Conheça o que pensa Hussein Ali Kalout, secretário de Michel Temer

Em entrevista concedida a O Globo em 2015, Hussein culpa a discriminação como causa dos atos terroristas ocorridos na Europa. O muçulmano na Europa vem sofrendo grande discriminação e exclusão, uma xenofobia sistemática e organizada, com a conivência do Estado. É preciso uma política voltada para aquela população, que deve ser incluída no arcabouço social e se sentir protegida. O problema vem ao longo de décadas. Os europeus não foram hábeis para lidar com o fanatismo religioso, existente em qualquer religião.

Confira a íntegra da entrevista.

Cientista político defende diálogo entre religiões no combate ao terrorismo

“Na medida em que não se tem esse tipo de trabalho, você cria lacuna, assimetria e distanciamento”, diz Hussein Ali Kalout

Gabriel Garcia

Enquanto o semanário francês Charlie Hebdo tenta retornar à normalidade, com a publicação da primeira edição após o atentado que dizimou os principais nomes de sua redação, o Ocidente ainda busca resposta à ação dos irmãos Chérif e Saïd Kouachi.

O cientista político pela Universidade de Brasília e pesquisador da Universidade de Harvard, Hussein Ali Kalout, atribui o ato terrorista, ocorrido em Paris na semana passada, à política de exclusão da população muçulmana, que segundo ele, vive marginalizada na Europa.

Para o especialista, a receita é o diálogo entre civilizações e religiões, não o incentivo à xenofobia. “Na medida em que não se tem esse tipo de trabalho, você cria lacuna, assimetria e distanciamento, o que acaba criando uma resistência a outra religião”, afirmou ao blog.

Mestre em Relações Internacionais e pós-graduado em Economia Política pela Universidade Árabe de Beirute, ele garante que quem mais sofre com o terrorismo são os muçulmanos.

Estudo da Academia Militar dos Estados Unidos, West Point, mencionado pelo cientista político, constatou que cerca de 80% dos atentados atingem justamente o povo islâmico.

Condenando o ataque ao semanário, Hussein defende mais sensibilidade na publicação de charges de cunho religioso e cultural. Numa população em situação precária de vida, segundo ele, “fazer charges contra a religião é entendido como desrespeitoso”.

Hussein Ali Kalout, pesquisador da Universidade de Harvard (Foto: Gabriel Garcia)

O que muda após os atentados radicais na França?

Não creio que mudará muita coisa no Oriente Médio. O terrorismo na região atinge toda população, especialmente a comunidade muçulmana – a primeira vítima do crime organizado e do terrorismo fundamentalista. O Ocidente, muitas vezes, só presta atenção na problemática do terrorismo no Oriente Médio quando afeta a sociedade ocidental. Falta política estratégica de prevenção e de conscientização dessas comunidades. No caso francês, a população muçulmana na França é marginalizada e excluída. Na Europa, é preciso pensar o assunto na sua gênese. Porque há um problema real a ser enfrentado.

Como a gente consegue pôr em perspectiva o que aconteceu em Paris?

O muçulmano na Europa vem sofrendo grande discriminação e exclusão, uma xenofobia sistemática e organizada, com a conivência do Estado. É preciso uma política voltada para aquela população, que deve ser incluída no arcabouço social e se sentir protegida. O problema vem ao longo de décadas. Os europeus não foram hábeis para lidar com o fanatismo religioso, existente em qualquer religião. Num grupo social com alto índice de desemprego, as pessoas acabam se enveredando para o crime organizado. O terrorismo é um dos caminhos do crime organizado.

Muçulmanos radicais alegam que são massacrados na Síria, no Egito, na Líbia. Há justificativa para um massacre como o ocorrido na França?

Não. A religião muçulmana não prega a violência. Se levar em consideração um universo de 1,6 bilhão de muçulmanos, quantos realmente são radicais? Uma minoria ínfima. As vítimas da violência religiosa são os próprios muçulmanos. Estudo da Academia Militar dos Estados Unidos, West Point, constatou que cerca de 80% dos atentados terroristas matam mais muçulmanos. O grande problema que o Ocidente apenas se choca quando um meio de comunicação e um supermercado são atingidos. No Oriente Médio, morrem centenas de pessoas por dia, vítimas de atentado. Esse tipo de violência é tratado de forma alheia.

Há uma circunstância particular que lhe chamou atenção ou você não está surpreso?

Pela carga de rancor e exclusão, cedo ou tarde alguma coisa desse gênero iria acontecer. Agora, claro, o atentado choca o mundo democrático pelo método, pela forma atrevida como duas pessoas armadas entram na redação de um meio de comunicação, fuzilam pessoas e saem a sangue frio. Qual a melhor forma de combater o terrorismo? É aumentar a prevenção. Qual a forma de ampliar a prevenção? É a conscientização. Talvez a França precise pensar sua política migratória, sua política de inclusão social para com a população mulçumana.

Os ataques inibem a liberdade de expressão, coagindo de alguma forma a imprensa?

Nem a imprensa e nem o mundo democrático devem se sentir coagidos. O ataque ampliará a liberdade de imprensa, que precisa ser usada de forma mais responsável. O atentado é hediondo e condenável. Mas o que o Charlie Hebdo fazia era, às vezes, insensível. Tem que levar em consideração que, em uma população vivendo em conjuntura muito difícil, fazer charges contra a religião é entendido como desrespeitoso. É preciso mais sensibilidade, especialmente no momento de xenofobia que a gente vive na Europa e com a crise no Oriente Médio.

O que poderíamos entender por radicalismo/fanatismo islâmico?

Radicalismo e fundamentalismo existem em qualquer religião, no Brasil, na Europa, no mundo Árabe. A questão toda é como lidar com o radicalismo e o extremismo. Na minha concepção, a melhor forma é sempre o diálogo entre civilizações e religiões. Na medida em que não se tem esse tipo de trabalho, você cria lacuna, assimetria e distanciamento, o que acaba criando uma resistência a outra religião.

De acordo com o Alcorão, como devem ser tratadas as pessoas de outras crenças?

O Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, realça que o islamismo vem como um complemento aos povos dos livros. A religião muçulmana é absolutamente integracionista, não é refratária. Nós não podemos entender o islamismo como uma religião violenta porque um ou outro desvirtuado ou fanático usa da religião como instrumento para alcançar os próprios objetivos, são os mercadores da religião.

O Ocidente tem capacidade de entender o radicalismo religioso?

Tem. Os europeus colonizaram o mundo Árabe e o muçulmano por séculos. Falta ao Ocidente entender que ali viviam civilizações históricas, cada uma com sua própria lógica cultural e religiosa. O mundo muçulmano é diverso, variado e multiétnico. O problema está na forma como o Ocidente trata os muçulmanos, como se aquilo fosse uma coisa só. O mesmo agrupamento populacional, histórico e étnico, como se fosse um corpo único.

Há uma visão clara do que seria o radicalismo islâmico?

Radicalismo nasce a partir da intervenção, da opressão, do colonialismo e de outros fatores. Parte do radicalismo de hoje emana de um período histórico, do período colonial, em que a Europa dominou uma zona geográfica e tentou alterar sua geografia, sua história e sua política. O Ocidente não amadureceu para lidar com a realidade daquela sociedade. Há uma passeata de 40 chefes de Estado em Paris em função do ocorrido, mas nunca houve passeata por causa dos 200 mil sírios mortos e da fome na África. A vida ali vale menos? Lembre-se. Parte dos regimes totalitários islâmicos nasceu com apoio da Europa. É um pouco antagônico. Ao mesmo tempo que você ressalta a democracia e a liberdade de imprensa, você apoia governos que não são democráticos e abominam a liberdade de imprensa.

Há um componente de profissionalismo internacional nos ataques?

Aparentemente as pessoas eram bem treinadas, com um plano de ação e método de ataque muito bem organizado e balizado. Os dois não entraram fuzilando todo mundo. Entraram preparados, sabendo o que estavam fazendo. É lamentável que o atentado tenha ocorrido, mas não esqueçamos que, no Oriente Médio, morrem dezenas de pessoas todo dia. Choca muito mais quando uma bomba cai em uma escola e mata 200 pessoas. Quando uma bomba cai em Gaza e mata 100 crianças, o mundo nem sequer condena com veemência. Choca muito mais ver 200 crianças morrerem na África por dia porque não têm o que comer. Não quero ser utópico, mas isso choca mais. É uma crueldade a olho nu. A outra é o imponderável.