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O cisco e a viga, ou: as lambanças de cada um

Luiz Astorga
 


Diz a sabedoria dos tempos que “à esposa de César não basta ser honesta, há também que parecer honesta.” Poucos ditados são tão verdadeiros e úteis na política quanto este, que ensina como a prudência deve dar a última palavra sobre as ações humanas, e valorá-las não apenas segundo a regra universal, mas segundo as circunstâncias particulares. A promoção de Antônio Rossell Mourão à assessoria da presidência do Banco do Brasil foi um exemplo de como é funesto esquecer esse ensinamento. A princípio não questiono aqui a sinceridade do vice-presidente – que se sacrificou pessoalmente pelo Brasil em meio ao caos moral e institucional do governo Dilma – e concedo que, como ele diz, seu filho possa ter mérito para o cargo recém-ocupado, e que pudesse estar sendo prejudicado na carreira pela conjuntura anterior. No entanto, a reação pública e midiática era mais do que previsível, devido ao momento político que agora vivemos.

É claro que preferiríamos que se houvesse rejeitado a promoção, por inspiração no exemplo de um Lauro Castello Branco, que devolveu o carro que ganhou de seus colegas de trabalho na Fazenda Nacional, ou de um Carlos Lacerda, que ao tornar-se governador demitiu a própria mãe (professora de escola pública) para evitar qualquer oportunidade de suspeita de favorecimento ilícito. Mas contentar-se apenas com a perfeição é a receita para o desapontamento; lambanças ocorreram, lambanças ocorrerão.

O que me causa espécie – e dá título a esta coluna – é uma situação muito peculiar, à qual o leitor deve estar alerta, pois nela se encontrará muitas vezes durante estes quatro anos que nos esperam. Quando, nesta situação-exemplo que citamos, uma má ação é alardeada para além do senso das proporções, é natural que nos levantemos e digamos: mas e os outros governos? Quantas promoções do filho do Mourão nos custou apenas o rombo da refinaria de Pasadena, por exemplo? Ao contrário, quantas promoções não foram economizadas num único sábado em que jatinhos do GPE permaneceram no chão de Brasília em vez de virar táxi privado de políticos? É claro que esperamos mais do governo atual do que daqueles em que funcionários de zoológico viravam megafazendeiros por causa de sua filiação, e por isso é mais decepcionante cumprir o dever de criticá-lo sempre que mereça, mas isso não pode tentar-nos a perder o senso das proporções.

E eis que nos fazem reféns da seguinte camisa-de-força moral: a de que estaríamos relativizando a gravidade de uma má ação – ou até negando sua maldade – ao dizermos que o “outro lado” fez coisa semelhante, e que portanto estaria tudo bem. Eis a acusação de hipocrisia.

O primeiro dos erros nesta acusação é o seguinte: ao fazermos uma comparação, não negamos que uma ação tenha sido má; este atributo nefasto está devidamente notado e registrado. O segundo erro é que não está “tudo bem”; é fundamental pressionar nossos representantes (sobretudo os que apoiamos) para coibir ações ruins. O terceiro deles é que comparar não é vexatório, mas, ao contrário, necessário para pôr as ações em contexto – mais precisamente no contexto das outras que a precederam – e é portanto parte crucial (e obviamente lícita) de nosso processo decisório: quem apoiar, quem preferir, qual o menor mal. Quem julga sem comparar julga sem observar as proporções entre as coisas, e quem julga sem essas proporções o faz sem justiça.

Uma vantagem adicional de preservar o devido senso das proporções é poder ver através da cortina de fumaça da grande mídia e semelhantes formadores de opinião, que ocultaram sistematicamente atos de gravidade muito maior e hoje denunciam como catástrofe uma metáfora boba acerca da ideologia de gênero, por exemplo. Seu real objetivo não é o de apontar injustiças ou falhas onde quer que estejam, mas o de destruir um alvo específico.

Portanto, se algo posso deixar de conselho, seja isto: numa discussão, esteja alerta quando for proibido de comparar. A defesa de que não se devem comparar lambanças invariavelmente surge do lado que coleciona mais e maiores lambanças. Ao mesmo tempo e inversamente, em qualquer exercício dialético, avalie sua situação sempre que se sentir tentado a usar esta defesa. Ela é um tiro no pé, pois indica que você muito provavelmente já está do lado errado  – ou mais errado – em primeiro lugar.

Sobre o Colunista

Luiz Astorga

Luiz Astorga

Luiz Astorga é professor, tradutor e doutor em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Chile.

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