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Fatos e Ideologia I

Por Italo Lorenzon

Imaginem o seguinte: a moça não quer mais se depilar e descobre que existe um movimento inteiro dedicado à tão excelsa motivação. Ou seja, quer algo e encontra um grupo que lhe fornece exatamente o que quer. Quantos livros da Regine Pernoud ela deve ler antes de se livrar dessa bobagem? De que adianta desmentir os mitos sobre o “machismo da Idade Média” se esses mitos não se encontram nem na base da sua adesão ao movimento nem nos efeitos pretendidos (e alcançados)?

Vamos do princípio. O que é uma ideologia?

Dizer que ideologia é apenas um conjunto de idéias é uma tautologia, não diz nada com nada. Ir mais além e definir uma ideologia como loucura política é incompleto, pra dizer o mínimo. Quantos ditadores genocidas foram realmente loucos (psicopatia é um distúrbio de personalidade mas não é uma “loucura” strictu sensu)? Nenhum?

E ainda que o comportamento militante nos pareça errático como o de um esquizofrênico, qual componente permite à uma ideologia induzir ao delírio pessoas aparentemente normais? Só posso concluir que ideologia é loucura mas apenas em sentido análogo, ou seja, que a ideologia guarda com a loucura semelhanças e diferenças. Ambas são, sem dúvida, um tipo de “falsa consciência”. Uma deformação da realidade que afeta a capacidade cognitiva dos indivíduos e impede nesses a apreensão dos fatos em sua forma, extensão e finalidade.

Mas as semelhanças terminam por aí. Enquanto a loucura é uma falsa consciência que debilita o sujeito em suas tarefas diárias e na persecução dos seus objetivos, a ideologia é extremamente funcional. Peguem o exemplo que dei. Que diferença faz se o próprio modus pensandi da ideologia feminista é irracional? Se a compreensão histórica da situação da mulher indo da opressão machista à emancipação feminista não resiste à mais elementar averiguação? E se a noção mesma de “opressão estrutural” depende de estereótipos toscos? Pensem um instante. Numa sociedade onde rios de dinheiro são gastos em bolsas de estudo e pesquisa em Universidades federais falando de “papeis de gênero”. Onde a idéia de “cota feminina” em cargos eletivos é levada a sério. E onde praticamente todo o establishment cultural e midiático ovaciona essas pessoas por sua “coragem”. A ideologia promete “empoderamento” e poder é exatamente o que a ideologia entrega.

Claro que poder somente às iluminadas do movimento. A imensa massa de mulheres continua suando a camisa e o salto alto para trabalharem em dupla jornada.

Indo além, a idéia mesma de que socialismo não funciona exige a pergunta: não funciona para quem? Para a imensa maioria dos políticos incuráveis, grevistas de carreira e professores semi-letrados, o socialismo vai muito bem obrigado. Ou será que falta papel higiênico nas casas de Nicolás Maduro e seu entorno? A divisão de tarefas no interior do movimento revolucionário é tão implacável quanto natural: o psicopata, com sua mendacidade típica, ocupa o topo da pirâmide de onde alimenta a base com os pretextos ideológicos do seu movimento. E os militantes, reduzidos à massa de histéricos pela própria ideologia, acolhem tudo quanto é explicação “ad hoc” que lhes alimente o senso de pertencimento, a identidade de vítimas e crente de que, quando vencidas as “forças da opressão”, os últimos serão exautados.

É evidente, entretanto, que uma hora o caldo entorna e se não conseguirem encontrar um equilíbrio entre a escassez do bem chamado “poder” e as demandas da base militante, os líderes do movimento se vêem acusados de “traidores do movimento”. Note-se, entretanto, que as críticas são direcionadas aos líderes e jamais ao próprio movimento. A eficiência prática da ideologia já está provada naquilo que interessa: a capacidade de elevar coitadinhos à condição de líderes supremos. Então, por que não repetir o processo?

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