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O ATANÁSIO BRASILEIRO: DOM MANUEL PESTANA FILHO

 


Tive a oportunidade de conviver durante muitos anos com Dom Manoel Pestana Filho, Bispo de Anápolis-GO. Me aconselhou a não seguir a vida religiosa por não gostar de acordar cedo, não tomar banho de água fria, por ser curioso demais e principalmente por gostar muito de política, foi meu confessor e diretor espiritual.

Era pequeno no tamanho com seus diminutos 1,58 centímetros de altura sempre usando uma batina negra surrada, que esvoaça sobre a calça e os sapatos velhos também negros, com uma camisa branca de mangas compridas sempre com uma larga cruz de madeira, que pendia um pouco abaixo do peito.

Homem erudito com uma vasta biblioteca me presentou com inúmeros livros de teologia, filosofia e política, seu livro de cabeceira era A Divina Comédia, de Dante.

Prefaciou diversos livros entre os quais “Um Exorcista Conta-nos”, do Pe. Gabriele Amorth e assinalou: “Papa Paulo VI queixa-se da fumaça de Satanás dentro do templo, quase a ocupar o espaço do incenso esquecido, e amargura-se com a autodemolição da Igreja. Os seminários desaparecem, a teologia prostitui-se em cátedras de iniquidade, a liturgia reduz-se, com certa frequência, a uma feira irrelevante de banalidades folclóricas. A pretexto de inculturação, a vida religiosa desliza para o abismo”.

Poliglota, dominava o latim, o espanhol, o francês, o inglês, o italiano conhecia o grego e se virava no alemão escrito. Era profundamente bem-humorado, brincava dizendo que tinha mais unção dos enfermos do que UTIs, 5 x 4. Perguntado se a batina fazia calor, respondia com gargalhadas que o inferno era mais quente. Certa vez numa Assembleia dos Bispos em Itaici-SP um colega escreveu na lousa: O urubu chegou – ele respondeu: não é por falta de carniça.

Era devotíssimo de Nossa Senhora de Fátima dizia que era mais fácil pedir a Deus-Pai por meio dela, afinal ela falava a língua portuguesa. Sua família descendia da Ilha da Madeira, no Norte da África.

Com 24 anos foi ordenado na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, no dia 5 de outubro de 1952. Dois dias depois, no dia 7 de outubro, celebrou a primeira missa na mesma basílica.

Sua nomeação episcopal foi em 30 de novembro de 1978, sendo ordenado em 18 de fevereiro de 1979, em Santos – SP.
Tomou posse em 11 de março de 1979. Foi administrador apostólico de Anápolis por 25 anos e meio, até 09 de junho de 2004. Foi nomeado Bispo Emérito em 14 de agosto de 2004.

Utilizou o lema episcopal “In Te Projectus” tirado do Salmo 21, v. 11, e que poderia ser traduzido: eu fui arremessado (lançado) para Vós (ó Senhor).

Foi Coadjutor de São Vicente Mártir, Santos – SP (1953-1959), professor (1955-1971) e Diretor (1960-1971) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santos – SP, Assistente de JEC, JUC, Cursilhos e ENS, Santos – SP.
Professor (1972-1978) e Diretor da CECA (1974-1978) da Universidade Católica de Petrópolis – RJ, Assistente dos Cursilhos, ECC e Pastoral Universitária, Petrópolis – RJ, professor de curso de filosofia no Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro – RJ (1974-1978).

Foi o responsável pela Pastoral Familiar do Centro Oeste da CNBB, professor do Seminário Maior Diocesano e do Institutum Sapientiae do Mosteiro de Santa Cruz, professor da Faculdade de Filosofia de São Miguel Arcanjo, Anápolis – GO, professor do Instituto Católico de Teologia Sto. Tomás de Aquino, Anápolis – GO comandava o Programa semanal “A voz do bispo” nas rádios São Francisco e Voz da Imaculada, Anápolis – GO e apresentava o Programa semanal “Cristo em sua vida”, na TV Tocantins.

Fez vir da Europa os Cônegos Regulares da Santa Cruz, que construíram o Mosteiro onde os seminaristas da diocese de Anápolis receberam e ainda recebem sólida formação intelectual. Publicou o livro “Igreja Doméstica” pela Editora Loyola, 1980.

Em sua prática pastoral, adotava o lema do grande reformador São Carlos Borromeu: “omnia videre, multa tolerare, pauca corrigere” (ver todas as coisas, tolerar muitas, corrigir poucas).

Foi um crítico contumaz da teologia da libertação e afirmava que a falsa teologia esvaziou o dogma de tal maneira, que só restou à sociologia, a psicologia e a guerrilha. Trocaram a fundamentação das Escrituras pelo dogma marxista, afirmava que fizeram a opção preferencial pelos pobres, e os pobres não optaram pela Igreja.

Ao comentar a obra de Renan dizia: “um castelo de esterco, mesmo sendo de esterco, é um castelo e pode ter muita coisa bonita. A maior biografia de Cristo, sem dúvida alguma, é a de Ricciotti, A Vida de Jesus. Quem quiser um livro mais literário sobre Jesus, e também sério, deve ler Plínio Salgado”.

Na última vez que estive com ele comprometeu-se a fazer um prefácio da edição portuguesa da “Vida de Jesus de Plínio Salgado”.

Repetia insistentemente que: as nossas igrejas terão sempre, enquanto permitirmos, alguém à espera dos abalados na fé, dos que perderam a esperança e o rumo na vida, para confiar-nos, a qualquer momento, sem cansar: “Eu sou o Caminho (para os perdidos), a Verdade (para os enganados), a Vida (para os agonizantes, à falta de Amor e solidariedade)”.

Certa vez Dom Marcos Barbosa o apelidou de “Novo Santo Atanásio” que foi o sucessor do bispo de Alexandria, jovem com 31 anos, e dirigiu a Igreja de Alexandria por 46 anos, período de muito sofrimento e perseguição. Os arianos não lhe deram descanso e, com o apoio do imperador, espalharam muitas calúnias contra Atanásio, que por cinco vezes teve de fugir de sua sede episcopal.

Refugiava-se no deserto onde conheceu e conviveu com o grande Santo Antão. Durante cinco anos ficou lá escondido, saindo somente à noite para dirigir sua igreja e consolar seus fiéis. Atanásio foi firme e inquebrantável com seus numerosos escritos.

Faleceu aos 77 anos reconhecido por seu trabalho, fidelidade e fundamentais obras escritas para a Santa Igreja. Foi declarado Doutor da Igreja.

Entre os 84 padres ordenados por Dom Pestana, um era bispo e curiosamente se chama Atanásio: É Dom Atanásio Schneider, Bispo auxiliar em Karaganda, Casaquistão.

Certa vez no Seminário Maria Mater Ecclesiae do Brasil dos Legionários de Cristo disse: “Salvar uma alma na marca do pênalti, na hora da morte, é uma graça indizível para nós sacerdotes. Batizar uma criança e santificá-la tornando-a filha de Deus, igualmente é maravilhoso, assim como unir um casal à Deus. Mas formar sacerdotes, meus caros irmãos legionários, é a maior obra de salvação que podeis fazer! Muito obrigado!”

Tinha especial dedicação ao sacramento da confissão onde instituiu um plantão permanente na Catedral e para servir de exemplo tinha o seu horário e também entrava na fila.

Antes de falecer esteve em Roma e Portugal onde proferiu palestras, na cadeira de rodas.  Foi considerado pelo papa São João Paulo II “o bispo mais atuante do mundo”.

Ficou célebre a conferência em Roma, em 7 de maio de 2010 a respeito de Fátima e apresenta o livro de Monsenhor Gherardini – Concilio Vaticano II terminando com as seguintes palavras:

“Mas Dom Pestana, o senhor tem que entender que não podemos perder tempo […] com uma batalha perdida. O aborto vem! Como veio para quase todas as nações. Não se pode perder tempo com essas coisas”. E eu disse: “Excelência, Deus não te julga se ganhamos ou não a batalha, mas se lutamos e se lutamos bem”. E assim penso que vocês estão fazendo, e por isso estou aqui com a alma renovada, encorajado […] mesmo com o meu joelho com duas placas de metal.

Deve-se pensar nisso: eu devo lutar. […]. Sempre recordo de uma estória, e gosto de contar estorinhas […] para ensinar o catecismo. Um elefante corria na África e, de repente, uma formiga na sua orelha lhe diz: “Elefante, olhe para trás, veja quanta poeira estamos fazendo”. Nós estamos fazendo. E pensamos que somos nós que estamos fazendo. E por isso o personalismo no apostolado é um grande perigo. É Deus quem faz, e só quando os homens se convencerem que Deus faz aquilo que nós fazemos é que acreditarão em nós.”.

Sua jaculatória preferida era “Coração Imaculada de Maria, livrai o Brasil da maldição do aborto”.

No meu casamento enviou a seguinte mensagem: “Queridos nubentes, que a Sagrada Família seja fonte permanente do seu lar, tenhais São José como inspirador e Nossa Senhora como modelo, que Deus os presenteiem com a dádiva dos filhos, e lembrem-se todas as vezes que forem ao Templo e a luz do sacrário estiver acesa, sabemos que Alguém nos espera. – o Cristo, Rei!!

No dia 8 de janeiro de 2011, num sábado, Dom Pestana faleceu no convento das irmãs da Toca de Assis, em Santos (SP), sua terra natal, em um retiro pró-vida, vítima de um enfarto do miocárdio, dormindo como várias vezes vaticinou: “Peçais para morrer dormindo igual a São José nos braços de Jesus acompanhado de Nossa Senhora”.

Sobre o Colunista

Paulo Fernando

Paulo Fernando

Advogado, professor de Direito Constitucional e Eleitoral para concursos públicos nos principais cursos preparatórios do DF e ministra aulas no curso de Pós-Graduação em Assessoria Parlamentar no Centro Universitário do Distrito Federal (UDF).

7 Comentários

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  • Boa tarde, o termo correto é “jaculatória”, na frase: ‘Sua ejaculatória preferida era “Coração Imaculada de Maria, livrai o Brasil da maldição do aborto”.’

  • Don Manuel Pestana Filho, servo de Deus que teve coragem de combater a origem do mal na Santa Igreja Católica: concílio vaticano II e seu filho primogênito igualmente nefasto, a teologia da libertação.
    Congratulações pela excelência do texto. Bravo!

  • Vcs teologos estudem isso JESUS CRISTO EH EMANUEL O PRINCIPE DA PAZ
    E ELE EH MEU IRMÃO ELE EH FILHO DO HOMEM Q AVISA OS PROFETAS PRA PROFETIZZAR ELE EH NOSSO PAI CELESTIAL
    DEUS FEZ O HOMEM A IMAGEM POR FORA E DA DISPLINA E A FEH EH A SEMELHAÇA DO Q ELE DESEJAMOS EH Q SEJAMOS SANTOS EM MEIO A ANGUSTIA
    E ISRAEL EH SERVO VCS NAO SABEM NADA

  • DEUS EH NOSSO PAI CELESTIAL Q DO TRONO NO CEU DOS CEUS FEZ TODOS OS MILAGRES ELE TEM IMAGEM DE HOMEM
    POR ISSO O PRINCIPE DA PAZ EH FILHO DO HOMEM E EU SOU SERVO DO PAI CELESTIAL PRA SER TESTEMUNHA DO PAI DO FILHO E DO ESPIRRITO SANTO

  • Como “Santo Atanásio brasileiro” eu conheço por essa alcunha o grande Dom Antônio de Castro Mayer, cuja biografia se parece bem mais com a de Santo Atanásio.

    Até mesmo pela perseguição que sofreu, chegando a ser execrado por João Paulo II (em um processo de excomunhão irregular) por tido a coragem de ajudar Dom Marcel Lefebvre.

    Esses dois grandes Bispos, diferentemente dos chamados “conservadores”, atacavam não os efeitos mas as causas da crise no clero, que é o liberalismo.

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