ArtigosLuis Vilar

A mentalidade revolucionária: não importa o “ismo”. Origem e práticas são as mesmas…

Xingar alguém de “fascista” está na moda no Brasil, sobretudo por uma esquerda que se acha o monopólio das virtudes e detentora iluminada de um projeto para o “mundo melhor” com a fundação de um “novo homem” ao se revolucionar todas as tradições, culturas, religiões etc, isso quando não tentar extinguí-las.

Não é nada mais que parte da revolução cultural tão cara ao globalismo. Muitos dos que entram no barco são o que Lênin já chamava de idiota útil. Por isso dissociam o termo do real significado apenas para intimidar e tentar colar no outro a imagem de algo que é publicamente repudiável. Fazem isso ao mesmo tempo que defendem o comunismo e os regimes genocidas fruto deste.

É a velha crença de que se alterando uma infraestrutura e extinguindo o velho mundo se tem uma nova superestrutura com valores sustentados em um novo “deus”… Quase sempre o Estado. Tal crença é igual no fascismo, no comunismo e no nazismo. A diferença vai ser o “cerne” das ideologias como mostra Vladimir Tismaneanu, em O Diabo Na História, e Richard Overy em Os Ditadores.

Essas ideologias são postas travestidas de visões pseudo-científicas que vão das intervenções econômicas à estatolatria, passando pelos nefastos preconceitos raciais.

Todavia, é justamente essa “estatolatria” que o o facínora Benito Mussolini queria. Ele sonhava com o novo homem tão desprovido de individualidade que seria uma extensão do Estado e de uma “moral” construída por este. Então, quem mais se assemelha ao fascista? Os que querem menos ou mais Estado na vida do cidadão?

Não vou nem aqui falar de “Esquerda” e “Direita”. O que falo aqui é da mentalidade revolucionária e suas semelhanças. É a isto que o conservadorismo filosófico se opõe de imediato. Logo, é o oposto de fascismo, nazismo e comunismo.  O problema é que no Brasil é necessário desenhar e, logo em seguida, explicar o desenho. Em outras palavras, um tratado para dizer que a grama é verde, como bem frisou Chesterton. Winston Churchill foi ainda profético ao afirmar que os fascistas do futuro chamariam os outros de fascistas.

Claro que este não é o único critério para se definir o fascista, mas – sem sombra de dúvidas – o autoritarismo de querer impor uma visão de mundo por meio das forças estatais e do agigantamento do poder coercitivo destas é uma característica fascista. Ainda mais quando o Estado é utilizado para subverter tradições e crenças de um povo em um processo de revolução cultural que abriga tudo em uma bolha ideológica.

Então, a individualidade é desprezada e tudo é um coletivismo que ama o Estado e cultua um líder. Com o que parece mesmo?

Daí, tudo pelo Estado, para o Estado e com o Estado.

Eis uma das faces das ideologias seculares: sempre um novo “deus” traduzido no culto ao líder e insuflado pelos jargões propagandísticos que resumem a visão ideológica em “gritos de ordem”. Com o tempo, nem precisa muita explicação. Tudo se resume a vocábulos que são conduzidos ao sabor dos sentimentos histéricos e sem precisar muito da lógica.

Se você desafia alguns desses militantes revolucionários não se espante ao ouvir um “vá estudar!”, “não entende nada de História” e por aí vai. Mais jargões e mais jargões. Para os que estão presos em uma bolha ideológica, quando é mostrado um conhecimento que eles não possuem, é porque tal conhecimento simplesmente não existe, ainda que esteja logo ali ao alcance da mão e, muitas vezes, baste apenas abrir um mísero livro de História.

Embora seja realmente um termo que remeta ao nefasto – como todos os regimes abomináveis que se apoiam em ideologias seculares – o condenável fascismo não é um mero xingamento. É uma referência a um regime político a ser repudiado por todos aqueles que defendem as liberdades individuais e compreendem que uma moralidade não é fato de uma imposição estatal; bem como uma geração de homens não é uma folha em branco, mas também dialoga com o passado, com conquistas e erros e – entre estes – verdades que não se banham no rio do tempo, como diz o filósofo José Ortega y Gasset.

Para quem quiser saber como isso se processa na política atualmente, aconselho o livro Liberal Facism de Jonah Goldberg. Para os aspectos históricos, A Doutrina do Fascismo, publicado em 1932, pelo próprio Mussolini. Além deles, há uma biografia de Pierre Pizza que é interessante.

Retornando a Gasset e a busca filosófica pelo que não se banha no rio do tempo como algo contrário às mentalidades revolucionárias, podemos perguntar: “E por qual razão não se banha no rio do tempo?” Ora, é só observar o que há de atemporalidade nos escritos bíblicos, nas lições postas em cada parábola; na filosofia grega e suas questões levantadas; nos romances clássicos de um Dostoiévski, como quando o autor russo trata de culpa e redenção em Crime e Castigo.

Não importa o tempo, essas questões sempre estarão lá…sempre, sempre, sempre. Afinal, o tal “novo homem” é algo impossível. É como impor uma camisa de força. Toda imposição neste sentido acaba em tragédias, como mostra a própria História, com fascismo, nazismo e comunismo e tantas outras ideologias seculares.

É nesse sentido que o conservadorismo moderno – aquele de Edmund Burke ao analisar magistralmente A Revolução Francesa – não se universaliza como uma visão ideológica a ser aplicada indistintamente, pois dialoga com as tradições e culturas de cada comunidade, seguindo um princípio de subsidiariedade; entendendo que a complexidade humana e as diferenças nos homens vão para além de nossa visão restrita, como ensina o pensador Thomas Sowell em O Conflito de Visões.

Daí ser filosófico e não abrir mão da transcendência, como mostra Viktor Frankl, ao discutir o hiato ontológico, ou como mostra Gasset ao destacar as circunstâncias em que temos que superar em nossa própria trajetória.

A ideia de “paraíso na terra” que extirpe o mal sempre provocará tiranias pela força que emprega para combater o que tal “mal” significa para essa ideia. Dentro dessa concepção, o mal é relativo e a moral elástica, pois o compromisso primeiro é com a ideologia que lava a consciência no rio sujo da causa revolucionária.

É como relembra Robespierre afirmando que luta pelo povo…e o que não for povo deve ser extirpado. Logo na sequência, o próprio Robespierre define que povo é tudo aquilo que está ao seu lado. Ou seja…

Quanto ao fascismo, que é o tema inicial desse artigo, se buscarmos suas raízes, também vamos retornar à fonte das ideologias seculares. Não por acaso, seus pontos comuns visíveis e que alguns fazem questão de esquecer. Na Revolução Francesa, a vontade de um “novo mundo” e “um novo homem” era tanta que até o calendário antigo foi extinto num ataque direito às tradições e sobre tudo a visão do mundo em ANTES e DEPOIS de Cristo. Como se fosse possível extinguir o passado e transformar corações e mentes em folhas em branco, o que erroneamente foi defendido por Thomas Paine.

Percebam que vira e volta alguém que repensar o calendário. Já vi textos por aí falando em “Nova Era” e “Velha Era”. Quanta bobagem…

O modelo napoleônico também está recheado disso.

Por esta e outras razões que o ideólogo fascista italiano Curzio Malaparte tomou como exemplo de “conquista de poder” o golpe do Palácio de Inverno em São Petesburgo, mesmo com o fascismo depois tendo ações anticomunistas. Seu livro já tem, por si só, um título sugestivo: Técnica do Golpe de Estado. Nestas técnicas já estão presentes o abolir o passado, o reconstruir a História a partir de narrativas que conquistem o agora e o futuro.

Nesta obra, Malaparte estabeleceu regras para o sucesso eficaz de crescimento do Estado e esmagamento de individualidades com base nas ações bolcheviques. Por conta de Malaparte, o próprio Mussolini passou a estudar com afinco as ações do Exército Vermelho de Trotski, quando isolaram o governo provisório de Kerenski. Foi a inspiração da milícia que ficou conhecida como “camisas-pretas”.

Quem mostra isso de forma bem didática é o historiador Mark Almond.

Ao dissociar o termo da História e atribuí-lo a qualquer visão discordante sem sequer analisar o que essa visão prega, o que se faz é mexer com sentimentos, já que tais termos estão imediatamente associados ao autoritarismo e às tragédias da humanidade, como se comunistas fossem moralmente superiores aos fascistas. Não são! Porém, é preciso saber o que realmente esses termos significam.

A herança de Mussolini é o pensamento comunista com o qual rompeu sem abandonar totalmente a noção prática de revolução descrita por Lênin, que já se inspirava nos acontecimentos da França. Isso é História. A tese do ditador italiano era de que não se teria uma organização de massa na Itália sem as estratégias que a esquerda radical usava.

Assim, em 1919, fundou o próprio movimento político que combinou críticas às elites com um discurso anticomunista violento, e tomou como ideal a “antiga grandeza romana”. Sem esses detalhes da História, não se vai ao gênesis da coisa e se cria um binarismo superficial simplesmente para xingar adversários. Por fim, sem entender que toda ideologia secular tem a mesma gênesis produto do Iluminismo Radical, como explica o historiador Jonathan Israel.

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