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Martin Landray fala sobre o tratamento do Covid-19

Martin Landray
 


O professor Martin Landray, destacado para direção de testes para o tratamento do novo coronavírus, concedeu uma entrevista ao site FranceSoir no sábado (6/6).

Membros da associação Docentes Pela Liberdade (DPL) traduziram a entrevista na íntegra e enviaram ao Terça Livre para publicação no Brasil.

Confira abaixo a tradução do DPL:

ENTREVISTA EXCLUSIVA:  Professor Martin Landray, diretor de testes britânico Recovery para o tratamento da Covid-19.

Cinco de junho, em um comunicado de imprensa, o Recovery, teste clínico com 11.000 pacientes no Reino Unido, anuncia que a hidroxicloroquina não está funcionando e que será retirada do teste com efeito imediato.

O último relatório provisório do teste foi publicado em 28 de maio de 2020 e o próximo seria anunciado apenas em 11 de junho de 2020. O anúncio, feito horas após a retirada do estudo falho do The Lancet, pegou os observadores de surpresa. Como resultado, o tratamento com hidroxicloroquina é interrompido para todos os pacientes e não haverá mais inclusão dos pacientes com este tratamento no ensaio clínico. Assim como fizemos nos outros estudos, solicitamos uma entrevista com os corresponsáveis do teste e Martin Landray concordou em responder às nossas perguntas na sexta-feira, 5 de junho, às 20h00. A entrevista foi conduzida em inglês, revisada por Martin Landray, e depois traduzida para o francês.

Fim do jogo para a hidroxicloroquina na Grã-Bretanha, apesar dos elementos mais do que surpreendentes abordados no artigo “Diversos: suicídio do teste Recovery para hidroxicloroquina“.

A hidroxicloroquina ainda não fez seu Brexit, e a história pode sofrer algumas reviravoltas.

FranceSoir: Professeur Landray, o senhor poderia nos descrever o acompanhamento do teste Recovery?

ML : O teste está em andamento há 11 semanas, com uma revisão pelo menos a cada duas semanas pelo IDMC (Comitê Independente de Monitoramento de Dados). O papel deles é verificar se há um forte sinal de que um dos medicamentos está funcionando claramente, ou se há um risco significativo ou que simplesmente não teve nenhum efeito.

FS: O relatório deveria inicialmente ser publicado em 11 de junho, por que a data foi antecipada?

ML: A próxima revisão do IDMC estava prevista para 11 de junho. Com base em seus resultados, eles nos aconselharam a continuar os diversos braços do teste. A MHRA (Agência Reguladora Britânica de Medicamentos) entrou em contato conosco em 4 de junho, solicitando a avaliação da segurança da hidroxicloroquina no teste. Foi isso que desencadeou a análise interina do IDMC, porque eu pessoalmente não acessei os dados. Portanto, o IDMC solicitou que a gente acessasse aos dados para avaliar a hidroxicloroquina (HCQ) em relação os cuidados hospitalares padrões (SOC). A análise foi realizada na noite de 4 de junho. Nós, em seguida anunciamos os resultados no dia seguinte, sexta-feira, 5 de junho.

O gatilho foi, portanto, um pedido do órgão de regulamentação

FS : Quais são os tratamentos incluídos no teste?

ML: Em um estudo tão amplo, podemos adicionar vários tratamentos, como e à medida que o conhecimento científico evolui ao longo do tempo. Para a hidroxicloroquina, nós solicitamos sua adição em 23 de março e obtivemos autorização em 25 de março. Atualmente, os seguintes medicamentos estão sendo testados: Lopinavir-ritonavir, corticosteroides em baixa dose, hidroxicloroquina (que agora paramos), azitromicina, plasma convalescente e tocilizumabe.

FS: A partir dos dados que o senhor apresentou, parece que os pacientes são mais velhos e apresentam níveis de condições pré-existentes mais importantes (25% de diabetes, 25% de doenças cardíacas). Por quê?

ML: Todos os indivíduos com sintomas do COVID 19 são candidatos à inclusão no estudo e em todos os hospitais do Reino Unido. Embora ainda não tenhamos verificado a idade e outros critérios em detalhes, o perfil da doença parece ser comparável ao que normalmente observamos. Basicamente, um em cada seis pacientes no Reino Unido que estiveram em hospital com Covid está incluído no estudo. Então é muito representativo. O paciente mais jovem tem um ano e o mais velho, 109 anos. Os pacientes admitidos no hospital com Covid podem ter outras condições, por exemplo, um paciente tendo diabetes ou problemas cardíacos, eles seriam, portanto, tratados para essas doenças.

Os pacientes são, em seguida, distribuídos aleatoriamente seja para o braço da hidroxicloroquina ou para o braço controle (ou um dos outros braços do estudo). Então, quando olhamos para os dados, a única diferença entre os dois grupos é se um paciente recebeu hidroxicloroquina ou não.

FS: Na página 20 do relatório do Recovery de 2 de junho, o senhor declara que os pacientes tratados com hidroxicloroquina serão diferentes daqueles que não a receberão. Por quê?

ML: Este documento é o material educativo que nós fornecemos aos investigadores. Esta página não se refere ao teste de Recovery. Ela se refere ao estudo do The Lancet que atualmente foi retratado. Esta página está dentro do relatório porque estamos constantemente monitorando o que está acontecendo em outros estudos e relatando isso à equipe de investigação.

Na época, todo mundo pensava que os dados deste estudo eram reais, mas esse estudo observacional torna os resultados não confiáveis. Isso confirma ainda mais a necessidade de informações confiáveis ​​de ensaios clínicos randomizados. Pelas mesmas razões, as páginas 15 a 17 falam sobre o Remdesivir. Como monitoramos todas as evoluções dos tratamentos em todo o mundo, este é o estado atual de pesquisa ou dos resultados sobre este medicamento.

FS : A pesar do Remdesivir ter mostrado sinais positivos, por que ele não foi incluído no estudo?

ML: No momento em que projetamos o estudo, o Remdesivir não estava disponível em quantidades suficientes no Reino Unido, portanto não pudemos incluí-lo no estudo.

FS: O senhor poderia especificar a dose de HCQ que o senhor deu aos pacientes?

ML: São 2400 mg nas primeiras 24 horas e 800 mg do dia 2 ao dia 10. É um tratamento por 10 dias no total. São doses altas o suficiente para garantir que o nível de HCQ no sangue seja alto o suficiente para ter a chance de matar o vírus.

FS : Como senhor decidiu a dosagem do HCQ?

ML: As doses foram escolhidas com base na modelagem farmacocinética e estão de acordo com as dosagens usadas para outras doenças, como a disenteria amebiana.

FS: Existe uma dosagem máxima para a hidroxicloroquina no Reino Unido?

ML : Eu tenho que verificar, mas é muito mais alta que 2400 mg, eu acho que é seis ou dez vezes mais.

Para Covid, não há dose recomendada porque é uma doença nova e porque a hidroxicloroquina não é um medicamento autorizado para uma utilização (em casa) em pacientes covid positivo.

FS: Existem doses consideradas fatais para a hidroxicloroquina no Reino Unido pelo MHRA (regulador)?

ML: Os médicos assistentes não relataram que uma morte ou outra tenha sido causada por hidroxicloroquina. Para uma nova doença como Covid, não há dosagem recomendada ou aprovada. No entanto, a dosagem de hidroxicloroquina utilizada não é diferente da utilizada, como eu disse, por exemplo, para disenteria amebiana.

FS: E a hidroxicloroquina é mortal ?

ML : Primeiramente, nós não observamos um aumento nas mortes no primeiro dia em que a dosagem foi a mais alta. Além disso, a taxa de mortalidade observada no braço de teste da HCQ não foi diferente daquela do braço controle. No estudo, um em cada quatro pacientes que chegou ao hospital morreu, tanto no braço de teste da hidroxicloroquina quanto no braço de controle. Este medicamento não reduz o risco de morte.

FS : E a hidroxicloroquina não funciona?

ML : Não, nós demonstramos que esse medicamento não é bom para esta doença, não importa em que você queira acreditar. Os resultados dizem isso. Nós fizemos os testes para compreender e obter respostas. Eu não sabia a resposta ontem. Agora eu sei.

FS : O senhor já notou alguns elementos relacionado ao uso seguro da hidroxicloroquina?

ML: Nós decidimos parar esse braço não por motivos de segurança, mas porque ele não funciona. Agora temos evidências claras de que a hidroxicloroquina não funciona. Portanto, não faz sentido fazer um tratamento que não funcione.

FS : O senhor mesmo tratou pacientes

ML : Não. Os pacientes estão espalhados por 175 hospitais em todo o Reino Unido

FS : Como o estudo foi financiado?

ML: O Recovery foi financiado por doações dos dois institutos britânicos, o responsável pela saúde e o responsável pela pesquisa (Reino Unido Medical Research e Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde). Trata-se de um subsídio concedido em fevereiro de 2020. Esta foi a principal fonte de financiamento do estudo. O subsídio total é de £ 2 milhões em 18 meses. Na verdade, trata-se de um estudo barato para 11.000 pacientes, o mesmo relatado para um estudo canadense (nota do editor: Estudo Boulware 150.000 CAD para 800 pacientes).

Professor Landray, queremos lhe agradecer pelo tempo concedido para responder às nossas perguntas.

Martin Landray é professor de medicina e epidemiologia e um dos principais pesquisadores chefe do estudo RECOVERY. Ele é diretor de pesquisa, Health Data Research UK, diretor interino do Big Data Institute, líder em Big Data e inovação em computação, dirige a Clinical Informatics e o Big Data no NIHR Oxford Biomedical Research Centre. Seus trabalhos têm como objetivo entender melhor os determinantes de doenças atuais através do design, condução e análise de ensaios clínicos eficazes em grande escala e outros coortes prospectivos.

Ele liderou uma série de grandes ensaios clínicos avaliando tratamentos para doenças cardiovasculares e renais, recrutando mais de 65.000 pessoas, produzindo resultados que modificaram as aprovações regulatórias de medicamentos, influenciaram as diretrizes clínicas e mudaram as práticas de prescrição para o benefício dos pacientes.

Ele estudou medicina na Universidade de Birmingham (Reino Unido) e possui especialização em farmacologia clínica e terapêutica. Ele foi estagiário na Universidade de Birmingham. Ele continua a praticar medicina clínica como consultor médico honorário na Diretoria de Cardiologia, Cirurgia Cardíaca e Torácica do Hospital da Universidade de Oxford, NHS Trust. Ele é membro do Royal College of Physicians de Londres, da Higher Education Academy, da British Pharmacological Society e da European Society of Cardiology.

Auteur: Xavier Azalbert para FranceSoir

Clique aqui para ler a matéria original no site FraceSoir.

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

5 Comentários

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  • Meu Deus do céu, esses “cientistas” continuam dando superdosagens de hidroxicloroquina para pacientes, como em Manaus ?

  • Ele acha que a HCQ mata o vírus ? rsrsrs A HCQ fortalece a parede da célula, protegendo-a da ação do vírus, dando tempo dos anticorpos reagirem e combaterem o Corona. Quem mata o vírus é o anticorpo natural, como em toda gripe.

  • A dosagem é 400 mg por cinco dias e esse louco ministra 2400 mg já no primeiro dia ? E tem que ser associado com 500 mg de zinco e azitromicina na janela dos primeiros dias. Por muito menos dosagem os médicos petistas em Manaus fizeram erro médico. Cada uma !

  • Esse estudo é sobre a terapêutica com a HCQ SOZINHA. NÃO tem relação com a trinca HCQ + Azitromicina + Zinco, que é OUTRA terapêutica e está sob estudos em andamento. Também NÃO tem relação com o uso PROFILÁTICO nem para os positivos PRÉ-internamento (primeiros dias dos sintomas, antes de internação).
    Cuidem com as FAKE NEWS da extrema imprensa nos próximos dias, que com certeza deturparão em suas “manchetes” marrons o resultado desse EXCELENTE estudo inglês.

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