Estadão não sabe gramática?



O leitor do Terça Livre tem acompanhado a repercussão da denúncia do jornalista belga Jawad Rhalib acerca do curioso comportamento da jornalista Constança Rezende, do Estadão (que, em seu perfil pessoal na rede, houve por bem esclarecer que “não lacro no Twitter”). Entre os muitos aspectos insólitos dessa história — e há bastantes, a começar pela percepção que Constança Rezende parece fazer da serventia de seu próprio trabalho —, um que não é menor é a sólida unanimidade que se formou, entre os órgãos da extrema imprensa, sobre a credibilidade da denúncia.

Após uma leitura superficial dos jornalões do establishment, o incauto que queira informar-se a respeito sairá com a impressão de que os áudios em si são falsos — materialmente falsos. É o que se depreende da afirmação do Mediapart de que “as informações publicadas no ‘club de Mediapart’, que serviram de base para o tweet de @jairbolsonaro, são falsas”. Prontamente, a imprensa cabocla deu à declaração, questionabilíssima, o spin desejado para produzir por aqui o efeito que melhor conviesse ao instinto de preservação da classe: tudo não passa de fake news.

Somente quem leu com lupa o noticiário a respeito, contrastando-o com a fonte original, terá entendido que a controvérsia que há diz respeito apenas ao sentido e alcance das declarações de Constança Rezende, não à sua autoria. E, tendo esmiuçado o assunto, talvez tenha entendido que a questão aqui é semântica.

Dentre as muitas matérias a esse respeito, a do próprio Estadão (11/03/2019) é típica. O empregador de Constança afirma que Rhalib “escreve que, na gravação, a repórter teria revelado que ‘a verdadeira motivação por trás da cobertura negativa da mídia é a de ‘arruinar’ o presidente Jair Bolsonaro e causar sua demissão” (sic). “A transcrição da ‘entrevista’, no entanto” — prossegue o Estadão, por sua conta e risco — “não corrobora essa versão.”

Para ser minimamente sério, o Estadão e seus companheiros de viagem deveriam, no mínimo, submeter as palavras de Constança Rezende a um exercício de análise sintática. O trecho relevante é o seguinte:

We are doing only this case… I think my life is destroyed (laughter) … I only do that — I think one… thir… third days (sic) doing only this case — because, erm, this case can compromated (sic), [it] can arruin (sic) Bolsonaro.

Admitamos que é difícil extrair o sentido exato dessa e das demais declarações de Constança Rezende, devido ao domínio precário que a repórter tem da língua inglesa. Passando ao largo das dificuldades de expressão e do vocabulário inovador, e atentando-se exclusivamente ao que Constança aparentemente quis manifestar, a seguinte tradução é tão válida quanto as que por aí andam:

Estamos trabalhando apenas neste caso… Acho que a minha vida está destruída (risos)… Trabalho só neste [caso] — acho que estou há trinta dias trabalhando apenas neste caso — porque este caso pode comprometer, pode arruinar Bolsonaro.

Vamos, portanto, à análise sintática. Cortemos do trecho as duas orações intercaladas que, a rigor, não ajudam a completar um período composto, e ali estão apenas para oferecer um mínimo de contexto para o que se quer expressar. Reduzido ao que tem de essencial, o cerne do pronunciamento de Constança está reduzido a um período simples e um período composto por coordenação:

Estamos trabalhando apenas neste caso. Trabalho só neste porque este caso pode comprometer, pode arruinar Bolsonaro.

E a chave para entender o segundo período, o mais importante, está justamente na conjunção porque. Para quem se recorda das aulas de análise sintática no segundo grau, porque é uma conjunção coordenativa explicativa. Está ali justamente para delimitar a razão da afirmação precedente: Constança trabalha apenas naquele caso, e não em outros, porque é aquele caso o que pode arruinar Jair Bolsonaro.

O Estadão pode tergiversar o quanto quiser. Poderia até afirmar, se respeitasse um pouquinho mais a inteligência de seus leitores, que tamanha concentração de esforços numa única história é perfeitamente razoável dado o interesse jornalístico intrínseco da história. Mas não pode, sem cair no ridículo, afirmar que esse trecho, coroado com uma conjunção explicativa, não expressa motivação de parte da jornalista ou do jornal.

Sobre o Colunista

Allan Dos Santos

Allan Dos Santos

Pai, empresário, jornalista e apresentador do Boletim da Manhã no canal Terça Livre TV.

23 Comentários

Clique aqui para comentar

  • Por isso esses jornalecos tem medo de vocês.
    Informação séria e verdadeira leva ao ápice.
    Parabéns TL
    Parabéns Allan

  • Esse trecho do “because” é auto explicativo. Ela fala explicitamente que só trabalha no caso porque quer arruinar Bolsonaro. Ponto. Mas ainda que não dissesse, todos nós já sabíamos disso. Apenas tivemos uma confissão.

  • Nem parece o mesmo Terça Livre que separa sujeito do predicado com vírgula! De todo modo, nem precisaria um textão tão grande para explicar o indefensável Estadinho! A grande mídia é corrompida, está a serviço da lacraçao e because o que importa, é o because! 😉

  • I love this channel. kkkkkk se meu ‘ingrês’ estiver errado,desculpem-me, o ensino público é uma shit, because(quase) nada público presta.

  • Detalhe, são aproximadamente mais de 20 investigados com montantes, muito, mas muito superiores ao Tal “Q.Q”, mas é somente neste último que as notícias correm, se apressam e irrevogavelmente se esforçam em publicizar, ainda que a investigação seja apenas isso, investigação e não condenação por fato comprovadamente criminoso, por isso as movimentações continuam sendo atípicas e não ilícitas. Como diria o poeta, “mais vale 600 mil movimentados, que 10 milhões, se o partido que o fez não é da patota”.

  • Manda o link do artigo para o Caio Copola, Felipe Moura Brasil e Alexandre Garcia.
    Tenho os três em mais alta conta, mas pisaram feio na jaca quando se posicionaram a favor da “jornali-shit-inha” do Estadinho.

  • Perfeito Terça Livre!!! Ainda a inteligência e coerência no jornalismo brasileiro.

    Shame on you rotten media!

  • Tá certo ela quer destruir Bolsonaro, ela não gosta dele, como 89 milhões de eleitores, a maioria do povo brasileiro. Mas, o que foi investigado e apresentado por ela perde o Valor? Um delegado não gosta dos assassinos de Suzano e aí? Não serve? Isso não é uma cortina de fumaça para o mais evidente: Pegaram a famiglia Bolsonaro de calças curtas com envolvimento com o crime organizado? Batemos no mensageiro que disse a verdade e que luta contra o sistema atual? Não fez assim o Olavo? Complicado, não podemos ter bandido de estimação. Foi uma falha do terça livre, acontece, pode não ter sido de má fé, mas, acontece.

  • Perfeito Terça Livre!!! Ainda há inteligência e coerência no jornalismo brasileiro.

    Shame on you rotten media!

  • Artur

    “ela não gosta dele, como 89 milhões de eleitores, a maioria do povo brasileiro.”

    A maioria do povo brasileiro não gosta, não aguenta e não atura mais é essa esquerda nojenta, podre e falida como toda ideologia marxista. Acabaram com o Brasil e ainda acham que tem moral para falar alguma coisa. Canalhas, ladrões e hipócritas!

    Volta pra escola por que esssa conta não fecha. Esquerdista não cansa de passar vergonha.

    “O Lula tá preso babaca!”

  • Pois é Luciano Sc quem está no Governo é ´Bolsonaro, esqueça Lula, ele tá preso e vai morrer lá. Mas, e o restante do tema? E as questões do envolvimento com o crime organizado que está sendo investigado no novel governo? Será que o Mourão vai receber no colo o governo? Vai dizer que é gopi? A foto dele (Mourão) estava na urna. O caso do Estadão, o Copolla, o Moura Brasil e tantos outros já disseram foi fake do terça livre reclama com eles. Batemos no mensageiro e esquecemos da mensagem?

  • A matéria é tremendamente reveladora mas foi neutralizada com o uso da velha tática esquerdista : atacar sem tréguas, valorizando questões secundárias, obrigando o adversário a se manter “nas cordas”, apenas se defendendo. A conclusão do autor da materia de que “Ao final, saiu com um registro que desenha um quadro catastrófico entre os meios de comunicação brasileiros e instituições governamentais (como o COAF)” – um diagnóstico desmoralizante da mídia brasileira – é o que na verdade importa mas infelizmente se perdeu em questões domésticas.

  • A esquerda mede nossa inteligência com a (curta) régua deles e acreditam que, falando mil x uma m…, essa m… se tornara ouro, kkkkkk…

  • Pra quê gramática num país onde o Ministro (sic) da Educação (sic) não sabe escrever nem fazer contas?

Blog Authors

Guilherme Galvão VillaniGuilherme Galvão Villani

Mariliense. Gosto pela Administração, Contabilidade e Finanças. Atu...

Juliana GurgelJuliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

Paulo FernandoPaulo Fernando

Advogado, professor de Direito Constitucional e Eleitoral para concu...

Polibio BragaPolibio Braga

Políbio Braga é um jornalista e escritor brasileiro. Nascido em S...