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Crítica do filme – The Last Man on Earth ( Mortos que Matam )

The Last Man on Earth (Mortos que Matam – 1964) foi a primeira adaptação para o cinema do livro “I Am Legend” (Eu sou a Lenda – 1954), houve uma segunda chamada “The Omega Man” (1971) e mais duas “I Am Legend” (Eu sou a Lenda – 2007, sim aquele com o Will Smith) e “I Am Omega” (A Batalha dos Mortos – 2007).

a última esperança sobre a Terra - richard mathesoneu sou a lenda - richard mathesonSe há uma semente de mais de meio século que deu muitos frutos, esta é sem dúvidas a obra de Richard Matheson, com destaque para “I Am Legend” (1954), que foi traduzido primeiro sob o título “A Última Esperança Sobre a Terra” (1984) e mais recentemente com o lançamento do filme homônimo e adaptado da mesma obra, com a participação do Will Smith (2007), somado com a febre mundial zumbi de The Walking Dead, uma nova edição titulada “Eu Sou a Lenda” (2015) foi publicada.

A verdade é que Richard Matheson é um dos patriarcas dos mortos vivos.

Eu costumo defender a tese (que não é uma tese, mas uma constatação) de que os autores são influenciados pelo que vêem e ouvem, são antes expectadores da vida, para depois replicá-la em seus registros. A ficção de Matheson foi já examinada pela lente da Guerra Fria (1947 – 1991) por alguns críticos de sua obra, o que pode (e deve) ser válido, pois semelhante fenômeno se passou com Bram Stoker que criou o Drácula (1897) baseado na trajetória do Monarca Vlad III, Príncipe da Ordem do Dragão (Draculea), um sanguinário brutal cujos prazeres envolviam assistir seus inimigos sendo empalados enquanto almoçava. Tal inspiração no real também sucedeu à Mary Shelley que criou o Frankenstein impressionada com o debate entre Alessandro Volta e Luigi Galvani. O segundo afirmava ter dissecado uma rã que ao ser tocada por um fio na medula espasmava e que portanto os mortos tinham alguma vida ainda no corpo. Volta por sua vez não aceitou esta tese e passou a investigar o assunto, descobrindo que na verdade a rã estava apenas servindo como condutor da eletricidade e não a criando. Apesar de Volta ter vencido este debate, as notícias circularam e durante algum tempo tornou-se moda aplicar eletricidade em cadáveres para vê-los mexer músculos faciais. Shelley obviamente foi afetada por estes dados de sua época e assim surgiu o personagem de sua obra. Por que então seria diferente com Matheson?

O “zumbi” de Matheson não era exatamente um morto-vivo como os contemporâneos, tinha alguns detalhes parecidos com os dos vampiros da linhagem de Stoker, como não suportar a luz do sol, preferirem a noite, se alimentarem dos vivos, adotarem hábitos noturnos e sentirem repulsa por alho e espelhos, e morrerem com uma estaca no peito. É no fim um tipo meio vampiro.

O autor do livro participou do roteiro do filme de 1964 e este deixa claro tratar-se de uma doença que veio da Europa e que contagia todos pelo ar. Este “zumbi” está consciente até certo ponto e inclusive fala.

O protagonista é o Dr. Robert Morgan, um cientista vivido pelo grande Vincent Price que desenvolve uma curiosa imunidade à enfermidade e prossegue num desesperador combate pela vida, enquanto busca em seu laboratório uma cura para o mal que acabou com o mundo do qual aparentemente sobrou apenas ele. Aturdido por memórias angustiantes e sentindo o peso da responsabilidade, o último homem no mundo tem que esforçar-se muito para não enlouquecer e ainda tentar resolver o problema. O doutor está imerso naquela situação há 3 anos já, ele viu sua esposa e filha morrerem, e suas únicas companhias são os livros, os discos, as memórias e os zumbis. Esta situação toda muda ao conhecer Ruth, uma misteriosa mulher que não se tornou zumbi, vivida pela fantástica Franca Bettoia. Ruth por sua vez pertence a um grupo de pessoas que observa secretamente o doutor e planeja matá-lo, pois os zumbis que ele andou matando eram parentes seus e eles possuíam esperança em uma cura. Os membros de tal grupo sobrevivem com o auxílio de um tipo de vacina que precisam injetar em seus corpos todos os dias, apenas uma solução paliativa. Agora o grupo quer a cabeça de Morgan, mas junto a Ruth ele encontrou a cura para todos.

O conteúdo todo remete à inexorável crítica histórica, não apenas da Guerra Fria mas do comunismo, nazismo e demais regimes totalitários. O fato que mais me chamou atenção, foi o grupo estar preparando o assassinato do doutor, justamente quando é este o personagem que encontrou a cura para os seus problemas, ou seja, justamente aquele que tem a solução, o homem livre, é o que é perseguido por aqueles que dele mais precisam. Iconograficamente a batalha final ocorre dentro de uma igreja cristã, justamente no altar e as palavras que encerram a película são fortes, no sentido político de combate entre direita e esquerda.

Alguns pontos de simbologia que me chamaram muita atenção foram os símbolos nos caminhões do estado que recolhem os doentes e os queimam, como em campos de contração. Os caminhões carregam símbolos que em muito lembram os usados pelos comunistas da União Soviética. A alusão aos campos de concentração comunistas ali é forte. Os perseguidores do doutor usam trajes que lembram o fascismo italiano e a brutalidade de todos alude ao nazismo.

A direção do italiano Ubaldo Ragona, para uma época pré Star Wars, na qual não se conhecia o conceito de blockbuster ainda, quando comparada aos demais filmes da mesma época, é no mínimo excelente. O elenco é razoável, mas Vincent Price e Franca Bettoia merecem destaque. A Ruth de Bettoia é inclusive além de personagem do filme, um estereótipo feminino, maduro e real de sua época, o que acrescenta o valor estético da obra. A trilha sonora é aquela confusão dramática pós cinema mudo, mas que vale a pena conferir e em momento algum peca contra a harmonia. A fotografia simplista numa paleta de preto e branco, clássico e expressivo, que novamente são a marca de um tempo. A edição é naquela altura motivo de elogios, com transições muito bem montadas, sobretudo nos momentos nos quais as memórias surgem e a narrativa ganha substância de alma. O roteiro é veloz, prende atenção e não deixa faltar qualquer informação.

Eu recomendo assistir este filme pelo menos os estudantes que buscam uma compreensão da diferença de comunicação entre a arte real e o show business, e que antes assistam as versões mais recentes, mais caracterizadas de aventuras, para depois, mergulhar na profundidade de “The Last Man on Earth“. É importante aprender esta diferença, sob a pena de não se produzirem mais obras que valham a pena serem lembradas.

Pela força crítica do conteúdo, uma nota 10,0 é o mínimo se pode conceder.

The Last Man on Earth ( Mortos que Matam )

Ficha técnica – The Last Man on Earth ( Mortos que Matam )

Filme The Last Man on Earth (Mortos que Matam)
Ano 1964
Duração 86 minutos
Produção Robert L. Lippert, Harold E. Knox
Direção Ubaldo Ragona, Sidney Salkow
Roteiro Furio M. Monetti, Ubaldo Ragona, William Leicester, Richard Matheson (como Logan Swanson)Baseado em “I Am Legend” de Richard Matheson
Fotografia Franco Delli Colli
Música Paul Sawtell, Bert Shefter
Edição Gene Ruggiero, Franca Silvi
Elenco Vincent Price, Franca Bettoia, Emma Danieli, Giacomo Rossi-Stuart
Orçamento / Receita Não informado
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Ricardo Roveran

Aquariano bonitão. Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escreve por amor e nas horas vagas salva o mundo.

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