Efeito Copycat e a escalada da violência no processo eleitoral e político



Nos Estados Unidos, estuda-se o efeito de imitação (copycat effect) nos tiroteios com múltiplas vítimas (mass shootings), crimes infelizmente comuns naquele país.

Percebe-se, nos Estados Unidos, que uma das causas prováveis da repetição desses incidentes é a busca de notoriedade pelos criminosos, que imitam atentados na esperança de alcançarem igual popularidade, em vista da intensa repercussão que a mídia para esses eventos.

Parece-me que no Brasil passamos pelo mesmo problema nesse processo eleitoral que passou, e tudo indica que teremos pela frente o mesmo fenômeno durante o governo Bolsonaro. Ou seja, pessoas imitam atos de violência para alcançarem notoriedade dentro do seu grupo político e até mesmo fora dele.

Dizendo de outro modo, estamos passando por mais do que uma “polarização” ou “radicalização”. Está em curso um efeito de imitação que precisa ser interrompido, e que tem como origem 3 (três) espécies de “agentes” propagadores de notícias:

1) “divulgadores não-esclarecidos”, que não têm consciência dos efeitos graves que a divulgação de notícias violentas pode causar;

2) “impulsionadores de notícias sensacionalistas”, que divulgam as tragédias conscientemente, para alcançarem ampla repercussão; e

3) “agitadores conscientes”, que agem propositalmente, incitando a violência na tentativa de mutiplicar o impulso agressivo em “militantes” psicóticos ou doentes mentais, tirando proveito político do enfrentamento físico ou buscando intimidar adversários.

No primeiro caso, o debate público que evidencie os perigos da divulgação inconsequente é suficiente para corrigir o comportamento dos agentes envolvidos. E, no segundo caso, basta a supervisão das autoridades competentes, das plataformas de redes sociais e dos órgãos reguladores da imprensa para que a prática seja contida. O problema mais grave está no terceiro caso, dos “agitadores conscientes”, e é sobre eles que vamos falar agora.

Como estamos falando do processo eleitoral e dos seus desdobramentos, é natural situarmos os “agitadores conscientes” dentro dos partidos políticos ou prestando serviços para partidos políticos. Os “militantes”, por sua vez, que são impulsionados pelos “agitadores conscientes”, atuam nas redes sociais ou mesmo dentro de qualquer agrupamento social formal (sindicatos, universidades públicas, torcidas organizadas) ou informal (movimentos sociais, black blocks, coletivos radicalizados), mas sempre a serviço de partidos políticos, consciente ou inconscientemente.

O mecanismo utilizado pelos “agitadores conscientes” é simples, e tão velho quanto a Revolução Francesa (1789): incitar o medo e a raiva na “militância” (que é formada pelo eleitorado formal, no caso dos filiados; e pelo eleitorado informal, no caso dos simpatizantes), incitando-a contra seus inimigos políticos, o que se faz com estes passos:

– o partido político incorpora no vocabulário da sua militância palavras demonizadas, que denotam alto grau de violência, para usá-las como xingamento contra seus adversários políticos (fascista, nazista, homofóbico, machista, conservador, etc), até mesmo em hipóteses que passam longe da gravidade que possui o sentido original dessas palavras tradicionalmente;

– líderes políticos iniciam, em locais públicos e na presença da imprensa, discussões sobre temas polêmicos, fazendo isso para alcançarem o prêmio maior: fabricarem comoção que leve a um conflito público com seus adversários políticos, de forma que disso resultem respostas verbais ou comportamentos agressivos;

– escolhido o inimigo publicamente, os líderes políticos passam repetidamente a xingar esse adversário usando as palavras demonizadas, o que desperta automaticamente e desproporcionalmente a ira da militância contra esse inimigo.

Pronto, a espiral do ódio está criada. Agora é só sentar e esperar os atos de violência, pois a militância já estará, nessa altura dos acontecimentos, programada e preparada para agir agressivamente contra o inimigo político e seus aliados.

Faltará apenas um gatilho: quando o primeiro agressor tomar coragem e executar um ato de agressão, o efeito de imitação irá se propagar das mais variadas formas e até mesmo sem contar com um centro aparente de coordenação desses atos.

Esse programa de disseminação do ódio foi e vem sendo adotado sistematicamente contra Trump e Bolsonaro. Justamente eles, que são acusados pelos próprios “agitadores conscientes” de propagarem o ódio, vejam vocês – o que se faz propositalmente, como método para apagar os rastros desse processo de fabricação de delinquentes. Durante a eleição, por exemplo, xingaram, absurdamente, o General Mourão de torturador e o empresário Luciano Hang (Havan) de nazista, atitudes inconsequentes que tinham claramente o potencial de gerar e de propagar violência.

Nas eleições que passaram, o resultado desses atos conscientes de programação da violência ficou evidente, sendo que todos esses atos tinham o candidato Bolsonaro e seus seguidores como vítimas. Vimos agressões verbais nas redes sociais e agressões físicas pelas ruas contra os apoiadores de Bolsonaro, pichações de suásticas para incriminar sua campanha e histeria até mesmo na mídia tradicional e nos meios intelectualizados.

A questão é que todas as vezes que um “incidente de violência” é amplamente propagado pela internet ou mesmo pela mídia tradicional o efeito de imitação é disparado. E esse efeito propagador deve ser controlado não somente com o uso de repressão policial e judicial contra os agitadores conscientes, mas também com a prática da “moderação na divulgação dos incidentes de violência”.

Entenda-se como “moderação” algumas práticas simples como estas:

– divulgar o “incidente de violência” genericamente e uma só vez, no dia da ocorrência, com relatos moderados e com uma única menção aos nomes dos envolvidos;

– não publicar a imagem tanto das vítimas, quanto dos agressores (no caso dos agressores, divulgar nomes e imagens apenas se estiverem foragidos);

– não divulgar imagens relativas aos incidentes, como ferimentos, sangue, marcas de tiros e armas do crime, nem detalhes dos meios e dos procedimentos utilizados;

– não divulgar relatos do incidente (nem os que sejam feitos pelas vítimas, nem os que sejam feitos pelos agressores, assim como relatos de testemunhas ou conhecidos e parentes das vítimas);

– dar destaque aos atos de heroísmo que evitaram o agravamento da ocorrência e ao trabalho das forças policiais, fazendo superficial menção aos atos dos agressores;

– caso um dia haja comprovação de “comunicação falsa de crime”, divulgar o resultado das investigações com destaque para as consequências do processo-crime contra o acusado.

Foi um erro crasso terem divulgado e dado destaque repetitivo às imagens daquela automutilação com suástica, das pichações de suásticas em igrejas, das brigas de rua, do evento que resultou na morte do capoeirista, da facada no Bolsonaro, do nome e da imagem do Adélio Bispo de Oliveira e até mesmo das imagens de discussões do Bolsonaro que já estão sob atenção da Justiça.

Há estudos no exterior sobre esse tema, que devemos analisar aqui no Brasil no contexto eleitoral e político. Isso porque já temos, por aqui, “agentes conscientes” muito experientes na matéria, que se não forem controlados, continuarão agindo livremente, de modo a intoxicar o ambiente público no país.

Autor: Alexandre Pacheco é Advogado, Professor de Direito Empresarial e Tributário e Doutorando/Mestre em Direito pela PUC. Twitter: @alexsanspacheco

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

3 Comentários

Clique aqui para comentar

  • EXCELENTE artigo.
    A incitação consciente ao crime tem um passado glorioso no brasil.
    Empurrar lunáticos e imbecis para a prática de crimes contra adversários é algo antigo.
    .
    Acredito que foi ainda nos anos 80 que sindicalistas atiçaram manifestantes contras soldados do exército que davam segurança à Siderúrgica CSN.
    Os covardes imbecis acreditaram nos sindicalistas e que não seriam revidados. Logicamente que os soldados ao verem a massa indo em sua direção, atiraram. Houve mortos e a esquerda CONSEGUIU CADÁVERES para se enaltecer e acusar os “ditadores de direita”.
    .
    No Eldorado Carajás (acho que é isso) os líderes do MST insuflaram aquela massa BESTIALIZADA pela IMPUNIDADE a atacar os policiais. Os policiais se viram forçados a atirar para salvarem a propria vida. Já que o MST comumente cometia, e creio que ainda cometa, assassinatos. Inclusive de um policial no RS, se não me engano. A esquerda se lambuzou nos cadáveres do MST e se enalteceu como vítima.
    .
    A justificação de Adélio e mesmo a glorificação deste, por parte de petistas e assemelhados, sobretudo Dilma e jornalistas, certamente foi CONSCIENTE.
    .
    A estratégia de “INVENTAR INIMIGOS PARA CONQUISTAR AMIGOS” é antiga: afirma-se que o adversário é um inimigo de um grupo e se apresenta como combatente a esse “inimigo” como prova de amizade ao grupo: É A “FALACIA do BINÁRIO” ou “sou seu amigo porque sou inimigo do seu inimigo”.

    A política é asqueros enquanto busca do Poder.

  • As pessoas de esquerda são aliciadas dentre os recalcados ou que possuem grandes ambições em contraste com o potencial individual.
    Trata-se de complexo de inferioridade devido o que idealizam para si e a capacidade que possuem. Boa parte também é arrebanhada dentre os inseguros, receosos do fracasso e que por tal querem que o Estado garanta que não serão menosprezados devido o fracasso. Todos temem a Liberdade e a responsabilidade que essa exige. Estes que se querem grandiosos geralmente são inseguros que sonham alto para compensar a própria realidade frustrante. A vaidade destes é exarcebada exatamente pelo que julgam de si: quanto mais se acham inferiores, mais desenvolvem sonhos altos, onde serão líderes ou heróis que defendem fracos e oprimidos. Essa vontade de se ostentar grandioso é a forma de compensar a pequenez que acreditam em si. É a “lei da compensação”.
    .
    Assim, estes tipos atormentados por medo do fracasso e medo de serem desprezados ante a ostentação dos que fazem sucesso, os leva a desenvolver a inveja e com ela os desejos de grandeza para serem comparados aos demais com vantagem.
    Por isso é tão fácil para a esquerda aliciar “heróis” INSUFLANDO COMPARAÇÕES DEPRECIATIVAS acusando o “antagônico” de ser o culpado. Afinal o que um recalcado e invejoso mais deseja é SER CONVENCIDO de que NÃO É e nem SERÁ o CULPADO de seu fracasso.
    Trata-se do jodo do VITIMISMO e COITADISMO. Onde a vítima não é responsável de sua condição penosa. E o melhor é que poderá se fazer “heróica” ou “superior” caso cometa ações arriscadas contra os “vilões”.

    Enfim, são exatamente os que se sentem inferiores os que mais desejam ostentar superioridade. É por isso que os SUPREMACISMOS onseguem aliciar tantos adeptos.

    A esquerda apela para as afirmações de “SUPERIORIDADE MORAL” e assim afirma que:

    “os professores xercem atividade superior e não são reconhecidos”
    …isso é como “mel na chupeta” para professores que se frustram ao saber que seus alunos (posição inferior) poderão um dia ter grande sucesso e ostentarem condição superior a deles. Isso atiça ressentimento, inveja e ódio ao sistema que “permite” que um “reles aluno, possa ostentar uma injusta superioridade material a seu professor”.

    Esse discurso sobre “SUPREMACISMO PROFISSIONAL” fanatizou professores, sobretudo os mais VAIDOSOS , com sonhos de grandeza para compensar a realidade em si percebida.
    Há vários SUPREMACISMOS MORAIS preconizados pela esquerda, como o supremacismo dos pobres, dos assalariados, das mulheres, dos gays e que tais.
    Sempre apontando-os COMO VÍTIMAS da “INJUSTIÇA” dos MALVADOS que a eles se “antagonizam”. Sendo que as “vitimas” sempre serão moralmente superiores a seus “algozes”, os “coitadinhos” são sempre moralmente superiores aos “malvadões”.
    Então é o “SISTEMA CAPITALISTA” que permite “tanta injustiça”.

  • Excelente o texto!

    Parabens ao Terça Livre por dar a devida atenção a este tema, algo raro no meio jornalístico hoje.

    Este assunto me lembra muito a obra niponica Ghost in the Shell.

    Acho o termo Copycat meio ridículo, prefiro Stand Alone Complex.

    “The Standalone complex is a phenomenon where unrelated individuals act in a similar manner which creates an appearance of a concerted effort. As in someone mentions something or does something that attracts the attention of others.”

    Segundo entendi da explicação do termo copycat acima, a explicação é muito especulativa das intenções de quem pratica e não define tão bem o fato intrínseco que é ‘atrair a atenção de outros por algum motivo específico’. Induzindo a confusão da maioria, algo que a serie animada Ghost in the Shell mostra muito bem.

Colunistas

Juliana GurgelJuliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

Paulo FernandoPaulo Fernando

Advogado, professor de Direito Constitucional e Eleitoral para concu...

Polibio BragaPolibio Braga

Políbio Braga é um jornalista e escritor brasileiro. Nascido em S...