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Janot, Albright, fascismo e facismo: que salada, seu procurador…

Janot, Albright, fascismo e facismo: que salada, seu procurador...

Encantado pelo livro de Madeleine Albright (Fascismo: um Alerta), o ex-procurador-geral da República foi ao twitter para definir “fascismo”. Janot já começa errando ao retirar o “S” da grafia do vocábulo, que parece mesmo ser um gesto revolucionário…uma vez que os muitos que usam o termo como mero xingamento escrevem “facismo”.

Diz Rodrigo Janot que “um facista é alguém que diz falar por uma nação ou um grupo, não se preocupa com os direitos dos outros e está sempre disposto a usar de violência ou qq outros meios necessários para atingir os seus objetivos (sic)”. Depois faz a alusão ao livro de Madeleine Albright, classificando-o como “excelente”.

Albrigth foi secretária do governo de Bill Clinton e escreve a obra – lançada recentemente no Brasil – para colocar o fascismo (ela escreve a palavra corretamente) no colo do presidente americano Donald Trump. Há pontos positivos na obra? Sim. Albright trata bem os conceitos e as épocas históricas, mas cai em uma grave falha: as analogias com o atual governo americano não se sustentam. Porém, quem tiver o interesse que leia o livro, e perceba isso com os próprios olhos. Não será o foco desse texto.

O foco desse texto é Rodrigo Janot.

Quem ele – que declarou voto em Fernando Haddad (PT), no seguno turno das eleições – visa atingir? O futuro presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), fazendo coro com a “inteligência orgânica” desse país, que usa o termo como se mero xingamento fosse? Com a resposta…o senhor Rodrigo Janot.

O que Janot não diz é que no livro de Albright – em que pese as associações pobres que a autora faz – contextualiza o fascismo muito bem no século XX, ao mostrar que suas raízes estão justamente na esquerda italiana da qual Benito Mussolini fazia parte. Inclusive, em um dos trechos, há uma lição para Rodrigo Janot: fascismo não é mero xingamento.

Leiam a própria Albright:

“Josef Stalin deleitava-se em reprovar a política reacionária dos fascistas italianos e alemães, mas, para um comunista, “fascista” era o mais versátil dos insultos. Em vez de reservá-lo para quem de direito, os soviéticos usavam esse epíteto para desacreditar capitalistas, democratas, religiosos ou qualquer outra facção – trotskista, socialista ou liberal – que disputasse corações e mentes da esquerda com a URSS”. Ou seja: servia para qualquer um desde que fosse adversário.

Entendeu, Janot? Quando o senhor usa a palavra como mero xingamento, e sem a preocupação da definição exata do termo enquanto conceito, está adotando uma mera estratégia soviética de fazer de um adversário um espantalho. Ou seja: estratégia comunista própria das mentalidades revolucionárias. Diria até mentalidade jacobina, mas, do ponto de vista cronológico, o jacobinismo é anterior, ainda que a definição caiba.

Tanto é assim que a próprio autora segue: “No universo de Stálin quem não estivesse com ele não era muito melhor que Hitler; não havia meio-termo. Assim, pode-se pensar que o fascismo e o comunismo eram opostos, MAS O CONTRASTE É MAIS COMPLICADO (o grifo é meu)”. Ou seja, a própria autora progressista conhece a similaridade entre as visões e a estratégia de comparar todo mundo a um Hitler ou a um Mussolini ao menor sinal de divergência no campo das ideias para, com isso, explorar um sentimento de medo, ao mesmo tempo em que se coloca como detentor do monopólio das virtudes.

Sabemos bem o quão bonzinho Stalin era, não é Janot? Albrigth ao menos sabia. Esta estratégia stalinista esteve presente o tempo todo na campanha petista, quando resolveu demonizar o adversário e se colocar como o bastião da democracia. Mas, como assim democracia, Janot? O PT foi o partido – e o senhor como procurador-geral da República sabe disso – que aprofundou ainda mais o estamento burocrático vigente e contou com o aparelhamento de todo o meio cultural, como podemos ver no processo de ideologização do ensino, onde liberalismo, conservadorismo etc cabem tudo em um único termo. Advinha qual? “Fascismo com S”. Não é uma graça, Janot.

O Fascismo – como posto por Mussolini e também por estudiosos do tema como Michael Mann e Robert Paxton – visa o controle de tudo pelo Estado. Todas as relações humanas – dentro dessa visão política – devem ser reguladas pelo poder estatal, que em pouco tempo não mais observa diferença entre partido, Estado e governo.

Em outras palavras, os fascistas (com S) aparelham tudo, tomam conta do sindicalismo com uma visão ideológica, ao passo que constroem o metacapitalismo, por meio de políticas que venham a beneficiar os empresários “amigos do Rei”. Isto ocorreu na Itália, inclusive por meio da fabricação de uma legislação trabalhista que permitisse o Estado atuar forte em todos os pontos do setor produtivo.

Mussolini chamava isso de “classe produtiva” contra os “improdutivos”. O velho “nós contra eles”.

Com o que isso se parece, Janot? Repito: um sindicalismo tomado por visão ideológica, o setor produtivo totalmente regulado pelo Estado nos mínimos detalhes, e uma política de “campeões nacionais” para empresários que se submetam ao sistema, sendo amigos da casta iluminada que toca adiante a engenharia-social. Com o que se parece mesmo? No caso dos campeões nacionais, é possível fazer uma pesquisa nos arquivos da Lava Jato para entender melhor…

Não por acaso, como também registra Albright, Mussolini – no ano de 1932 – descreveu o fascismo (com S) como um universo fechado em que o Estado a tudo abrange e fora do qual “não pode haver valores humanos ou espirituais”.

“Ao fazê-lo, dava conta de sua SEMELHANÇA (grifo meu) com o comunismo no desdém pela democracia e todas as suas amarras. Em público, o Dulce atacava os bolcheviques, mas a portas fechadas confessava admirar o quão efetiva eram as táticas brutais de Lênin”, escreve Albright. Caro Janot, já leu o seu candidato Haddad escrevendo sobre essa esquerda? É que o twitter é público, né…então, “em público…”

“Fascismo e comunismo tinham aspirações utópicas e ambos ganharam força em meio à efervescência intelectual e social do fim do século XX. Ambos se propunham a atingir um grau de sustentação emocional ausente nos sistemas políticos liberais”. Esse trecho também está no livro que Janot leu.

Agora, que Janot nos explique como é possível dar a entender que no futuro governo está a semente do fascismo, já que este defende a redução do Estado, o fim de privilégios de castas, o armamento civil da população, a descentralizção de poder, a desideologização do ensino, maior liberdade de mercado, relações de trabalho mais flexíveis e fora do estamento estatal, redução do poder ideológico do sindicalismo e o combate ao metacapitalismo que temos hoje, cujo primeiro passo pode ser dado ao abrir a caixa-preta do BNDES. As crenças centrais do futuro governo – pelo que descreve a própria Albrigth – o distanciam do fascismo.

Talvez Janot ache que teremos um futuro governo que fará tudo diferente do que realmente diz e por isso escolheu, o que é legítimo de sua liberdade, votar naquele que mais se assemelhava às práticas descritas pelo livro que leu. Talvez, talvez, talvez… Afinal, ele não direciona a sua tuitada lacradora, apenas usa “facismo (sic)” de forma genérica.

Ou então, já pedindo desculpas a Janot, eu não escrevi aqui sobre um regime novo que Janot inventou: O FACISMO SEM S, acaso seja o caso. Mas aí, se Janot quis inventar um novo FACISMO, por qual razão citar Albright? Em todo caso, se ofendeu, peço a Janot que desconsidere. É que estou falando de FASCISMO e não de FACISMO.

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5 Comentários

  1. Parabéns, Luis Vilar, excelente analogia, do que diz Rodrigo Janot, desmentindo o pseudo do intelectual. Parabéns Terça Livre por transmitir informações de verdade.

  2. Manda essa matéria para aquele vacilão, para assim ver se ele aprende a estudar ou deixa de ser fascista. Afinal: Fascistas do futuro se dirão anti-fascistas.

  3. A esquerda brasileira é doente. Não tem alma, tampouco, visão de que as outras pessoas existem.
    Sabe aquela máxima de que vampiros náo formam imagens nos espelhos!, pois bem, a síndrome da esquerdopatia vai além… enxergam seus adversários à imagem refletida, apenas.

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