Grupo antissemita ameaça e Universidade de Pernambuco cancela evento

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A Universidade de Pernambuco (UPE) cancelou hoje (21/8), um evento sobre questões de paz entre israelenses e palestinos no Oriente Médio, por “motivos de força maior“. A instituição teria recebido ameaças de um grupo muçulmano e pró-Palestina.

O evento seria realizado amanhã (22/8) sob o título “Dilemas no processo de paz entre Israelenses e Palestinos“, na universidade, com palestra do cientista político judeu, André Lajst, diretor executivo da StandWithUs Brasil, uma organização educacional.

Karl Schurster, assistente internacional da universidade estadual e moderador do debate, teria recebido ameaças desde as 8h00 por telefone da Associação Pró-Palestina e Muçulmana de Recife, contra ele, o palestrante judeu e a universidade.

Pessoal, um desabafo.

Na próxima quinta haveria uma palestra na UPE sobre os dilemas no processo de paz no oriente médio. Estava vindo um professor brasileiro-israelense trazido pela associação israelita de Pernambuco. Me procuraram para moderar a palestra que seria realizada em nosso auditório. Fizemos divulgação e tudo que vocês já conhecem.

Pois bem, hoje final do dia tive que cancelar o evento por motivo de segurança. Desde as 8hs da manhã a Associação pro Palestina e mulçumana de Recife (nem sabia que isso existia) me telefonou de forma dura e grosseira ameaçando a mim, ao palestrante e a universidade.“, escreveu Schurster.

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As 7 horas da manhã de ontem (20/8), a Aliança Palestina – Recife publicou uma nota na página oficial de grupo no Facebook repudiando a realização do evento pela universidade, sob a alegação de que a palestra não contaria com um representante dos interesses palestinos e cobrando que a universidade adote uma postura contra o governo Bolsonaro.

Nota de Repúdio

Causa-nos bastante estranheza e perplexidade o fato de a Universidade de Pernambuco (UPE), um ambiente que a princípio deveria servir de espaço para o debate democrático das ideias e para a pluralidade de opiniões, promover palestra sobre “os dilemas no processo de paz entre israelenses e palestinos” e anunciar como palestrante único um representante do movimento sionista que notadamente manifesta posições radicias e extremistas sobre o assunto, que nada contribuem para os avanços no processo de paz no Oriente Médio.

Preocupa-nos ainda esse tipo de postura no momento atual, uma vez que as universidades – e a educação pública de uma maneira geral – se encontram sob fortes ataques do governo federal, com cortes orçamentários em diversos segmentos e a já anunciada suspensão do pagamento das bolsas do CNPQ.

Num momento tão delicado como esse a universidade tem a obrigação de servir como pólo de irradiação de valores democráticos e como palco de resistência ao projeto de sucateamento do ensino público, universal e gratuito.

Ademais, tratando especificamente da Questão Palestina, debater tema tão complexo sem a perspectiva de se ouvir os dois lados interessados, contribui-se para o açodamento das relações e, sobretudo, para a perpetuação da visão hegemônica sionista.

Nesse sentido, a Aliança Palestina Recife manifesta preocupação com tal postura e repudia a promoção desse evento em ambiente acadêmico onde deveria prevalecer o pensamento crítico, a liberdade de expressão e a diversidade de opiniões.


O palestrante da StandWithUs Brasil, André Lajst, respondeu a nota em vídeo no perfil oficial dele no Facebook, convidando-os ao evento e propondo debate, além de rechaçar as acusações feitas contra ele.

Confira

No perfil dele no Facebook, o cientista político escreveu um desabafo acusando a universidade de censura e pontuando uma postura covarde diante do patrulhamento de grupos extremistas que teriam se servido de chantagens.

Confira a nota na íntegra

Desabafo sobre o patrulhamento na Universidade de Pernambuco (PE):

Meu nome é André Lajst, neto de Chaim Lajst, sobrevivente do Holocausto. Meus bisavós, tio-avós e outros parentes foram assassinados pelo maior genocídio da história da humanidade. Diante do mais recente evento de censura sofrido por mim, não vejo outra alternativa, senão compartilhar esta nota:

Estava prevista para esta quinta-feira, dia 22 de agosto, a palestra “Os dilemas no processo de paz entre israelenses e palestinos”, a ser ministrada por mim. Há um mês o evento estava agendado e anunciado, os materiais impressos a serem distribuídos para os alunos foram enviados com grande antecedência a Recife e todas as providências ligadas ao meu deslocamento até a cidade já haviam sido tomadas. Apesar do acordo com a universidade e do empenho da StandWithUs Brasil em oferecer o melhor evento possível aos alunos da instituição, a reitoria cancelou a palestra, cedendo aos apelos de grupos radicais.

Sou cientista político, doutorando na história do processo de paz e no conflito palestino israelense pela universidade de Córdoba, na Espanha e já palestrei sobre esse tema mais de 500 vezes em diversos estados brasileiros.

Milhares de alunos universitários e do ensino médio,público e privado, assistiram minhas aulas sobre temas relacionados ao Oriente Médio. Jamais fui acusado de racismo, preconceito, radicalização ou apologia ao crime ou ações contra civis. Ao contrário, sou uma pessoa que, pela minha formação e histórico familiar, acredita na ciência da política, da diplomacia e das negociações para atingir a paz, no Oriente Médio e em qualquer lugar do mundo.

Frequentemente eu e os outros membros da StandWithUs Brasil enfrentamos uma enorme dificuldade em articular palestras e seminários em universidades estaduais e federais no Brasil. Diferentemente das universidades privadas, que buscam ativamente por nosso conteúdo, as Universidades públicas possuem um muro de resistência.

Em alguns casos, por ignorância dos tomadores de decisão. Eles têm medo da militância extremista de alguns estudantes dentro da universidade, que tudo podem e tudo fazem para impedir a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias. Em outro casos, é antissemitismo ou judeofobia traduzida como preconceito contra Israel, o movimento nacional judaico, o sionismo, este, frequentemente deturpado em algo que não é, afim de deslegitima-lo.

O cancelamento da minha palestra na Universidade de Pernambuco me assusta e me preocupa, pois, como brasileiro, desejo que a educação no meu país seja sempre a melhor possível. Após termos visto a nota de repúdio da Aliança Palestina – Recife, que não é uma organização formal e nem representa os palestinos no Brasil, segundo eles mesmo, fizemos o contrário que normalmente as organizações palestinas no Brasil fazem: abrimos o nosso evento acadêmico para a participação de uma entidade com visões antagônicas às nossas, mostrando nosso apreço pela pluralidade, respeito e valores republicanos e democráticos. Em vão!

Mesmo com a nossa oferta, recebemos informações de que acadêmicos responsáveis pelo evento estavam recebendo ameaças de membros da Aliança Palestina – Recife e de grupos de estudantes, dizendo que haveria protestos, badernas, entre outros tipos de agitações dentro da universidade, caso nosso evento (há um mês agendado e divulgado) fosse realizado.

Vejo sempre eventos sobre o tema palestino contendo apenas uma visão em universidades federais e estaduais. Curiosamente, seus organizadores não convidam organizações que possam explicar o lado de Israel ou a história da região de forma acadêmica sem viés ideológico. Nós, da StandWithUS Brasil, como entidade educacional, jamais nos posicionamos pelo boicote a qualquer desses eventos porém, na democratização dos mesmos, pois estes eventos apresentam sempre apenas uma visão, normalmente deturpada, do que ocorre no Oriente Médio.

No caso específico da palestra marcada para amanhã, na UPE, fizemos o oposto de conclamar a um boicote, convidando o outro lado, propomos diminuir o tempo da minha fala como palestrante para abrir para um debate democrático e respeitoso e, mesmo assim, o evento foi cancelado pela reitoria, alegando “motivos de força maior”, sem ao menos dar uma justificativa adequada à comunidade acadêmica por terem cedido a chantagens.

Friso aqui que em minha exposição, os alunos podem ver mapas, acordos, fronteiras, entender o processo de paz em Oslo, como funciona as decisões de Israel e da Autoridade Palestina bem como outras questões pertinentes à história da região, tal como a fundação de outros países e a questão da segurança. Nesta palestra não há apologia a nenhum crime. Existem, porém, aqueles que precisam pintar uma imagem de radical para conseguirem atingir seus objetivos. Isso é típico de militância: quando não há legitimidade em boicotar alguém, precisam deslegitimar esse alguém. Então a censura funciona. É exatamente isso que estão fazendo.

Entendo que o livre pensar e a pluralidade de ideias precisa ser um bastião da academia. O reitor tem o papel de proteger esse bastião. Infelizmente, não é a primeira vez que palestras minhas são canceladas “por motivos de força maior”, que hoje faço questão de denunciar.

Não irei parar de palestrar. Continuarei lutando por mais educação sobre Oriente Médio no Brasil, mais conhecimento sobre Israel e os conflitos na região e seguirei os ensinamentos do meu avô paterno, que já nos deixou. Seguirei honrado de ser um judeu israelense/brasileiro, protegendo a democracia, a liberdade de expressão e a paz entre os povos.

Respeitosamente,
André Lajst

Posição do movimento Docentes pela Liberdade

O Terça Livre entrou em contato com o representante do movimento Docentes pela Liberdade que escreveu:

ANTISSEMITISMO ACADÊMICO

Há anos, ouvi de um professor federal – de esquerda, naturalmente: “Não gosto de judeus”. Há anos as esquerdas militam abertamente pela Palestina na Academia. Há anos as esquerdas consideram os israelenses “os nazistas dos palestinos”. Há anos essa pregação é difundida nas universidades federais.

Em sua campanha, o presidente Bolsonaro declarou abertamente sua simpatia e apoio a Israel, mais um fato que contrariou a “posição” acadêmica brasileira – o PT não criou em Brasília uma Embaixada do Estado da Palestina, estado que sequer existe?

Logo após sua posse, o ministro Abraham Weintraub foi acusado de “judeu-nazista” por Marcos Cesar Danhoni Neves (professor titular da Universidade Estadual de Maringá), em texto publicado na Revista Fórum.

Pois bem. André Lajst, cientista político, iria palestrar amanhã, 22 de agosto de 2019, na Universidade de Pernambuco. Título de sua exposição: “Os dilemas no processo de paz entre israelenses e palestinos”. Iria. “Por motivos de força maior”, clássica justificativa que nada justifica, a secretária da Assessoria Internacional da Universidade, Jacqueline Oliveira, informou o cancelamento da atividade acadêmica.

Há tempos que inexiste ambiente democrático nas universidades brasileiras. Há tempos que uma simples desconfiança, um carimbo etéreo de infidelidade partidária esquerdista, uma posição contrária a qualquer ato pró-Lula, pró-Dilma – ou defensora da Lava Jato, do ministro Sergio Moro, do presidente Bolsonaro – basta para o professor receber um passaporte para o Inferno. Para a solidão institucional. Para o isolamento existencial.

André Lajst é o novo expurgado. O novo defenestrado. O novo indesejado. O fato é novo, a história não. Assim começa o totalitarismo. Por isso o Docentes pela Liberdade nasceu: para denunciar a intolerância. Para combatê-la. Para acusá-la de intolerante. É preciso que a sociedade brasileira acorde e se conscientize que, sem a possibilidade do contraditório, do debate democrático, do pluralismo de ideias, a democracia começa a morrer. E é triste, é profundamente melancólico que isso esteja ocorrendo justamente com os judeus. Não aprendemos nada com a História? Barbara Tuchmann (1912-1989) já nos ensinou que a marcha da insensatez não morre. Como historiador, medievalista, acuso: combatamos o antissemitismo das esquerdas brasileiras. Eles se apossaram das consciências da juventude brasileira.

Ricardo da Costa
Professor titular do  Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM) da UFES
Acadèmic corresponent a l’estranger da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona

A Universidade de Pernambuco não se manifestou

Tentamos contato com a universidade por telefone e e-mail, mas até o presente não recebemos resposta.

O espaço permanece aberto para que a instituição se manifeste sobre o assunto.

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

9 Comentários

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  • Paciência tem limite! É preciso desaparelhar urgentemente as instituição de ensino público brasileiro. Instituições que há muito veem tocando numa nota só, a da esquerda e, aí daquele que se manifestar ao contrário. Chega! Não dá mais!

  • Sou professor desde 1985, com maior parte do tempo em escolas particulares, sempre encontrei resistência sobre minha visão social e política. Minha idade, vivência e conhecimento fizeram-se ver os movimentos de esquerda como perturbadores do desenvolvimento humano, social, econômico e por fim são autoritário, violentos e cheio de extremo ódio com aqueles que não o segue. Infelizmente, a maioria da sociedade brasileira foi tomada, abduzida pelas mentiras da esquerda através da revolução intelectual nas universidades que se aparelharam para formar militantes disfarçados de professares e assim disseminar ideias antidemocráticas embasadas na vitimização do mais viu disso tudo é subjugar pessoas jovens que estão formando identidade, portanto, cheias de idealismo platônico misturado com senso de juízo vulnerável (característica dos jovens) e de uma massa do proletariado que são pessoas abandonadas pela “sorte”, conhecimento cultural e ao mesmo tempo sem liberdade de escolha, passaram a servir a esses gângster social e as universidades tornaram-se “embaixadas” da esquerda e o estrago está aí, um país dividido, professores alienados compondo uma maioria esmagadora de discurso único em favor da esquerda degenerada e sem condições de fazer um debate equilibrado para que a juventude brasileira tenha o direito de escolher que posições lhe é mais aceitável, ter formação social-política com liberdade e discernimento. Continuo minha luta quase solitário para um Brasil melhor.

  • Ao meu ver, essa matéria, em especial seu título, redigida por um perfeito anti-intelectual, anti-jornalista, anti-filósofo (se é que tal sujeito é graduado em filosofia), esse Sr. Ricardo Roveran; que usou da palavra “antissemitismo” para algo que, em verdade, trata-se de política. Apresenta-se ele, o Sr. Roveran, como a escrever “por amor”, mas, ao que parece, “por amor” as inverdades. Ousa dizer que “estuda filosofia”. Faça-me rir!

    Anti-sionismo não é antissemitismo, Sr. Ricardo Roveran, suposto amante da Filosofia. Por favor, se tem alguma reverência pela Filosofia, ponha-se ao dever de respeitar a liberdade que as pessoas tem de, livremente, escolherem se opor ao projeto sionista de política externa que visa exterminar os palestinos. Uma forma de respeitar é sendo justo e honesto intelectualmente, consigo e com os demais, não tentando confundir leitores incautos com o uso errado da palavra “antissemitismo”. Respeite também as milhares de crianças, jovens e mulheres que o Estado de Israel matou e mata, semana pós semana, naquela região.

    Ademais, que coisa mais primária dessa Universidade, ousar propor debate acadêmico sobre a temática israelo-palestina sem representante palestino. Isso não é debate, é tentativa de doutrinação. Ousam chamar isso de debate! Covardia sempre faz parte do modus operandi dos sionitas e de alguns jornalistas.

    Não nos calarão! Não nos intimidarão!

    PALESTINA LIVRE!

  • O cara que falar da paz na Palestina e Israel e só quem vai falar é o israelense? Me parece que ele quer buscar aliados e não promover a paz. Fui no facebook oficial do André Lajst para tentar entender do que ele fala, só vi agressões à Palestina, mas como ele quer falar de paz se já está condenando o outro lado? Para quem fica na superficialidade das informações realmente fica do lado dos que estão se vitimizando, quando foram apenas parados numa tentativa de doutrinação.

  • Movimento Docentes pela Liberdade me parece uma versão piorada do MBL? Chacota! Kkkkkkkkkkkkk Ricardo da Costa nem parece que estuda filosofia

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