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Crítica do filme – Nightcrawler (O Abutre)

Nightcrawler é um filme de 2014, no Brasil chegou com o nome O Abutre.

Louis Bloom é um jovem ambicioso e sem qualquer princípio moral, seus únicos valores são o dinheiro e o sucesso. Sua trajetória é a de quem busca um trabalho em um cenário de crise financeira, mas em seu primeiro ato revela-se um ladrão. Bloom estaciona seu carro na rodovia para assistir um acidente e aprende como os câmeras de tele-jornal trabalham, qual tipo de notícia que “vende” (as que tem sangue) e como conseguir notícias (de forma ilegal). Percebendo uma oportunidade de negócios ele comete um furto e barganha o produto por uma câmera filmadora e um rádio da polícia. Louis consegue uma oportunidade na mídia que tem predileção por crimes cometidos contra pobres brancos cujos autores sejam minorias. Dedicado ele aprende os códigos de rádio da polícia e contrata um garoto desesperado como ajudante. Geralmente usa frases prontas, decoradas de marqueteiros pilantras da internet e outras fontes obscuras para abusar da fé dos mais simples. Viola leis para conseguir filmagens, sem qualquer escrúpulo altera fatos para “melhorar” notícias. Na emissora ele negocia sexo, não tem nenhum limite para lidar com a concorrência. A cada passo que sobe torna-se mais tirano com seus colegas de trabalho.

O roteiro é veloz e intenso e fornece todas as informações necessárias. O autor provavelmente tentou realizar uma crítica do capitalismo e acabou por enaltecer o cristianismo, pois o problema do personagem central não é a falta de recursos, é a falta de escrúpulos. O tema central é sem qualquer dúvida ou pudor a ausência de princípios morais. A predileção pelo tipo de notícia do jornalismo popular, sangrento e cru, enunciada de início como critério de trabalho e reafirmada por mais três vezes com clareza “crimes cometidos por minorias contra brancos pobres” é inegavelmente uma acusação de conspiração cultural midiática na formação do senso-comum. A intenção do autor nisto é tão insustentável que a narrativa acaba por defender princípios morais judaico-cristãos da mesma civilização ocidental que ele se esforça para atacar e ainda defende o direito romano. É um filme que tenta ser de esquerda e acaba sendo de direita conservadora, não pela afirmação mas pela negação: é a ausência da moral o problema e não sua existência.

Louis é um personagem que não tem curva dramática, ele tem uma linha ascendente em um plano cartesiano cruel. É uma versão sombria de “O Estrangeiro” do Albert Camus, cujo livro foi lançado em 1942 e virou filme em 1967. As semelhanças entre os personagens são possíveis coincidências e o desenvolvimento de ambos extremamente semelhante.

A música lembra o psicodélico decadente do The Velvet Underground e a fotografia é o noturno boêmio em tempo integral. A sensação de noite eterna harmoniza com as trevas na alma do protagonista, é uma fotografia com qualidade artística embora em termos técnicos seja meramente informativa. A edição é técnica, fria e precisa.

O elenco é muito bom e todos os personagens convencem. Jake Gyllenhaal como o psicopático e frio Louis Bloom fez um trabalho fascinante. Rene Russo como a imoral e teatral jornalista Nina foi ótima. Riz Ahmed como o desesperado ajudante Rick mereceu aplausos.

A direção foi um trabalho de orquestra simplista que ganhou força através da narrativa e teve colaboração de uma equipe técnica muito talentosa.

A produção conseguiu um orçamento US$ 8.5 milhões e fez uma receita pífia de US$ 38 milhões, mas tornou-se certamente um cult. A película foi indicada para 164 premiações das quais ganhou 43. Entre as indicações um Oscar, que não ganhou.

Eu dou uma sarcástica nota 9,0 para este filme que mais se parece com um tiro ideológico que saiu pela culatra.

Trailer de Nightcrawler (O Abutre)

Fonte: Blog do Ricardo Rovervan

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Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

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