O necessário fim da ingenuidade na política



O problema atual, não só do Brasil, passa por entender a divisão dos 3 poderes de Montesquieu como uma conclusão ignorando a evolução do direito Romano como proposto pelo Conselheiro João José Pinto Jr em 1888, no Recife.

Desconectar estes conhecimentos é a receita do caos.
Montesquieu é genuinamente o primeiro a tocar o dedo na ferida: não é o direito privado o problema, este está pronto após a 4a fase do Império Romano e sua respectiva queda.

O problema é essencialmente o direito público.
A questão “quem legisla os legisladores”, está para o ponto nevrálgico da história contemporânea como a cura do câncer ou da AIDS: as perspectivas são remotas e o horizonte desanimador.
O sistema de freios e contrapesos é social e geometricamente bem elaborado, ninguém duvide; no entanto, ignora o elemento humano.

É a primeira falha catastrófica de proporções globais de um pensamento leigo aplicado.
Idealizado como um algoritmo computacional ou engenharia elétrica, não atende aos anseios humanos completamente.

É bom sim, como termo de passagem, como capítulo da evolução filosófico-política; mas em momento algum como definição.
Por questões óbvias e auto-evidentes, oriundas da alma humana, jamais ignoradas por um filósofo autêntico, o sistema de Montesquieu falha, anda capengo, mas indica o caminho.
Se ninguém ignoraria Dostoiévski no século XIX, a camada leiga que se instalou após a revolução francesa, como obrigação política nos faz separar hoje autores como Theodore Dalrymple.

Guardadas as devidas proporções, trata-se da mesma coisa: a alma humana, por trás de decisões.
Dostoiévski nos premiou com o horrível “Memórias do Subsolo”, que nos faz ainda hoje olhar pra dentro e reconhecer: há um lado meu que é exatamente como o protagonista deste livro, no mínimo desprezível.

Um espelho confessional íntimo que causa pânico silencioso e irreversível.
Dalrymple vai na mesma linha, mas bate com menos pessoalidade.

O erro em si é separar estes homens e obras, quando se trata de esquematizar e/ou idealizar a gestão de um estado.
Por que, esta digressão levada a sério em Sócrates em Oikos Nomos, buscando as motivações da alma para elaborar uma tese econômica, foi então ignorada?

A barbárie de quaisquer filósofos atuais, passa pela petulância leiga que amputa a humanidade de seu aspecto metafísico.
Ignorada a alma humana, sistematizada a política, o ideal do direito público ouve nos bastidores: “tenho que atender interesses!” e o público grita indignado: “é tudo jogo de interesses!”

Oras, tais homens avisaram tudo isso antes e foram sistematicamente ignorados.
É claro que Montesquieu contribuiu muito, demais.

Mas obviamente, está na hora de aparecer alguém que não ignore as motivações humanas ao enquadrar o estado moderno ao remodelá-lo.

Isto deve acontecer em aproximadamente um século, calculo.
É igualmente óbvio que o valor do personagem do político precisa com urgência absoluta, cair, peremptoriamente.

Tudo feito por homens, com alma, está desde sempre sob suspeição.

Prefiro até a malícia de um Maquiavel à ingenuidade de um Montesquieu.
Talvez, uma nova política passe por balancear as pontuações do Príncipe e dos Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio, com a obra de Erasmo de Rotterdã.

Rotterdã que, embora cristão, de inocente e ingênuo nada tinha.

Acho que é esta a linha.

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

3 Comentários

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  • @RicardoRoveran , bonito texto, foi você quem escreveu, afinal você é filósofo, não é (jornalista tenho minhas dúvidas)? O problema que eu vejo é que Nicolau Maquiavel escreveu seus pensamentos num contexto histórico completamente diferente do nosso, os pensamentos dele podem ser que não se apliquem e/ou se repliquem no Brasil atual. Esse negócio de “Os fins justificam os meios” de O Príncipe parece que não pega muito bem aqui, especialmente se descoberto e pego! Se quiser ser filósofo do Brasil, você terá que praticamente jogar tudo isso fora, observar o que acontece à sua volta aqui e criar uma nova Filosofia, com novos pensamentos, pois os Brasil e os brasileiros tem características próprias. 😉

  • Toda filosofia possui dentro de si mesma, dois grupos de admiradores, duas partes a saber: os exotéricos, são aqueles que dizem o que é dito ao povo, a visão geral do sistema e possui também os esótericos, aquela camada mais culta, que planeja os juízos de valor que serão cultivados, entre si mesmos e quais deles poderão ser publicados na “IMPRENSA”.
    O problema da socieade brasileira atual é a destruição do processo educacional, não fabricamos pensadores, importamos lixo de sistemas falidos e decadentes do mundo, temos preguiça de pensar e na maior parte do tempo, o que se vê nas discussões, são formas de ofensa, primeiro à própria língua, que não foi apreendida corretamente e que foi desfigurada por uma classe política retrógrada, colonial e subversiva!
    Nossa realidade social e política pede um sistema de pensamento novo, que honre literalmente tudo que aprendemos sobre a vida, o modelo de sociedade de consumo escravagista, não atende às demandas do futuro, precisamos de um forum, não o de São PAULO, aquela latrina, que insiste em determinar como as pessoas devem pensar!
    Tudo começa com a IMPRENSA LIVRE!
    O primeiro embate com os poderes instituídos foi magnânimo! Vimos a escória retrógrada ser demolida, com argumentos claros e objetivos, a promoção e a discussão de sistemas de pensamento, é uma inovação na mídia brasileira que precisa evoluir, deixar de ser um mero balcão formador de opinião, para ser um fomentador do desenvolvimento artístico e intelectual.
    Vamos ler !

  • Excelente texto. Mas, eu digo uma coisa: quer destruir os Comunistas? Então, fortaleça os valores cristãos e a família. Pais que educam, de verdade, seus filhos e não deixam nas mãos das escolas. Meus filhos foram educados por mim e meu marido – nós somos os referenciais deles. E todos possuem valores conservadores e são de direita (apesar de toda doutrinação que foram submetidos nas escolas). Uma família unida – devemos ser uma esposa que apoia o marido e não fica disputando espaço com ele, que assume seu papel feminino e deixa seu esposo ser Homem e o líder da família – uma esposa que elogia o seu marido para os filhos. E isso jamais anulou meu papel como profissional (sou considerada excelente profissional pelos meus superiores). Eu gosto e valorizo o fato de ser um profissional respeitada, mas, eu amo ser discípula de Jesus Cristo, esposa, mãe e referência dos valores cristãos para minha família. Quando os pais entenderem o papel fundamental que exercem na educação dos seus filhos, quando pararem de terceirizar a educação deles para as escolas, quando pararem de chegar em casa do trabalho e ligarem a TV e, ao invés disso, jantarem com os seus filhos, orarem juntos e dialogarem a Sociedade mudará. E não precisa de muito: uma geração de pais que coloquem, de verdade, seus filhos como prioridade e mudaremos a História do Brasil.
    Percebam que a esquerda ataca justamente os valores cristãos e a família. Por isso, que o alvo da esquerda é ter pelo menos um adolescente drogado em cada família. Por isso, a esquerda pega tão pesado com a ideologia de gênero e com o feminismo. Veja o feminismo: uma geração inteira de mulheres que disputam com os seus maridos – querem transformar os homens em uns bananas. Eu, particularmente, detesto homem banana. Óbvio que eu e meu esposo dialogamos, mas, não o desautorizo na frente dos nossos filhos. Quando penso que uma postura dele está errada espero as crianças dormirem e converso, apresento argumentos do meu ponto de vista e ele contra argumenta – dialogamos até chegarmos em um consenso. Então, mulheres não caiam nesta falácia das feministas de que não podemos ser submissas – quem disse que eu sou submissa? Eu sou a base – o referencial de amor, o ombro amigo ao qual todos da família recorrem quando estão com problemas. Entendam: o feminismo surgiu com o intuito de dividir as famílias pq divididos somos mais facilmente conquistados.

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