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Marcos Eberlin: cientista brasileiro fala sobre ciência na França

Marcos Eberlin
 


O cientista brasileiro, Marcos Eberlin, concedeu uma entrevista exclusiva ao site FranceSoir.fr, na última terça-feira (26/5), sobre a ciência.

A entrevista foi traduzida por membros do Docentes Pela Liberdade (DPL) e disponibilizada na íntegra ao Terça Livre.

Confira abaixo

ENTREVISTA EXCLUSIVA: Marcos Eberlin, professor de química, líder de um grupo brasileiro de 300 pessoas, escreveu uma carta aberta sobre ciência. Ele respondeu as nossas perguntas e estamos publicando esta carta surpreendente sobre sua visão da ciência, bem como sobre o recente estudo publicado no The Lancet, que tende a desacreditar a hidroxicloroquina como tratamento contra o coronavírus.

Nota do editor:

Desde o início da pandemia, acompanhamos o trabalho de vários grupos na internet, fervorosos defensores da ciência colaborativa que nos permite encontrar de forma mais rápida e confiável do que usar os processos tradicionais de tomada de decisão. Há pouco tempo, um empresário nos lembrou da mudança na comunicação com o “Je Suis Charlie”, impulsionado por um cidadão e adotado pelas pessoas. Diante disso, os políticos, as elites que estão acima de todos os cidadãos, não tiveram outra solução senão abraçar essa mensagem vinda de baixo, correndo o risco, a seu ver, de serem deixados para trás. Abaixo das pessoas. Essas pessoas que ficaram confinadas por alguns meses. Todos contarão a história de seu confinamento por um longo tempo; no entanto, o que permanecerá na mente de muitos são os encontros incríveis e improváveis feitos, a energia posta na tentativa de entender e procurar contribuir, unindo-se.

Grupos de interesse, sem conflito … de interesse.

Sim, é onde hoje reside parte da ciência, a que avança sem preconceitos a partir de amostras de castas, grupos, formações ou escolas de pensamento. A que tenta entender como chegamos lá: branco, bege, azul, cor da pele, idéias políticas não têm lugar quando o objetivo é entender, encontrar algo. Hoje podemos testemunhar, um grupo de trinta pessoas na França, trabalhando juntas, coletivamente no entendimento do estudo publicado pela Lancet e, a 8.000 km, um grupo de especialistas brasileiros que chegaram à mesma conclusão. Incrível perceber que, na ausência de conflitos de interesse, as coisas se movem mais rápido e vão direto ao ponto. É claro que, às vezes, algumas diferenças de idioma, disputas, mas cada uma em seu lugar, respeitando as outras porque são cidadãos acima de tudo.

A forma dessa abordagem, esse método, pode ser menos importante que a substância, mas a demonstração da abordagem coletiva é simplesmente o interesse comum e do cidadão. Isso não significa que outras abordagens não funcionem, mas é isso que todas as ferramentas colaborativas e redes sociais (Facebook, Twitter, Email, Google, Qwant) e todas as operadoras que fornecem acesso a informação. Devemos então compartilhar essas informações, sem barreiras, sem filtros e analisá-las.

Euh JY, eu não sei o que isso significa, você sabe? E você Jaimelalife, verificou isso? E você, Marselha, pode procurar por isso? pontuado com vídeo, pdf, imagens. Algumas pessoas pesquisam enquanto outras analisam, ganham altura. Este grupo levou um curto período de tempo para entender os vieses do estudo Lancet, o estudo que deu um tapa na hidroxicloroquina. 8 ou 10.000 mensagens em algumas horas de trabalho. Um deles até me questionou sobre a entrevista com a professora Merha (a pessoa que publicou o estudo da Lancet), perguntando por que eles não fizeram uma pergunta mais direta a ele. Apenas dois médicos nos telefonaram sobre esta entrevista!

É essa França que está fazendo a pergunta: como o Ministro da Saúde pode abordar a Autoridade Suprema para solicitar a revisão do uso de um medicamento com base em um estudo, sem ter estudado possíveis vieses, e ele tem razão em fazê-lo como um princípio de precaução “por precaução”. Na França, a hidroxicloroquina dividiu a França em duas partes. As elites e a imprensa são principalmente contra, opondo-se ao rigor dos protocolos pelo princípio da precaução, sem dúvida. Enquanto o professor Raoult venceu a batalha de opinião. Qual general de guerra está pronto para perder certas batalhas? Quantas vidas ele salvou, perguntarão alguns, quantas vidas ele terá abreviado se ouvirmos outras. Mas que general ou médico gosta de ver suas tropas morrerem?

Na Arte da Guerra, todos os golpes são permitidos. O estudo de que ninguém ouviu falar em 96.000 pacientes saiu em uma das publicações médicas de maior prestígio. A sentença de morte por hidroxicloroquina. A resposta está organizada. Ninguém fará a pergunta: por que nenhuma outra mídia ou o governo tentou falar com o professor Mehra? Não é a base para verificar os fatos? É verdade que o Lancet é uma publicação respeitável, embora seu editor no passado tenha dito que muitos dos resultados foram distorcidos. Omissão voluntária, cegueira coletiva. O fato é que verificar sua fonte é, me disseram recentemente, a base do jornalismo. Base inequívoca para esse grupo na internet, verifique e não apenas uma vez, mas cada um verifica o que o outro está fazendo em um espírito coletivo, para que a ciência saia mais rapidamente disso. Know-how e informação para retomar Gaston Leroux o mestre em jornalismo de Pierre Lazareff.

Do outro lado do Atlântico Sul, Brasil, em diferentes condições, um país gravemente afetado pela pandemia, onde o presidente Jair Bolsonaro, muito criticado, decidiu a favor da hidroxicloroquina. Seus detratores políticos controlam a mídia (Globo) e se opõem à hidroxicloroquina brandindo ferozmente o mesmo estudo do The Lancet para desqualificar esse medicamento. Outro grupo, formado por especialistas, médicos, químicos, biólogos, mais de 300 pessoas em um país onde a liberdade de expressão é menor do que na França. Esse grupo, usando as mesmas técnicas do grupo francês, ofende-se, revolta-se e publica uma carta aberta.

Francesoir: Conversamos com o representante do grupo Marcos Eberlin. As 22:21 por email, as 23:00 por teleconferência para pedir permissão para traduzir e reproduzir esta carta e responder nossas perguntas. Sem necessidade de apresentação, vamos ao cerne da questão.

ME: Eu represento um grupo de 300 cientistas que se ofenderam com as pressões da mídia e com os oponentes da decisão do presidente de apoiar a hidroxicloroquina (observe que ele está falando sobre a dupla terapia do professor Raoult) como um tratamento contra o Covid-19.

FranceSoir: o que o levou a escrever esta carta aberta?

ME: No Brasil, em nosso grupo de cientistas, de diversas origens com o objetivo de “professar a liberdade”, tínhamos muitos médicos que atendiam pacientes e que tinham experiência na vida real. Eles compartilharam com o nosso grupo suas experiências. Temos químicos, biólogos, estatísticos de virologistas, todos nós estávamos tentando entender os impactos do Covid 19, os tratamentos, incluindo a hidroxicloroquina e o confinamento.

Quanto à hidroxicloroquina, ficamos chocados com a resistência que ela gerou na França, onde há um dos melhores especialistas do mundo em virologia e epidemiologia. Também vimos o que estava acontecendo nos EUA.

FS: mas o que motivou esta carta?

ME: Analisamos múltiplos e variados estudos, como todos os pesquisadores e especialistas. É uma ciência iterativa da medicina. Você sabe que no Brasil tivemos epidemias (zika …), estamos bastante acostumados e preparados para reagir em um grupo de trabalho multidisciplinar.

Quando recebemos a publicação The Lancet, do professor Mehra, ficamos chocados. Nossa primeira análise foi tentar entender os méritos do estudo e muito rapidamente o grupo percebeu que

foi um esforço para desacreditar a hidroxicloroquina e, finalmente, a terapia dupla.

FS: Mais ainda?

EU: Analisamos tudo, os 300 foram bem rápido compartilhando o trabalho. Mas tudo parecia questionável, a metodologia, a amostragem, os métodos estatísticos utilizados. Por exemplo:

  • a quantidade de hidroxicloroquina administrada, como podemos ministrar a quantidade (1,2 g)
  • a seleção não foi aleatória
  • os pacientes receberam hidroxicloroquina quando nunca deveriam tê-lo recebido devido a problemas cardíacos. É um erro médico mínimo dar esse medicamento a pacientes que sofrem de problemas cardíacos.
  • fomos levados a acreditar que eram pacientes que haviam acabado de ser diagnosticados quando receberam tratamento 2 dias depois de irem ao hospital; sendo que fazia dez dias que eles já tinham o Covid.

A ciência médica exige que todos esses fatores sejam levados em consideração

Isso não é ciência, é uma instrumentalização da ciência
Todos ficamos chocados porque é isso que destrói a reputação da ciência.

FS: Mas com qual propósito?

ME: Na França, você consegue identificar os oponentes da hidroxicloroquina como membros do governo, ou em grande parte das elites, e as pessoas que são a favor.

No Brasil, é diferente, existe uma correlação direta entre oponentes da hidroxicloroquina e oponentes do governo no poder.

Além disso, além da parte política, conseguimos vincular este estudo a grandes laboratórios farmacêuticos. Acabei de ouvir um membro do grupo falar sobre os vínculos entre uma empresa que produz os “respiradores” e os que contribuem para este estudo.

Existem muitos vieses induzidos por essas pessoas.

FS: e os tratamentos?

ME: Nós não entendemos esse desejo de não testar a terapia dupla contra outros tratamentos.

Não é medicina ou ciência.

Além disso, o professor Regis Andriolo, PhD (professor universitário e pesquisador cuja especialidade é medicina baseada em evidências no Brasil), nos confirma que o estudo publicado no The Lancet é extremamente pobre. Neste documento, temos enormes variações na amostragem entre os pacientes tratados (com hidroxicloroquina ou cloroquina), em comparação com o grupo controle:

+ 13% dos pacientes coronarianos
+ 18% de insuficiência cardíaca
+ 10% mais diabéticos
+ 16% mais hipertensão
+ 10% mais DPOC
+ 12% mais fumantes
+ 14% mais pessoas com PaO2 < 94%

Além da questão da hiperdosagem de cloroquina, com uma média diária de 765 mg e variações substanciais na co-intervenção entre os grupos.

Não há método estatístico para corrigir essas distorções do cenário.

Se fosse esse o caso, não precisaríamos mais dos estudos randomizados, eles seriam abolidos.

É sabido que as tentativas de aproximar estudos observacionais a estudos randomizados, utilizando meios estatísticos artificiais, como escores de propensão, são armadilhas reais.

Há uma grande irresponsabilidade das pessoas envolvidas.

Confira a entrevista em francês no site FranceSoir.fr clicando aqui.

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

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