ArtigosLuis Vilar

Dos transformadores culturais e suas revoluções…

Saber a origem das ideias e das camadas de poder que atuam sobre nós por meio dessas, que muitas vezes professamos sem saber como chegaram até nós; ou sem notarmos que estamos inseridos em uma bolha (ou redoma) ideológica que classifica como extremismo tudo que está fora dela…

Vejo esta como uma das reflexões presentes no belíssimo filme O Jardim das Aflições do cineasta Josias Teófilo. Quando sai da exibição, fiquei pensando muito sobre isso…

A película trata da obra do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho e ainda reflete sobre o estamento burocrático brasileiro, a percepção da realidade e o processo de anamnese, dentre outros assuntos. Todavia, o que pontuo no primeiro parágrafo deste artigo vejo como algo essencial aos nossos dias.

Em meio a uma intelectualidade orgânica que tem diluído conceitos próprios de uma revolução cultural, escondendo (ou até mesmo desconhecendo, no caso de “idiotas úteis falantes”) as fontes mais primárias e “intenções-subterfúgios” das teses que sustentam, somos chamados a conhecer sobre a origem das ideias que nos pegamos a pensar e a defender.

É um ato de sobrevivência e de compromisso com a própria sanidade e centralidade da psiquê , diante do caos da relativização do mundo pós-moderno. Afinal, como pontua o próprio Olavo de Carvalho: inteligência é algo que quanto mais você perde, menos você sente falta.

É fato que ao conhecer determinadas gênesis que explicam a bolha ideológica, nos depararemos com aqueles que dirão que se eles – a classe oficial falante – não conhecem é porque não existem, e aí, mesmo diante dos fatos, classificarão tudo como “teoria da conspiração” para fazer você passar por louco. Mas, com quem você estará compromissado: com um clubinho influente ou com a busca pela verdade? O que você quer para você?

Neste sentido, é preciso notar que são muitos os autores – sobretudo diante do revisionismo do marxismo – que tiveram forte influência na desconstrução e subversão de valores para a imposição de uma revolução cultural. Não por acaso, não por coincidência, aqueles que se aventuraram a discutir tais pensamentos desses autores com um olhar mais crítico sumiram das prateleiras de livrarias e sequer lembramos que existem/ existiram nomes gigantes entre nós, como José Guilherme Merquior, Antonio Paim, Meira Penna, Gustavo Corção, dentre tantos outros.

Eis a razão pela qual, neste artigo, indicarei a leitura de “Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin de Merquior”, com especial atenção para o capítulo que trata de Hebert Marcuse e o casamento promovido por ele entre Freud e Karl Marx. Marcuse via opressão em tudo e, por consequência, colocou a libertação do homem na decomposição da moralidade por meio da sexualidade.

Via na repressão dos instintos algo sempre opressivo, vendo a história do homem como a dos prazeres reprimidos. E se assumia Freud como um diagnóstico com o qual concordava, entendia como um erro isso ser algo permanente na sociedade, pois a existência de uma moralidade seria uma repressão por si só violenta. Não é preciso ser um gênio para compreender as bases que Marcuse ofereceu para se atacar a família e se enxergar a sexualidade como mera “construção social” ou musa inspiradora de tudo que o homem toca.

Aliado ao materialismo histórico, Marcuse viu no que chamou de imposições repressivas produtos de uma necessidade histórica de um determinado tempo de desenvolvimento econômico da sociedade que precisa ser superado. Aí, passa a criticar o capitalismo para que o homem – a partir disso – possa realizar formas de instintos antes oprimidas pelo processo civilizatório. Pouco importa as conquistas desse processo…

Ele destrói toda possibilidade de transcendência na qual uma moralidade se apoie. Como mostra Merquior, isso vai se refletir na arte. O que vemos hoje, nas mais variadas apologias aos mais variados crimes, nada mais seria que essa “libertação”.

Como explica Merquior, “desde a Revolução Francesa, nós nos habituamos à ideia da atitude de crítica social. Naturalmente, a humanidade sempre conheceu a experiência de repor em questão o tipo de sociedade em vigor e, até mesmo, a consciência teórica desse fenômeno; porém, dos meados do século XVIII para cá, a teoria crítica da sociedade se tornou incomparavelmente mais explícita e mais constante. A presença da aliança entre o impulso de conhecer a sociedade e a aspiração a transformá-la passou a ser uma característica da cultura moderna”.

O que Merquior expõe é o pensamento de Jean Jaques Rousseau, por exemplo. Eis ali, no homem que abandonou os cinco filhos em um orfanato, a busca pelo “novo homem” com uma fé assustadora na política como agente de transformação de uma sociedade e de sua moral. O pensador brasileiro Merquior vai além e mostra que, com o tempo, se percebeu que há pontos independentes da organização social e da economia nesse processo civilizatório; que estes não seriam a infraestrutura a ser modificada para se atingir um novo tempo, um paraíso na terra, ou uma nova geração a partir de “uma folha em branco”.

Neste ponto, Merquior coloca que os pensadores da “transformação social” se ativeram a outros aspectos que receberam “a vaga qualificação de culturais”: “a religião, a arte, alguns aspectos da vida política, os costumes menos restritos a certas camadas sociais, a linguagem em geral, os elementos de visão do mundo e as práticas partilhadas em média pelo conjunto dos membros da sociedade integram essa área que a sociologia, a psicologia social, a antropologia e a crítica reivindicam, alternadamente, para sua respectiva consideração”.

Colocam o homem no que Viktor Frankl chamou de “hiato ontológico”, amputando a transcendência e resumindo tudo ao psicossocial e o biológico. (Aconselho que o leitor busque sobre esse conceito e o que Frankl fala sobre o instinto e o espírito, ao considerar o homem uma totalidade trinária e tridimensional, com expressão biológica, espiritual e psicológica. Como base nisso, ele desenvolveu a Logoterapia).

É aí que entram os engenheiros-sociais dos quais Thomas Sowell fala e que, como demonstra em Conflito de Visões, se sentem – por meio de uma razão articulada – os iluminados de uma visão irrestrita e com a fórmula para um mundo melhor.

Assim, se dedicam dia e noite, por meio da atividade política-ideológica, a produzir esse mundo por meio da subversão de valores, nos diversos campos da “vaga qualificação” de elementos culturais. Razão pela qual a “intelectualidade orgânica” a serviço dessa “transformação” se infiltra nas artes, nas religiões e nos demais ambientes de cultura para, por meio de um discurso homogêneo, produzir este “novo homem” que já era tão sonhado por Rousseau, por exemplo.

“Frequentemente, as análises da cultura moderna modificam algumas ideias tradicionais da crítica social – especialmente em sua variante marxista – problematizando, de maneira aguda, certas fórmulas da reconstrução social. Como qualquer ideologia atuante, o marxismo pode assimilar ou rejeitar essas contribuições, mas é lógico que a assimilação implica uma cadeia de revisões de consequências difíceis de antecipar, a não ser uma: a metamorfose do marxismo clássico, ainda que refinado, num novo tipo de teoria crítica da sociedade – e, muito possivelmente, uma nova concepção do esforço prático de renovação social”, diz Merquior. Em outras palavras, sempre no final das contas será a produção de uma ideologia para a transformação da sociedade conforme pensado em gabinetes e em nome do mundo melhor.

Marcuse foi um agente disso. Por essa razão, Merquior sentencia que, na época em que escreveu a obra, “Marcuse é (era) o nome da moda, o profeta, mais citado do que lido, dos simpatizantes entusiásticos das revoluções culturais”. Se lido, já é complicada a crença de que um homem tenha em sua mente o plano perfeito para uma sociedade após ter acreditado compreender por completo as razões de nossas virtudes, moralidade, tragédias e defeitos; imagine se não lido e simplesmente interpretado de maneira superficial e diluída ao passar do tempo, para que seja feito o uso dessas ideias como bem entendam os “engenheiros-sociais”.

Obviamente que qualquer um que tenha crenças religiosas, que apoie essa moralidade em uma visão transcendente ou que enxergue a verdade como no Cristianismo se enxerga, é um elemento a ser combatido. Logo, um extremista a querer oprimir os outros. Dentro dessa visão, até Sócrates (nos diálogos platônicos), ao buscar a concepção de Justiça e Bem seria um “fascista”, pelo simples método de investigação filosófica da busca pela verdade e sem a intenção da “transformação social”.

E o que dizer da concepção de Bem e Mal de Santo Agostinho? Ou as cinco vias de Santo Tomás de Aquino? Como escreve Carmela Werner Ferreira ao falar de Aquino, “a busca da verdade é tão antiga quanto o próprio homem, e não há um só entre os seres racionais que não deseje possuí-la. Por outro lado, a privação desse excelente bem acaba dando à coletividade humana uma face desfigurada, que se explica pela adesão a falsas doutrinas ou a meias verdades. Nossa sociedade ocidental é um exemplo dessa profunda carência que não encontra nos avanços da técnica nem na fugacidade dos vícios uma resposta satisfatória”.

Claro!

Pois, antes mesmo do compromisso com compreender a verdade e o que é o homem dentro desse Logos para o qual nossa visão é restrita, determinados pensadores materialistas já querem, por se sentirem entendedores do todo, transformar tudo e subverter tudo em nome de uma suposta liberdade na qual você não é livre para discordar deles.

Corção chamava muita atenção para o tomismo e suas lições na busca pela verdade. É um brasileiro essencial ao nosso tempo. Nessa caminhada, dizia que entre o pássaro e a lesma caminha o homem, diante do que pode o fazer voar ou se arrastar sendo guiado apenas por seus instintos mais primitivos e necessidades mais básicas, abandonando por completo uma vida intelectual, ainda que ache que está evoluindo.

Razão pela qual também Corção afirma que “o fato de um milhão de pessoas participarem dos mesmos vícios não os transforma em virtudes”. A meu ver, a consequência dessa revolução cultural é afastar o homem do que o eleva, encarando, muitas vezes, versões animalescas que só seguem instintos, desfazendo o sentido do amor ao próximo, do respeito ao humano pelo simples fato do outro ser um humano igual a mim nas fraquezas e virtudes, enfim…

Como desprezar o que Gustavo Corção diz em O Desconcerto do Mundo? Eis: “Com já tive a ocasião de salientar mais de uma vez, tenho a convicção de que a arte, se lhe tiram o sentido, a dimensão escatológica, deixa de ser o que é, perde-se, desmancha-se. Os artistas estão aqui, neste mundo obscuro e bastante desconcertado para mostrar aos homens os preparativos de uma festa a que todos estão convidados. O trabalho deles, dentro de tal concepção, é como as estrelas que brilham sem vencer a escuridão da noite. Estamos aqui no mundo, não apenas vendo sombras, como disse Platão, mas vendo lampejos, como disse o Apóstolo Paulo. E é nesse sentido mais alto que agora coloco o esforço de tornar visível o que está escondido no âmago das coisas: os poetas, os escritores como Eça, são semeadores de estrelas em nosso caminho escuro; e nisto, queiram ou não queiram, sejam liberais ou anti-clericais de um modo mais ou menos pueril, como nosso excelente português, estarão sempre a serviço de Deus. Canta a Igreja, na Quinta-Feira Santa, durante o Lava-pés, a antífona tirada do Evangelho de São João: Ubi caritas, et amor, Deus ib est. Ora, o que o Evangelista disse do amor, creio que se possa analogamente dizer da beleza. Onde estiver algumas cintilações da beleza, aí Deus está.”

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