O fracasso da Economia, sob a ótica dos Administradores



A retomada da atividade econômica não depende apenas da Previdência. Existem outras frentes ainda mais importantes.

Por Guilherme G. Villani

O austríaco radicado nos EUA Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, considerava que os cinco principais indicadores do desempenho empresarial seriam: 1) posição de mercado; 2) inovação; 3) produtividade; 4) fluxo de caixa e; 5) lucratividade.

É isso mesmo, o fluxo de caixa está entre os cinco primeiros.

Drucker dizia que o aumento no capital de giro indica que o fluxo de caixa foi suficiente para atender às necessidades de caixa do negócio. Um fluxo de caixa líquido negativo, como indicado por uma diminuição no capital de giro, é uma situação que não é sustentável e requer atenção do administrador.

O Capital de Giro, é aquele que faz “girar” todo o Capital Fixo investido no negócio: edifícios, máquinas e equipamentos.

O principal administrador brasileiro que estuda o tema é o professor da FEA/USP Stephen Kanitz , que afirma:

“Uma das razões das nossas recessões serem muito mais prolongadas do que as outras, é a falta de capital de giro para girar os equipamentos ociosos.”

Em seu artigo de 2004 “O fim das pequenas empresas”, Kanitz já apontava:

“De 20 anos para cá, além de aumentarem os impostos, reduziram os prazos de pagamento desses impostos de 120 para 15 dias. Hoje, as empresas precisam pagar 40% de sua receita ao governo antes de receber de seus clientes. O capital de giro dessas empresas sumiu; em vez de financiar a produção, financia o governo.

Não é a economia informal que está crescendo, é a economia formal e a classe média que vêm sendo destruídas, e rapidamente.”

Em 2017 o empresário e administrador Alexis Fonteyne, hoje deputado federal pelo NOVO-SP, fez um elucidativo vídeo de como as pequenas e médias empresas financiam as grandes empresas e o governo.

 

O problema da falta de capital de giro se transforma em uma tragédia anunciada quando as empresas, na necessidade de antecipação de recebíveis, descontam suas duplicatas a juros estratosféricos. Ou seja, perdem um alto percentual da receita por uma insuficiência de caixa (capital de giro).

Paulo Guedes está concentrando seus esforços na Reforma da Previdência, o que é legítimo, pois será ela quem estabilizará os juros de longo prazo e proporcionará potência fiscal para o Estado brasileiro voltar a investir. No entanto precisa preparar a Reforma Tributária para este ano, com igual urgência.

Do ponto de vista microeconômico, a Reforma da Previdência retirará recursos do consumo, visto que os aposentados são a parcela da população com a maior propensão de consumo de sua renda.

Pode-se afirmar portanto que a curto prazo a reforma será contra-cíclica para a atividade econômica e apenas salvadora para os gatos gordos aposentados do funcionalismo.

 

O PASSADO ENSINA

O período pré-1964 é muito parecido com o pré-2016: 1) instabilidade política; 2) inflação galopante; 3) excesso de subsídios; 4) juros altos.

O período entre 1964 e 1967 e os recentes 2016-18 também são: 1) normalização institucional; 2) redução de subsídios; 3) redução da inflação e dos juros.

Mas infelizmente ambos falharam em retomar o crescimento econômico.

Foi preciso em 1968, através das medidas fiscais e tributárias do Decreto 401 tomadas pelo contabilista e economista Delfim Netto para que o país reencontrasse o caminho do crescimento.

Sim, Delfim Netto é antes de tudo um contabilista formado na Escola Técnica de Comércio.

Na dissertação de mestrado de Felipe Marineli, O pensamento de Antônio Delfim Netto e o milagre econômico brasileiro (1968-73)” ele aponta a percepção de Delfim sobre as dificuldades do setor privado:

 

Embora a Selic já tenha caído recentemente, os spreads bancários no Brasil continuam elevadíssimos. E os impostos sobre o consumo exorbitantes.

 

Essa era a mesma situação pré-1968.

Então o Decreto 401 promoveu medidas duríssimas na progressão do Imposto de Renda para pessoas físicas mas com diferenciação para assalariados (CLT) e deduções altas por dependentes, inclusive para contribuintes que educassem crianças pobres. Além da redução de impostos sobre consumo. 

 

Para recompor o caixa das empresas, adotou medidas que permitiram às empresas o abatimento da importância correspondente à manutenção do capital de giro no cálculo do imposto de renda devido.

Art 19. A partir do exercício financeiro de 1969, ano-base de 1968, para o cálculo do imposto de renda, será facultada às pessoas jurídicas abater do lucro tributável, a importância correspondente à manutenção do capital de giro próprio, durante o período-base da declaração.

Também aumentou os prazos de recolhimento dos impostos indiretos. Esse instrumento foi manipulado com alguma seletividade, concedendo prazos máximos para setores debilitados ou prioritários.  Para a maioria dos setores industriais, concedeu-se um prazo de 60 dias (jan./70), ampliado sucessivamente para 75 dias (maio/70) e, por fim, 90 dias (fev./71). O que foi chamado de ” financiamento do capital de giro a custo zero” se tratava de justiça tributária.  O empreendedor só recolhia os impostos após efetivamente vender e receber pelos produtos/serviços.

 

Mais Capital de Giro => Menor necessidade de empréstimos e antecipações de recebíveis => Menor Juros/Spread => Mais Lucratividade => Mais reinvestimento => Maior crescimento da economia 

 

Embora relegada, esta questão é extremamente atual. Steve Bannon, um administrador formado na Harvard, neste vídeo a partir do 1m30s reconhece que o principal problema da quebra do Lehman Brothers em 2008 era que o banco era o maior financiador de capital de giro dos EUA.

Portanto salvar o sistema bancário de financiamento de capital de giro seria salvar toda a economia norte-americana.

Infelizmente o sistema bancário brasileiro não financia adequadamente o capital de giro, pois não há mais garantias das empresas a serem concedidas.

 

AOS ECONOMISTAS

Seria de bom tom que, independente se liberais, keynesianos, estruturalistas e etc, economistas do governo ouvissem o que empreendedores e administradores precisam para colocar para “girar” suas máquinas paradas depois dos anos de recessão e lento crescimento.

O capital de giro foi embora por conta de todos os custos de demissão e manutenção dos custos fixos em tempos de vacas magras.

A complexidade tributária e sanha arrecadadora torna cada vez mais desestimulante a atividade empresarial no Brasil, especialmente para os pequenos e médios empresários.

Não adianta o governo querer – com a Reforma da Previdência – salvar o Estado e suas aposentadorias públicas nababescas e se esquecer que toda a fonte de renda provém de quem realmente gera riqueza para o país: o empreendedor. 

Do contrário é melhor já irem se acostumando com esse tipo de manchete:

E pode piorar.

 

 

 

Fontes: 

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del0401.htm

Como Salvar as Pequenas e Médias Empresas?

Capital de Giro Sobre Receitas das Maiores Empresas Brasileiras


http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-30012018-191648/pt-br.php

https://crbm1.gov.br/bio59/opniao_59.asp

 

https://www.youtube.com/watch?v=9KrD_WKcSuY&feature=youtu.be

Sobre o Colunista

Guilherme Galvão Villani

Guilherme Galvão Villani

Mariliense. Gosto pela Administração, Contabilidade e Finanças. Atua em Mercados de Capitais. Agente Autônomo de Investimentos.

14 Comentários

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  • Excelente! Deveria ser para o Paulo Guedes o que o Olavo de Carvalho é para o Bolsonaro, para auxiliar o governo a manter o rumo certo e fazer as coisas na hora certa. Espero que seja bem aproveitado no momento adequado, pois qualquer movimento extra no presente atrapalharia todo e qualquer trabalho junto ao congresso pois a pilantragem usa de qualquer artifício e desculpa para evitar a aprovação da reforma da previdência.

  • Artigo excelente. É exatamente isso mesmo. Capital de giro é importantíssimo. A reforma tributária tem que vir pra ontem.

  • Acho que se terminarmos esse ano com a Reforma da Previdência aprovada, dentro do que o Paulo Guedes e sua equipe prepararam e uma reforma tributaria bem encaminhada seria um bom ano economicamente falando. Do jeito que as coisas andam devagar no nosso legislativo é difícil pensar em duas reformas tão importantes no mesmo ano.

  • Delfim Netto sim! – era um liberal de verdade. Reduziu os impostos indiretos e aumentou a progressividade dos diretos. Do jeito que tem que ser.
    Bem diferente do suposto liberal Alexandre Borges, da Jovem Pan, que recentemente manifestou seu desapreço pelo imposto de renda e chegou ao cúmulo de dizer que o melhor tipo de imposto são os impostos indiretos (embutidos nos preços dos produtos). Que porcaria de comentarista é esse? Não sabe ele que os tributos indiretos são intrinsecamente regressivos, ou seja, pesam mais sobre os mais pobres que sobre os mais ricos? Pelo visto, o Brasil regrediu muito do tempo dos militares para cá.

  • Você esqueceu de comentar que as empresas pagam imposto antes de receber as mercadorias para vender com a substituição tributária do icms.
    Tem estado que cobra a diferença entre o icms calculado e valor que foi vendido a maior, porém quando tem diferença a menor o estado não aceita a compensação. Exemplo claro de enriquecimento sem causa.

  • O Paulo Guedes foi perguntado esta semana (4/jun) pelo Dep. Alexis Fonteyne sobre esta questão.

    A pergunta é feita no 4h22m e a resposta ocorre no 5h39m25s

    https://www.youtube.com/watch?v=–s7zXub78o&feature=youtu.be&fbclid=IwAR3Bj_pcrq2T5jyLNhrETgEGNdYrxmboxHcusaJ2kPp-QW5itBMIk88-gVE

    É bem chato afirmar isto, mas o Paulo Guedes mostrou que não entende das empresas do mundo real e que não passa de um bom economista de mercado financeiro.

    Não tem idéia o que é Capital de Giro Próprio. E portanto não caiu a ficha que o pagamento dos impostos apenas no recebimento da venda seria de grande importância para as empresas.

    Não consigo ser otimista com este país…

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