fácil acusar um determinado grupo social, que aparenta ameaçar o status quo, de fascista ou comunista.

    A prova de que esse fenômeno é estratégico vem do fato sempre ocorrerem as “falhas na matrix”, por exemplo, quando um mesmo personagem ou grupo é simultaneamente acusado por intelectuais diferentes de ser fascista e de ser comunista.

    Agora fica tudo absolutamente claro. Existe uma força hegemônica liberal que preserva um status quo pela alternância governamental entre diferentes vertentes de liberalismo, geralmente entre partidos de centro-esquerda e centro-direita. Essa força hegemônica teme perder seu monopólio do poder e, por isso, mobiliza discursos de teor antifascista e anticomunista – apesar de tanto o fascismo como o comunismo serem tão politicamente protagonistas hoje quanto o feudalismo medieval.

    Qualquer pessoa, portanto, que esteja, hoje (quando SÓ EXISTE o liberalismo), falando em antifascismo e anticomunismo, forçando antifascismo e anticomunismo como se fossem o “X” da questão política contemporânea, está claramente a serviço das forças hegemônicas. Não pretende alterar o status quo, mas preservá-lo. Em relação a isso, no Brasil, podemos afirmar que a quase totalidade das organizações ditas nacionalistas (além, obviamente, de todas as liberais) apela ao mito do anticomunismo, e podemos afirmar que a quase totalidade das organizações socialistas, social-democratas e esquerdistas em geral apela ao mito do antifascismo. Assim sabemos, portanto, que todos estes estão claramente a serviço da hegemonia global liberal.

    Não existe mais fascismo.

    Não existe mais comunismo.

    Ou o foco se dá contra o único inimigo real, o liberalismo, ou o povo brasileiro seguirá sendo derrotado e permanecerá escravo.

  • Não existe ‘ameaça comunista’ e nem ‘ameaça fascista’ – o inimigo da pátria é o liberalismo!

    Apesar de tanto a Segunda Guerra Mundial quanto a Guerra Fria não passarem de memórias fugidias nas mentes de idosos, e de ambas terem extinguido, respectivamente, o fascismo e o comunismo enquanto forças metapolíticas aptas à disputarem a hegemonia global, os slogans necromânticos das organizações políticas de esquerda e de direita seguem tentando amedrontar a população com os fantasmas de uma “ameaça comunista” ou de uma “ameaça fascista”.

    Todos já nos deparamos com esses discursos esquizofrênicos. Para boa parte da direita, vivemos sob o comunismo. Soros é comunista. Obama era comunista. A América Latina inteira é comunista. A Europa é comunista. Putin é comunista. Tudo e todos são comunistas. E insatisfeitos com já dominarem o mundo, aparentemente os comunistas querem… dominar ainda mais aquilo que já dominam? Vai entender. Ou melhor, não tentem entender a conspirologia direitista. Ela não faz sentido e nem tenta fazer sentido.

    Do outro lado, com uma histeria ainda mais esclerosada, uma parte considerável da esquerda insiste que o fascismo (morto há mais de 70 anos) está à espreita, prestes a tomar o poder e impôr sua “ditadura do capitalismo radicalizado”. A preocupação teórico-terminológica é mínima. Fascismo se transforma, basicamente, em sinônimo para qualquer tipo de autoritarismo de direita, e nos âmbitos mais solipsistas, fascismo é basicamente qualquer distanciamento de qualquer uma das pautas morais liberais. Trump é fascista. Putin é fascista. Bolsonaro é fascista, o líder do Japão, fascistas também.

    Nos dois casos, parece haver algum tipo de fetiche por pertencer a alguma forma de resistência oprimida e perseguida, sobrevivendo nas “catacumbas”, enquanto o inimigo está no poder. Nos dois casos, parece faltar a mais básica percepção de que é o próprio lado que está no poder.

    São os liberais de direita e esquerda que estão no poder, disputando de forma sempre “racional”, “sensata”, “moderada” e “comedida” o poder. Mas preservando o monopólio liberal sobre este poder e, inclusive, se aliando sempre que qualquer força política minimamente exógena ameaça tal monopólio.

    Retirado o véu das esquizofrenias esclerosadas e fantasmagóricas das teorias políticas defuntas do século passado, a verdade que se revela é a de que o mundo vive hoje sob uma hegemonia liberal. Quase todos os países do mundo são governados por pessoas e/ou organizações políticas liberais, e são os valores liberais que regem a estruturação política, econômica, social e cultural dos povos.

    Alguns entre estes liberais possuem como foco a abertura comercial, a liberdade de mercado, as privatizações e outras medidas semelhantes. Alguns outros possuem como foco a ideologia de gênero, as cotas, a adoção gay, o aborto e outras medidas semelhantes. Há ainda aqueles liberais preocupadíssimos com as ameaças religiosos ao sacrossanto “Estado laico”. Há liberais de todo tipo e com todos os enfoques possíveis, mas SÓ HÁ liberais. As exceções são mínimas, pontuais.

    Não há uma única tragédia política, econômica, moral, cultural, espiritual ou ambiental dos últimos cem anos cuja origem não possa ser atribuída, em alguma medida, ao liberalismo teórico-filosófico e seus derivados.

    Nesse sentido, falar em “ameaça comunista” ou “ameaça fascista” nos faz refletir sobre que interesses podem se ocultar por trás dessa propaganda caduca. De fato, parece evidente que a maioria esmagadora das pessoas que manejam esses slogans, ou são idosos confusos, ou adolescentes que ingeriram soja em excesso, ou pessoas simplesmente mentalmente desequilibradas em geral.

    Mas por trás dessas hordas de zumbis há partidos, think-tanks, intelectuais. É muito improvável que essas figuras não saibam que as propagandas caducas do anticomunismo e do antifascismo servem para distrair as massas em relação ao único inimigo, aquele que está no poder, o liberalismo. Eles sabem. Longe dos olhos de suas seitas compostas por pequeno-burgueses lobotomizados pela televisão, eles abraçam uns aos outros e cultivam laços pessoais e sociais. A elite é uma só. Ela é global, e sabe que as disputas entre seus membros não passam de entretenimento para manter o tédio longe.

    Anticomunismo e antifascismo são as ferramentas de uma elite que pretende seguir tratando o povo como gado a ser explorado, manipulado e descartado. Falar em anticomunismo ou antifascismo, em uma era na qual comunismo e fascismo estão MORTOS e NÃO EXISTEM MAIS, é assumir o lado do liberalismo.

    O inimigo do Brasil é um só.

    O inimigo dos povos do mundo é um só.

    É a elite global, internacional, apátrida, desenraizada. E essa elite é liberal.

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