O Eterno marido



Por: Juliana Gurgel

O romance ‘O Eterno marido’, de Dostoievski, é centrado em dois personagens: o marido, Trussótski e o amante, Veltchanínov. O autor nos indica a índole e papel de cada um quando nos revela a origem e significado dos nomes, Trussótski deriva da palavra russa trus, que significa “covarde” e Veltchanínov, procede da raíz velíki, que significa “grande”, “poderoso”.

A história se passa em Petersburgo, no verão de 1869, quando acompanhamos o reencontro de Veltchanínov com Trussótski, após nove anos desde a última vez em que se viram. Veltchanínov tivera um caso e fora apaixonado por Natália Vassilieva, a esposa de Trussótski.

Esse encontro dá origem a situações compreensivelmente constrangedoras e embates violentos por parte dos personagens. É curioso notar como os dois cavalheiros sentem-se ligados, é como se o fato de terem sido amados e desprezados pela mesma mulher os unisse.

O reencontro faz emergir lembranças e Veltchanínov volta a pensar em Natália, após “quase conseguir” esquecê-la (como acreditava); ao recordar sua personalidade sedutora, decidida e dominadora, constata ser ela “uma dessas mulheres, que parecem ter nascido para serem esposas infiéis”. Mas o amante discerne que, ela não era simplesmente uma devassa, afinal, o comportamento reprovável e as inúmeras traições, só tiveram início após o casamento, ou seja, era o tipo de mulher que para ser infiel, precisa antes, ser esposa.

Para isso, portanto, era necessário um determinado tipo de marido, um marido “acessório”, os “eternos maridos”, cuja função primordial era casar-se com esse tipo de mulher e manter-se sempre como um ornamento.

É uma tentativa inócua desenvolver empatia por algum dos dois personagens. Vejamos, leksiéi Ivânovitch Veltchanímov, atraía a atenção das mulheres, possuía educação aristocrática e até mesmo uma graciosidade, mas, como uma espécie de Dorian Grey, foi ficando cínico como resultado de comportamentos passados. Em um determinando momento, ele revisita cenas em que ofendia pessoas e saía impune, como quando humilhou um “velhote”, que ao sair em defesa da filha, acabou por chorar e soluçar diante de todos, tentando cobrir o rosto com as mãos. Já Páviel Pávlovitch Trussótski, sentia um fascínio por Veltchanímov, afinal, ele era tudo o que gostaria de ser, agradável, atraente e interessante. Trussótski não possuía atrativos, aliás, era mais do tipo que causava repulsa. Tinha em seu favor a estabilidade da herança e emprego, mas caso perdesse a referência de ser um marido, sua figura masculina era destruída, sem a função marido, não possuía parâmetro como indivíduo.

A única personagem realmente inocente e digna de compaixão, é a filha de Natália, Liza. Liza é uma criança de oito anos, que ao invés de estar brincando e sendo protegida por seu pai, é trancada sozinha em um quarto de hotel, para que ele possa beber sossegado e passar a noite fora envolvido em algum confuso plano de vingança.

Nenhuma criança deveria ter o ar triste. Liza merecia ser protegida, mas não foi. Quando Veltchanímov tenta levar a menina para a casa de amigos próximos, sentindo que cuidar desta criança era sua função maior, ele não percebe que Liza não o conhece e que lhe fere o coração perceber que seu pai sente-se aliviado ao vê-la sob responsabilidade de outro.

Quando Liza, é enviada para a casa de desconhecidos, a tristeza do abandono excede a capacidade de sua curta existência. Trussótski quebra a promessa e não vai visitá-la. Liza, que já era uma criança pequena, definha por extensos 10 dias, desiste de viver e morre sem rever o pai. Em sua última noite de lucidez, Veltchanímov sai transtornado em busca de Trussótski, como não o encontra, volta para perto de Liza, que ardendo em febre vê que seu pai não foi vê-la, ‘sem aparentar surpresa, sorri amargurada e vira a cabecinha para a parede’.

Quem acompanhou a história da esposa, do marido e do amante, soube desde o início que Liza não era filha de Trussótski, e sim de Veltchanímov. O pai de criação, aquele que esteve presente por oito anos ao lado da criança, como sendo sua própria filha, teve a sordidez de utilizar a própria filha, para ferir o amante de sua esposa e retroativamente, como se fosse possível, a própria esposa.

Veltchanímov só descobriu a existência de sua filha ao vê-la, e naquele momento sentiu que tinha encontrado um propósito para a sua vida: dedicar-se à Liza, a criança seria sua redenção. No entanto, a história acaba sem redenções. O marido volta ao único papel que sabe desemprenhar, o de “acessório” caro; já o amante, fica sem a amada, sem a filha e sem um sentido para sua existência.

Sobre o Colunista

Juliana Gurgel

Juliana Gurgel

Católica, produtora, doutora em artes da cena, professora e aikidoista.

5 Comentários

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  • Bom dia .
    o interessante é que já naquela época, e a bem da verdade há muitos séculos e milênios, era e é retratada cm frequencia por bons artistas, de literatura e outras artes, o fato de que não, a mulher não é sempre vítima ou boazinha , coitadinha, heroína, como querem as falsas e falaciosas feministopatas.
    Sim, a mulher é um ser humano como o homem, e se não tivermos Deus e os princípios cristãos, de amor, fidelidade , compaixão, dentro de nós, não somos… nada.
    Apenas torci para que se essa história horrível toda tiver sido baseada em algo de verdade, que a criança nem tenha ficado sabendo desse drama horrível em que essa mulher a colocou… e seus partícipes também.

    Bom, Juliana! Conte outra história? 😉

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