De calúnias e caluniadores

Por General Hamilton Bonat*

Rolam muitos trocadilhos nas redes sociais. Normalmente são simpáticos, pois sintetizam verdades, mas de um jeito gostoso de ler. O mais recente – “Se um Moro já causa estrago entre os corruptos, imagina um Mourão!” – viralizou. Deixou os maus políticos em polvorosa. “É uma ameaça à democracia”, repetem sem cessar, contando com a ruidosa ajuda da imprensa para espalhar o seu temor por aí.

Recordo que, em 1993, a mesma “ameaça” veio à tona. Naquela ocasião, o Chefe do Estado-Maior do Exército criticou os denominados “anões do orçamento”, um grupo de parlamentares que havia desviado algo em torno de R$ 150 milhões, valor que parece migalha se comparado ao que se tem desviado nos últimos tempos. Foi o bastante para que, em causa própria, a classe política alardeasse que a democracia corria perigo.

A adesão de boa parte da imprensa, reforçando a ideia de que a ameaça era iminente, foi o suficiente para que, desde então, políticos corruptos se sentissem à vontade para assaltar os cofres públicos. Portanto, não é de estranhar o fato de ter sido agora encontrada, no apartamento emprestado a Gedel Vieira Lima, ministro nos governos Lula e Temer, a fabulosa quantia 51 milhões de reais, em dinheiro vivo. Aí, poucos enxergaram ameaça à democracia…

Quem assistiu até o fim a resposta do General Mourão à questão que lhe foi colocada no restrito âmbito de uma loja maçônica, viu que ele expressou, com precisão, o que vai na alma dos verdadeiros soldados: “A minha geração foi marcada por sucessivos ataques contra a nossa Instituição, feitos de forma covarde e não coerente com os fatos ocorridos entre 1964 e 1985. Buscamos fazer o melhor e levamos pedrada de todos os lados”.

Pois é bem essa a realidade. A nossa geração (minha turma é dois anos anterior à dele), permanente e exclusivamente voltada para o preparo do Exército como instrumento de defesa nacional, totalmente afastada das questões políticas, acompanhou, silenciosamente, o verdadeiro massacre sofrido pela Força desde o dia em que nos apresentamos em nossos primeiros quartéis, no início dos anos 1970.

Logicamente, nós já deveríamos estar vacinados contra as mentiras. Há meio século, temos lido e ouvido calúnias contra os militares nos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, a mesma ladainha tem sido repetida em universidades públicas e em algumas particulares. “No tempo da ditadura, todos fomos torturados”, tornou-se verdadeiro bordão de quem quer se passar por vítima.

Não bastasse, em “Os Dias Eram Assim”, a rede Globo mostra um regime brutal e reforça a verdadeira lavagem cerebral a que tem sido submetida parcela do povo brasileiro. Trata-se de mais uma produção para, de certa forma, lançar uma cortina de fumaça sobre a realidade do Brasil de hoje, da corrupção desenfreada, do cidadão enclausurado, refém do tráfico e de assaltantes. Aí, ninguém vê ameaça alguma…

Ela também não é vista em um Congresso que custa R$ 28 milhões/dia, enquanto há mais de 12 milhões de desempregados. Nem na violenta guerra civil do Rio de Janeiro, resultado da incompetência e da corrupção. Nem no assalto aos cofres da Petrobras. Nem quando um líder do MST incentiva seus integrantes a se armar, partir para a guerra, a tocar fogo no Brasil. Nem quando líderes do PT ameaçam e anunciam uma luta armada e sangrenta. Muito menos quando um ex-ministro do governo Lula, Ciro Gomes, desafia o juiz Sérgio Moro a prendê-lo, afirmando que, se isso vier a acontecer, “ele receberá a turma do Moro na bala”.

Ora, há no mínimo uma falsidade de quem afirma não enxergar essas ameaças. Que deixem de ser falsos, pois “cada falso tem o cadafalso que merece”. “Você riu desse trocadilho? Pois o Damon Hill”. Mas, se não riu, caro leitor, e se tanta podridão não o deixa preocupado, nada posso fazer para convencê-lo.

De qualquer forma, não se preocupe, pois não haverá golpe algum. O golpe já foi dado por uma quadrilha que se apossou da chave do cofre da Petrobras para arrancar para si toda a riqueza que lá havia e, o mais grave, para acabar com a nossa dignidade. Uma quadrilha que, mais uma vez, tem a cara de pau de posar de vítima. Façam-me o favor!

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Hamilton Bonat nasceu em Curitiba, de onde saiu, com quatorze anos, para seguir a carreira militar. De 1965 a 1971, viveu interno, primeiro em Campinas (SP) e depois em Resende (RJ). Em 2001 foi promovido a General-de-Brigada, posto no qual passou para a reserva.
Como visto em http://www.bonat.com.br/2017/09/22/de-calunias-e-caluniadores/ no dia 26 de Setembro de 2017.