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Mentalidade Revolucionária: comunismo e nazismo são irmãos e ponto final!

Quando Richard Evans, Ian Kershaw e William Shirer (para mim os maiores estudiosos do Nazismo e dos detalhes desse nefasto regime. Logo, escritores indispensáveis a quem quer estudar o tema) classificam a atrocidade genocida do regime de Adolph Hitler como “extrema-direita” o fazem dentro de um prisma histórico em que colocam o comunismo como “extrema-esquerda”.

Eles fazem uma divisão binária e só.

Porém, todos os três, em suas obras, mostram fatos comparativos e influências comuns nessas mentalidades revolucionárias, apontando de maneira correta onde elas estão.

Evans, inclusive, em sua obra Terceiro Reich, já inicia o primeiro volume alertando o leitor para o fato de que a ideologia nazista ter sido mais esmiuçada que a comunista se deveu ao fato da corrente de historiadores marxistas terem se colocado à frente na contagem da história “dos vencedores”, tentando manter uma “pureza” da própria ideologia apesar das atrocidades dos seus regimes revolucionários, incluindo a URSS.

No mais, eles estabelecem um prisma histórico que tem o seguinte critério: 1) se os comunistas eram a extrema-esquerda e nos nazistas foram contrários a eles, estes são colocados em uma extrema-direta.

Levando-se em conta que só nas décadas de 1980 em diante se buscou uma compreensão mais profunda dos regimes em um sentido ontológico (aquilo que eles eram por si e o que os motivavam), abriu-se aí uma nova frente de pesquisa analítica que leva em consideração os fatos históricos e as raízes das ideologias que os sustentavam, com suas semelhanças e discrepâncias.

Utilizando-se de Vladimir Tismaneanu, digo: foi quando se revolveu buscar mesmo onde estava o diabo na História.

Foram vários trabalhos nesse sentido, dentre os quais, se destacam, a meu ver, Alain Besançon com A Infelicidade do Século; Robert Gellately com A Era da Catástrofe Social e Richard Overy com Os Ditadores. Overy, por exemplo, é fantástico em detectar a mentalidade revolucionária; e nem mais usa as classificações “extrema-esquerda” e “extrema-direita”.

Richard Overy destaca que no cerne de todas essas ideologias estava a crença da fundação de uma superestrutura de novos valores que conduzissem o “novo homem”.

No Nazismo, o pseudo-cientificismo biológico impulsionou o racialismo que também se alimentou de visões mitológicas, como o arianismo, presente no pensamento de Eckhart, por exemplo.

No comunismo russo, a inspiração da Revolução Francesa se aliou ao cientificismo econômico e o pragmatismo do marxismo-leninismo.

Essas possibilidades de comparação se fizeram presentes ainda na obra de Vladimir Tismaneanu, dentre outras. O foco central era: a mentalidade revolucionária e suas ideologias possuem pontos em comum: uma crença cega que faz com que a consciência seja substituída pela causa.

De certa forma, casa com o que Hannah Arendt chegou a chamar de “banalidade do mal”. Por isso os pontos comuns visíveis: o combate a qualquer visão transcendental, o Estado como instrumento de poder coercitivo totalitário e absoluto, o combate ao livre mercado (em graus diversos), os campos de concentração etc.

Thimothi Snyder, que sequer é um conservador, mas um progressista, como se observa em Sobre a Tirania, também pontuo isso em Terras de Sangue.

E essas obras não contrariam Evans, Kershaw ou Shirer, mas apenas mostram que, diante dos fatos que esses historiadores colocaram, estamos lidando com duas faces de uma mesma moeda e com um mesmo nascedouro para suas mentalidades revolucionárias.

Tanto é assim que Shirer mostra J. Goebbles elogiando as táticas dos bolcheviques e dizendo que elas são excelentes para propaganda e mobilização de massas. Assim como Molotov e Stalin elogiaram a ideia de expurgo partidário de Hitler, quando precisou se livrar de Strasser, que trazia para dentro do nazismo influências da extrema-esquerda.

Citar Richard Evans fora do contexto e desprezando o que ele mesmo diz sobre a forma como a história foi escrita, e os prismas levados em conta, é uma bobagem. Evans é sim um dos maiores historiadores do Nazismo, mas não é um dos maiores analistas da mentalidade revolucionária e suas consequências, como foi Overy e Besançon, por exemplo.

Logo, pouco importa a classificação meramente histórica. O que está em jogo é se entender o que uma mentalidade revolucionária produz que, em um termo muito bem cunhado pelo Francisco Razzo aqui no Brasil, pode ser ainda produtora da “imaginação totalitária”. Esta é a razão pela qual, cada vez mais, em meus estudos e escritos tenho o usado o termo “mentalidade revolucionária”, como algo bem maior que simplesmente “extrema” isso  e “extrema” aquilo.

É que na compreensão da mentalidade revolucionária se enxerga táticas como “assassinato de reputações”, uso do “politicamente correto”, censura ideológica, ocupação de meios culturais como estratégia, criação de um consciente coletivo, instrumentalização de massas etc. Tudo isso passa a se perceptível em algumas forças políticas, fazendo com que o leitor da realidade vá além dos conceitos dicionarísticos para saber o que é “comunismo”, “socialismo” etc.

O conservadorismo filosófico, que tem como expoente Edmund Burke, por exemplo, é contra toda e qualquer mentalidade revolucionária e guarda um ceticismo em relação à razão articulada que se acha capaz de ofertar solução para tudo. Entende a razão como importante, porém restrito. Tem o respeito pelos clássicos, que não são velhos, mas eternos. Há elementos na tradição, na cultura e na religião que são essenciais para os avanços sem que “se jogue o bebê fora com a água suja do banho”, justamente por compreender como o Ocidente se desenvolveu. Aqui é um pequeno resumo do que opõe toda e qualquer mentalidade revolucionária ao conservadorismo.

É por suas consequências e raízes, portanto, que um conservador diz com TODAS AS LETRAS que o nazismo tem mais semelhanças com o comunismo.

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