Allan Dos SantosArtigos

O que pensar de Galileu Galilei?

Em síntese: Apresentamos um artigo do Prof. Dr. Joaquim Blessmann sobre o caso Galileu. Revê a história; recoloca os dois processos contra Galileu em seu contexto próprio; refere pormenores importantes, que são geralmente desconhecidos, e assim, numa visão imparcial, possibilita ao leitor melhor entendimento do famoso episódio. Na verdade, para compreender fatos pretéritos, não há melhor alvitre do que a reconstituição dos parâmetros ou do senso comum que norteavam as concepções dos homens da respectiva época.

 

Agradecemos cordialmente ao Prof. Joaquim Blessmann a sua valiosa colaboração. O autor é Engenheiro Civil; Professor Adjunto Aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Mestre e Doutor em Ciências pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA; Membro da Academia Nacional de Engenharia do Brasil; Membro Correspondente da congênere Academia da Argentina. — Endereço: R. Gabriel Mascarelo, 85 — 90840-740 – Porto Alegre (RS) – Fone: (051) 249-2738.

 

1. O MITO

 

Três séculos e meio de uma publicidade distorcida e laicista fizeram nascer o mito de que Galileu foi um “mártir da ciência e da liberdade de pensamento e a Igreja a costumeira inimiga da liberdade e do progresso humano”, comenta Cintra (1). Também transcrevemos o seguinte trecho, retirado de obra de Massara (2), página 28: “Não se tratou de um conflito entre ciência e religião, entre razão e fé, como uma certa literatura laica, claramente interessada, tem feito crer; mas de uma crise interna do organismo eclesiástico”.

 

Aliás, não é a única distorção histórica. Há muitas. Monumental, é por exemplo, a que apresenta a Idade Média como uma época de obscurantismo e estagnação, o que não corresponde à realidade. Parece haver uma tendência de cada época denegrir a que veio imediatamente antes. Pense-se, por exemplo, na Renascença. Ou, atualmente, a atitude de muitos católicos, com suas críticas por vezes contundentes à Igreja de antes do Concílio Vaticano II. Parece que se baseiam em uma afirmação de Cristo, convenientemente deturpada: “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos, porém só a partir do Concílio Vaticano II…”

 

A seguir, reproduziremos afirmações errôneas sobre o caso Galileu, que conseguimos coletar. Algumas delas serão refutadas logo após serem enunciadas. As demais, no decorrer deste trabalho.

 

“Galileu foi condenado na Idade Média.” Esta vai até meados do século XV. Ora, Galileu nasceu em 1564. Ou seja, cerca de um século após o término da Idade Média.

“Galileu foi condenado por dizer que a Terra era redonda.” Ora, ja’ na antiga Grécia isto era admitido por muitos. Por exemplo, Pitágoras (século VI a.C.) e seus discípulos falavam da esfericidade da Terra, da Lua e do Sol, bem como da rotação da Terra. E na Europa a esfericidade da Terra já tinha defensores quatro séculos antes de Galileu. Uma prova concreta já tinha sido dada pela expedição de circunavegação da Terra, comandada por Fernão de Magalhães, em 1521.

“Galileu teve Copérnico como discípulo.” Ora, Copérnico faleceu em 1543. Galileu nasceu 21 anos depois, em 1564.

“Galileu foi o autor da teoria heliocêntrica.” Ora, o sistema heliocêntrico deve-se a Aristarco de Samos, no século III a.C, cerca de 1.900 anos antes de Galileu publicar e defender suas concepções astronômicas.

“Galileu foi condenado porque defendia o sistema heliocêntrico.” Não, ele foi condenado pelo modo como o defendia.

 

Outras afirmações errôneas, que tentaremos esclarecer neste trabalho, são as seguintes: Galileu foi torturado, cegado, aprisionado em uma masmorra, queimado vivo, condenado por heresia.

 

Se quisermos analisar corretamente, e com a máxima isenção de ânimo possível, fatos ocorridos em outra época, é necessário que nos ponhamos a pensar com a mentalidade, os costumes e, importante, com os conhecimentos e o “senso comum” daquela época. Por isto, o capítulo “O Ambiente”.

 

2. O AMBIENTE

 

2.1. A Filosofia

 

Eram, principalmente, as de: a) Aristóteles e b) São Tomás de Aquino.

 

a) Aristóteles

Partia da observação dos fatos naturais, e a partir daí raciocina e chega a um conjunto de princípios gerais que permitam a compreensão do mundo material. Adota a astronomia geocêntrica, com a Terra, esférica e imóvel, no centro do universo. No mundo celeste, separado da Terra pela esfera lunar, reina a perfeição. Na Terra, a imperfeição, com a geração, alteração e corrupção dos corpos, formados por quatro elementos básicos: terra, água, ar e fogo.

 

Antes de Galileu, na Idade Média, muitos filósofos e teólogos admitiam as idéias físico-astronômicas de Aristóteles, porém sem vinculá-las diretamente â Filosofia. Infelizmente, os aristotélicos da Renascença confundiram Filosofia e ciência.

b) São Tomás de Aquino

Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino deixa bem claro que a realidade física, o fenômeno observado, é uma coisa; e outra são as teorias científicas que tentam explicá-lo: “Uma teoria deve salvar as aparências sensíveis” (isto é, deve estar de acordo com o que aparece aos sentidos, com a realidade física). “Isto, entretanto, não constitui uma prova suficiente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparências sensíveis com uma teoria diferente e mais simples”.

 

Em outras palavras, uma teoria científica não pretende corresponder à realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiquemos:

 

— A teoria do contínuo, na engenharia. Admite-se, na engenharia, que a matéria é contínua, sem falhas, fissuras, vazios, poros, espaços entre cristais ou moléculas. É mais do que evidente que isto não corresponde à realidade. Mas as teorias baseadas neste postulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais e facilitam enormemente os cálculos, quer se trate de uma ponte, torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate do movimento e de forças existentes nos líquidos e gases, tais como: sustentação de um avião, bolas com “efeito” (futebol, tênis, ping-pong) e mesmo no movimento do sangue nas veias e artérias, etc.).

Isaac Newton: “Tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria na razão direta das massas e na razão inversa dos quadrados das distâncias” (gravitação universal). Note:se a modéstia do verdadeiro cientista. Não afirma, categórico: “a matéria atrai a matéria. . .”, mas, modestamente, sugere que “tudo se passa como se. . .”

Oven Gingerich (Ref. 3, pág. 91), astrônomo de Harvard: “Os átomos, como os imaginamos, não podem ser comprovados de um modo absoluto. O máximo que podemos dizer, é que o universo age como se fosse feito de átomos”. Novamente, um modesto “como se”, indicando que se pretende explicar a realidade, sem a pretensão de afirmar que é assim e não pode ser diferente.

O mesmo vale para o mundo psíquico: uma teoria pode explicar o comportamento humano, mas nada assegura que ela dê a razão real deste comportamento. E aqui penso nas teorias de Freud e de outros, conflitantes entre elas; cada autor rejeita explicações diferentes da sua, a qual, no seu entender, exprime a própria realidade.

2.2. A Astronomia

a — Sistema geocêntrico

É o sistema mais antigo, cuja origem é incerta. Na antiguidade apresentaram-no, entre outros, Hiparco (190 a 120 a.C). No século II de nossa era, o grego Cláudio Ptolomeu fez melhoramentos na hipótese de Hiparco, mostrando, por suas observações, que as órbitas dos planetas não podem ser circulares, como queriam Hiparco e Aristóteles, entre outros (o círculo era símbolo da perfeição). A Terra, imóvel, ocupa o centro do universo. Em torno dela giram, na seguinte ordem: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno.

 

Esta concepção perdurou não só na Antiguidade, mas também por toda a Idade Média, em parte pela adesão de Aristóteles ao geocentrismo-, em parte pelas objeções postas ao heliocentrismo, como veremos mais adiante.

b — Sistema heliocêntrico

Aristarco de Samos (século 111 a.C.) foi o primeiro a adotar e ensinar o sistema heliocêntrico. De acordo com Aristarco, o Sol está imóvel no centro do universo, e à sua volta os planetas descrevem órbitas circulares; as estrelas fixas encontram-se em uma esfera cristalina. Avaliou que as distâncias entre as estrelas eram extraordinariamente superiores à distância entre Sol e Terra.

 

Não havia provas convincentes de que a realidade estivesse de acordo com esta teoria, mas ela justificava plenamente a regularidade do movimento dos planetas. Por outro lado, havia argumentos de peso contra ela, baseados nos conhecimentos e no “bom senso” da época, proveniente da observação de fenômenos naturais. O argumento de maior importância (creio que muitas pessoas, mesmo nos tempos atuais, não sabem como o refutar) é o seguinte:

 

Se a Terra gira em torno do Sol, é necessário que também gire em torno de si, para produzir o dia e a noite. Se ela gira em torno de si, deve haver um movimento relativo terra-ar e, portanto, para quem está parado na superfície da Terra, um vento com a mesma velocidade. Se estou andando a cavalo, pensavam, quanto mais rápido andar o cavalo, mais veloz o vento que sentirei, devido ao movimento relativo cavalo-ar. Se estou parado, não sobre o cavalo, mas sim na superfície da Terra, e ela está “correndo” em sua rotação, deverei sentir um vento correspondente. E qual a velocidade deste vento? Os gregos já tinham feito o cálculo. Mais precisamente, Eratóstenes, medindo a diferença de latitude entre Siena (atualmente, Assuan) e Alexandria, e medindo a distância entre estas duas cidades, determinou a circunferência da Terra, no Equador. Foi concluído que, se a Terra girasse sobre si mesma, a velocidade no Equador seria de cerca de 400 m/s (1.440 km/h). E esta seria a velocidade do vento causado pela rotação da Terra, velocidade essa suficiente para destruir florestas, veículos, construções, etc. (Na realidade, a velocidade é ainda maior: 1.670 km/h.) Este vento não existe. Logo: a Terra não pode ter o movimento de rotação requerido pelo sistema heliocêntrico para formar dias e noites.

 

Outro argumento contra o sistema heliocêntrico exporemos a seguir:

 

Se uma pedra for atirada verticalmente para cima, enquanto ela sobe e desce, a Terra se desloca e a pedra chocar-se-á com o terreno em um ponto afastado do ponto de lançamento. Se, após seu lançamento, a pedra levar dez segundos para chocar-se com o terreno, no Equador ela estaria a quatro quilômetros a oeste de seu ponto de lançamento! Repito o comentário feito acima: hoje em dia, quantos saberão explicar por que isto não acontece?

Por estas e outras dificuldades, a teoria heliocêntrica foi abandonada, voltando a ser apresentada muitos séculos depois por Nicolaus Copérnico, nascido em ToruPi, Polônia, em 14/02/1493, e falecido em Frauenburg, Polônia, em 24/05/1543.

Copérnico estudou astronomia e matemática na Universidade de Cracóvia e, por três anos, Direito Canônico em Bolonha, Itália. Também freqüentou as Universidades de Roma, Pádua e Ferrara. Em 1501 aceitou o posto de cônego da Catedral de Frauenburg, cidade onde fez suas observações astronômicas.

 

Reintroduziu o sistema heliocêntrico de Aristarco, com modificações, em dois trabalhos:

 

— em 1530: “Comentários sobre as Hipóteses da Constituição do Movimento Celeste”;

— em 1543: “Sobre a Revolução dos Corpos Celestes”.

Este último trabalho foi dedicado ao Papa Paulo III, que aceitou a dedicatória, sem problemas. E, mais ainda, o sistema proposto por Copérnico foi usado pela Igreja para reformar o calendário litúrgico, permitindo prever a data da Páscoa e, a partir dela, as demais datas do ano litúrgico. O sistema geocêntrico de Ptolomeu havia levado a erros cumulativos importantes. Os cálculos para definir as datas litúrgicas foram enormemente simplificados com o sistema heliocêntrico. Estes cálculos foram feitos pelo jesuíta e matemático Clavius.

 

Segundo Copérnico, o Sol ocupa o centro do sistema planetário. Em torno dele os planetas giram em órbitas circulares, na seguinte ordem: Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno.

c — Sistema misto

 

Proposto por Tucho Brahe (1571-1630), astrônomo dinamarquês. Tornou-se conhecido e admirado pelas medidas precisas que realizou, com instrumentos adequados, construídos por ele mesmo com muita perfeição.

 

O seu sistema é considerado por alguns autores como um sistema “conciliatório”. No centro do universo, a Terra, imóvel. A sua volta giram a Lua e o Sol. Os demais planetas giram em torno do Sol, acompanhando-o em seu movimento em torno da Terra. À distância, a esfera das estrelas.

2.3. Os Eclesiásticos e a Astronomia

Embora a maioria dos eclesiásticos estivesse de acordo com a teoria geocêntrica, havia Cardeais e outros eclesiásticos adeptos do sistema de Copérnico ou defensores de Galileu. Citamos uns poucos:

 

— O beneditino Castelli (filósofo e teólogo) diz, referindo-se ao sistema geocêntrico, defendido por Aristóteles: “Aristóteles errou nessa, como em muitas outras coisas” (Ref. 4, pág. 24).

O Cardeal Maffeo Barberini opôs-se a que Galileu fosse declarado herético, bem como o Cardeal Caetani (Ref. 4, pág. 24).

O mesmo Barberini, como Papa Urbano VIII, declarou ao Cardeal Zoller que a Igreja não tinha condenado, nem estava por condenar, a teoria heliocêntrica como herética, mas apenas como temerária (Ref.4,pág. 24).

Riccardi, Mestre do S. Palácio, está convencido de que o heliocentrismo não é matéria de fé e de que, de forma alguma, convém comprometer nele as Escrituras (Ref. 4, pág. 24).

Em 1632, na iminência do segundo processo, Castelli professa sua fé copernicana a V. Maculano, Mestre do S. Palácio e Comissário do S. Ofício (Ref. 4, pág. 24).

Relembramos que o sistema heliocêntrico foi usado para a reforma do calendário litúrgico.

2.4. A Interpretação da Bíblia

 

Desde os Santos Padres dos primeiros séculos do Cristianismo, já eram conhecidos outros sentidos, além do estritamente literal, ao ser interpretada a Bíblia. Henri de Lubac (“Exegese Médiévale, Aubier, Paris, 1962, conforme Ref. 1, pág. 18) destaca que na exegese medieval se procedia â leitura da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos: literal, histórico, alegórico e moral.

 

Entretanto, no tempo de Galileu a interpretação da Bíblia era feita de modo mais rígido e, em geral, atendo-se exageradamente ao sentido literal do texto. Como causa principal desse modo de proceder, está o protestantismo, que, desde o manifesto de Lutero, em 1517, vinha promulgando a livre interpretação da Bíblia. Para evitar os males que estavam sendo causados à fé cristã por este modo de proceder, a Igreja passou a se fixar mais no sentido literal das palavras, enquanto não houvesse motivos fortes que desaconselhassem tal proceder.

 

Lembramos aqui o princípio da consciência possível, da sociologia: “Todo pensamento é socialmente condicionado e limitado. Devido aos condicionamentos que limitam a visão da realidade, há um limite máximo que o conhecimento ou a compreensão de um indivíduo, um grupo, uma classe social ou toda uma época pode atingir. . . Outros fatores condicionantes que integram o conceito de consciência possível são a religião, o pensamento científico, as ideologias, as solidariedades étnicas e nacionais, o gosto artístico, etc, que limitam o campo da consciência para toda uma comunidade humana e até mesmo para uma época. Cada época possui paradigmas que condicionam sua cosmovisão científica e sua práxis concreta” (Ref. 5, pág. 19-20).

 

Naquela época, com o exíguo desenvolvimento das ciências naturais, as Escrituras eram usadas também para explicações científicas. Sem o conhecimento dos gêneros literários dos antigos orientais, do sentido correto de certas palavras, os teólogos interpretavam a Bíblia literalmente, o que, aliás, é um princípio da hermenêutica: “Não é lícito abandonar o sentido literal de um texto, sem que haja evidentes indícios de que é metafórico” (Ref. 6, pág. 268). Por exemplo, no caso de existirem argumentos de peso a favor de uma hipótese científica.

 

Além do quê, a interpretação literal de certos trechos da Bíblia (que apontavam para o geocentrismo) estava de acordo com o bom senso geral da época, que via o movimento do Sol e da Lua, bem como com os filósofos aristotélicos e com a quase totalidade dos astrônomos. Antes de Galileu, Aristarco e Copérnico já haviam lançado a hipótese do heliocentrismo, mas sem qualquer argumento convincente. E sem que alguém tivesse refutado o forte argumento contrário à rotação da Terra: “e o vento, senhores, o vento de 1.440 km/h oriundo da rotação da Terra?”.

 

Citamos aqui D. Estêvão Bettencourt (Ref. 6, pág. 270): “Para estabelecer a atual teoria planetária, milhares de sábios e estudiosos contribuíram; assim as hipóteses de Copérnicus, as medidas científicas de Tycho, as observações de Galileu, as leis formuladas por Kepler. . . Ainda durante cerca de cem anos depois de Galileu os argumentos antigos em favor do geocentrismo continuaram a ter peso mais forte na opinião pública do que as razões aduzidas por Copérnico e Galileu em favor do heliocentrismo”.

 

Continuamos citando D. Estêvão Bettencourt (Ref. 6, pág. 271 ou Ref. 7, pág. 428):

 

“A fim de ilustrar quão árduo devia ser a um cristão imbuído da mentalidade dos séculos XVI/XVII admitir o heliocentrismo, seja aqui observada a atitude dos autores protestantes diante do novo sistema:

Lutero (+1546) julgava que as idéias de Copérnico eram idéias de louco, que tornavam confusa a astronomia.

 

Melancton, companheiro de Lutero, declarava que tal sistema era fantasmagoria e significava a rebordosa das ciências.

 

Kepler (1571-1530), astrônomo protestante contemporâneo de Galileu, teve que deixar sua terra, o Wurttemberg, por causa de suas idéias copernicanas.

 

Em 1659, o Superintendente Geral de Wittemberg, Calovius, proclamava altamente que a razão se deve calar quando a Escritura falou; verificava com prazer que os teólogos protestantes, até o último, rejeitavam a teoria de que a Terra se move.

 

Em 1662, a Faculdade de Teologia protestante da Universidade de Estrasburgo afirmou estar o sistema de Copérnico em contradição com a S. Escritura.

 

Em 1679, a Faculdade de Teologia protestante de Upsala (Suécia) condenou Nils Celsius por ter defendido o sistema de Copérnicus. Ainda no século XVIII, a oposição luterana contra o sistema de Copérnicus era forte: em 1774 o pastor Kohlreiff, de Ratzeburg, pregava energicamente que “a teoria do heliocentrismo era abominável invenção do diabo”.

 

2.5. A Inquisição

Só a leitura desta palavra já costuma causar mal-estar, por ser geralmente associada a terror, tortura, fogueira, morte. Nem tanto assim, embora não se possa dizer que a Inquisição tratava de amenidades.

 

Houve excessos, e graves, principalmente nos países onde o poder civil passou a comandar. Nem tudo é justificável, mesmo sem a intromissão do poder civil, que transformava a Inquisição em um órgão de interesse político, principalmente na Espanha e Portugal, a partir do século XVI.

 

Entretanto, procuremos entender os fatos e pensar com a mentalidade daquela época, de acordo com o princípio da consciência possível, que comentamos anteriormente. Na época feudal, profano e sagrado eram muito unidos; por assim dizer, as duas faces de uma mesma moeda. Desvios doutrinários afetavam a vida social. “De certa forma”, diz Cintra (1),”a Inquisição foi a reação de defesa de uma sociedade para a qual a preservação da fé era tão importante como a saúde ou os direitos humanos para a sociedade atual. . . Embora tenha havido episódios deploráveis, a Inquisição representou um claro progresso com relação aos tribunais e julgamentos da época, como reconhecem muitos juristas atuais: era o tribunal mais justo e brando do seu tempo” (o grifo é nosso). “Ela introduziu a justiça regular, evitando que a justiça leiga ou mesmo a revolta popular infligissem os piores castigos aos suspeitos de heresia. Muitas vezes foi a autoridade eclesiástica quem interveio para subtrair à fúria da multidão os que esta considerava heréticos, embora nem sempre conseguisse evitar que condenados à prisão fossem retirados e conduzidos à fogueira pela população furiosa e amotinada, que se queixava da ‘fraqueza e excessiva brandura’ do bispo. Todos esses aspectos ajudam-nos a não julgar com tanta severidade instituições de outras épocas e mentalidades, ao mesmo tempo que nos levam a considerar que o nosso tempo também não está isento de coisas piores: guerras, campos de concentração, gulags, racismos, colonialismos, explorações, etc.”

 

Faremos outras citações, que confirmam as palavras de Cintra:

 

— Revista Crítica Histórica (Ref. 8, pág. 68): “Com o passar dos anos e com a multiplicação das pesquisas de arquivo, foram aparecendo cada vez mais elogios à racionalidade dos procedimentos e à brandura dos tribunais dá Inquisição, que se revela não mais como uma entidade demoníaca, mas como uma instituição dotada de regras racionais e capaz de moderar o uso da tortura e desencorajar a denúncia e a delação”.

— Luigi Firpo, historiador laicista, com acesso aos tribunais do Santo Ofício (Ref. 8, pág. 68): “Compareceram diante daquele tribunal mais delinqüentes comuns, pessoas culpadas de atos que o direito moderno considera crimes, do que acusados de crimes de opinião e paladinos da liberdade de pensamento. As prisões de hoje são verdadeiros infernos se comparadas com as tão difamadas celas da Inquisição. Naturalmente, a Inquisição não era um agradável clube para conversas amenas, mas fornecia garantias jurídicas inexistentes nos tribunais civis daquela época” (ogrifo é nosso).

— Gustav Henningsen, historiador dinamarquês (Ref. 8, pág. 70): “Ao contrário de todas as instituições da época, a Inquisição não recorria normalmente à tortura.” … “A Inquisição introduziu um princípio de transparência, de moderação e de direito onde o poder político e o povo queriam proceder à justiça sumária e exemplar.” … “A população católica não temia o Santo Ofício, como muitos historiadores quiseram demonstrar. Os inquisidores não eram monstros nem torturadores, mas teólogos e juristas respeitados e estimados”.

 

“Nas igrejas protestantes predominava um zelo intransigente, reforçado pelo fundamentalismo bíblico que as caracterizava.” . . . “Os protestantes criticavam a moderação do Santo Ofício.” Aliás, diga-se de passagem, a Igreja foi responsabilizada por grande parte dos crimes e fogueiras perpetuados pelos protestantes.

 

— D. Estêvão Bettencourt (Ref. 9, pág. 498): “Mais de uma vez a Santa Sé interveio para moderar o zelo e punir os excessos dos inquisidores. Todo inquisidor que abusasse comprovadamente do seu ministério era deposto do cargo”.

— Boulanger (Ref. 10, pág. 515): “Foi sobretudo na Espanha que a Inquisição deixou as mais profundas e tristes recordações. Instituída no século XIII, segundo as formas canônicas, foi modificada no fim do século XV por Fernando V e Isabel. Sob seu influxo a Inquisição converteu-se, por assim dizer, numa instituição do Estado, onde entrava mais política que religião”. Destacou-se, por sua excessiva severidade, o inquisidor dominicano Tomás de Torquemada.

 

Boulanger (Ref. 10, pág. 519): “O código penal da Idade Média era em geral muito mais rigoroso que o da Inquisição. As atrocidades (torturas e morte pelo fogo) da legislação criminal da época tinham por finalidade impedir a repetição dos crimes, incutindo o terror com exemplos espantosos àqueles povos difíceis de governar e de costumes violentos”.

 

Lembremos, outrossim, que modos de agir de épocas passadas parecem, no presente, atrocidades ou vinganças, mas foram, dentro do ambiente então vigente, melhoramentos para a sociedade, abrandamentos de costumes bárbaros. Por exemplo, a conhecida “lei do talião”, que transportou para o domínio da punição uma exigência de justiça, graduando a pena de acordo com o dano produzido (“olho por olho, dente por dente”). Antes dela, a vingança dependia da ira do vingador: a um dente arrancado poderia corresponder uma cabeça arrancada. . .

2.6. O Index

Era uma lista de publicações que continham doutrinas errôneas, contrárias à fé e á moral cristãs. Por essa razão, as publicações contidas no Index não podiam ser lidas pelos católicos.

 

Houve exageros e excessos de rigor, mas o princípio é perfeitamente válido, e aplicado ainda hoje em dia em muitos países civilizados, nos quais há censura de programas de TV, peças de teatro, publicações, filmes, etc, tendo em vista a salvaguarda de princípios éticos e de respeito a convicções religiosas. Não são, por exemplo, os filmes classificados por idade, para evitar deformações no desenvolvimento psíquico e moral das pessoas?

 

Porventura deixaria uma mãe veneno ao alcance de seus filhos? Poderia então a Igreja, como mãe que é dos católicos, deixar ao alcance de seus filhos publicações que fossem nocivas à sua saúde espiritual?

 

Está a maioria da população brasileira, atualmente, satisfeita com a deseducação promovida pela televisão? Não está desprezando e agredindo as mais caras tradições da família brasileira, os bons costumes, a moralidade, os princípios éticos? Não está minando o caráter de nossa juventude? Não se pedem medidas que proíbam programas que levam à dissolução dos valores morais, éticos e religiosos?

 

Acrescente-se ainda que pessoas de sólida formação espiritual tinham permissão para ler publicações listadas no Index.

 

Atualmente não temos o Index, mas temos publicações sérias, como Pergunte e Responderemos, que analisam e recomendam ou desaconselham a leitura de certas publicações, as quais nada de útil apresentam e podem causar confusão e desvios de fé e Moral em pessoas com deficiências em sua formação espiritual.

3. OS PROCESSOS

 

3.1. O primeiro Processo (1616)

 

Galileu soube de um aparelho inventado por um holandês que permitia ver objetos afastados com nitidez (telescópio). A partir dessas informações construiu um telescópio com melhores características e com ele fez muitas descobertas, tais como:

as manchas do Sol (que não é, pois, o corpo perfeito descrito por Aristóteles);

as crateras da Lua (que, portanto, não é a esfera lisa, perfeita, admitida por Aristóteles);

a Via Láctea é constituída por um grande número de estrelas;

Júpiter possui Luas (Galileu descobriu quatro), o que demonstrava que a Terra não era o centro de tudo;

Vênus tem fases como a Lua; pelo que, muito provavelmente, deveria girar em torno do Sol.

 

Estas descobertas foram publicadas em 1610 e trouxeram uma grande popularidade a Galileu. Entre os que o cumprimentaram e admiravam seu trabalho, estavam o astrônomo Kepler e o matemático jesuíta Clavius (já citado em 2.2.b).

 

Por outro lado, os aristotélicos reagiram violentamente, inclusive duvidando da competência de Galileu como pesquisador: manchas solares e relevo da Lua dever-se-iam a sujeira nas Lentes do telescópio; outras descobertas não passariam de ilusões de ótica.

 

Em 1611 Galileu esteve em Roma e foi muito homenageado por cientistas e nobres. Foi recebido como membro da Academia dei Lincei. Os jesuítas (muitos dos quais eram professores e astrônomos) dedicaram-lhe uma festa acadêmica no Colégio Romano, com a presença de condes, duques, muitos prelados e alguns Cardeais. O próprio Papa Paulo V concedeu-lhe audiência.

 

Os problemas começaram com a publicação do livro “Contro il moto della terra” (Contra o movimento da Terra), do teólogo Ludovico delle Colombe, neste mesmo ano (1611). Ludovico elogiava Galileu, mas citava trechos da Bíblia e argumentos dos Santos Padres para demonstrar a tese geocêntrica. Eis algumas das citações: Salmo 103,5 — “Fundaste a terra em bases sólidas, que são eternamente inabaláveis”; Eclesiastes 1, 4-5 — “Uma geração passa, outra vem; mas a Terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar ao seu lugar”.

 

O problema é que Galileu, em vez de responder com argumentos físicos, usou argumentos bíblicos, citando outro trecho que parece defender a tese contrária: Salmo 95,9 — “Diante d’Ele estremece a terra inteira”.

 

E assim a disputa, que deveria ser de caráter científico, passou para a exegese e a teologia. Os debates se multiplicaram. O beneditino Castelli, professor na Universidade de Pisa, defendia a opinião de Galileu. Este escreveu diversas cartas, dirigidas, entre outros, ao próprio Castelli, a Clavius e ao Cardeal Belarmino, defendendo-se. Da carta a Castelli transcrevemos um trecho, pela posição correta assumida por Galileu, no que diz respeito à interpretação da Bíblia (Ref. 2, pág. 111):

“A Escritura não se engana, mas sim os seus intérpretes e comentadores, de várias maneiras, entre as quais uma gravíssima e freqüentíssima, quando querem fixar-se sempre no puro sentido literal, pois assim aparecerão não só diversas contradições, mas também graves erros e heresias; seria necessário dar a Deus pés e mãos, e olhos, e também coisas corpóreas e humanas, como cólera, arrependimento, ódio, esquecimento do passado e ignorância do futuro. Donde, assim como na Escritura se encontram muitas proposições falsas quanto ao sentido nu das palavras, mas assim postas para se acomodarem ao numeroso vulgo, assim . . . é necessário que os sábios comentadores apresentem o verdadeiro sentido.”

 

O dominicano Lorini enviou à Sagrada Congregação do Index (Inquisição Romana) uma cópia dessa carta, que tinha sido difundida por meio de cópias. A carta foi examinada, qualificada favoravelmente e o caso encerrado.

 

Entretanto, Galileu insistia em debater no terreno exegético-escriturístico, abandonando as razões científicas do sistema astronômico que defendia. Queria forçar uma decisão urgente da Sagrada Congregação para que certas passagens da Escritura fossem interpretadas de modo diferente do usual havia séculos.

 

Foi advertido para que deixasse o lado teológico da questão e usasse apenas argumentos das ciências naturais para justificar o sistema heliocêntrico.

 

Foscarini (Carmelita, Provincial da Calábria) publica em 1615 obra em que defende a opinião de Copérnico.

 

O Cardeal Belarmino recomenda prudência a Galileu e a Foscarini: que não apresentassem o sistema heliocêntrico como verdade definitiva (o que não existe na ciência; nesta, nada é definitivo) e que não forçassem reinterpretações da Sagrada Escritura, enquanto não houvesse provas demonstrativas do novo sistema. Eis trechos de sua carta (Ref. 2, pág. 163 a 165):

 

“Uma coisa é sustentar o movimento da Terra e a estabilidade do Sol como hipótese, e isso está muito bem dito e não tem perigo algum. . . , e é tudo quanto deveria bastar ao matemático.”

E mais adiante, na mesma carta:

 

“Quando fosse verdadeiramente demonstrado que o Sol está no centro do mundo e a Terra no terceiro céu, e que o Sol não circunda a Terra, mas sim a Terra circunda o Sol, então seria necessário com muitas considerações explicar as Escrituras, e antes de afirmar ser falso o que dizem, admitir, pelo contrário, que são coisas que não podemos entender. Por mim, não acreditarei que seja possível tal demonstração, até que me seja apresentada.”

O fato é que Galileu não dispunha de alguma prova concreta ou convincente. A prova em que insistia, do fluxo e refluxo das marés, estava errada. As marés são causadas pela força gravitacional da Lua e do Sol. Ademais, se fossem causadas pela rotação da Terra, deveria haver só uma maré por dia, e não duas.

 

Acenou, como prova, para os ventos alísios, mas não pôde quantificar o fenômeno. E aí estava certo, pois o desvio para o Oeste dos ventos que sopram para o Equador em ambos os hemisférios é causado pela rotação da Terra.

 

Em conclusão: não tinha provas científicas. Como vimos, tentou provar suas idéias por meio da Bíblia. Somente muito mais tarde, em 1851, é que Foucault conseguiu provar o movimento de rotação da Terra, com um pêndulo dependurado do teto do Panteon de Paris, que oscila em um plano fixo enquanto a Terra gira.

 

Entrementes, o padre dominicano Caccini fazia vários ataques aos matemáticos e aos adeptos de Galileu. O primeiro destes ataques aconteceu por ocasião de um sermão sobre o milagre de Josué (em que o Sol teria parado); ver Js 10,7-15. Caccini foi chamado a Roma para explicar os ataques a Galileu. Caccini aproveita a ocasião para, junto com outros, pressionar o Santo Ofício, para que Galileu fosse condenado.

 

Galileu continua, com seu estilo polêmico, a discutir. Diz a Enciclopédia Mirador Internacional (verbete Galileu) que Galileu era “de um estilo de grande vivacidade, freqüentemente irônico e mordaz, pois era um temperamento polêmico”. Eis exemplos (de outras fontes, citadas neste trabalho) de seu estilo de argumentar, nada científico: recorria aos vocábulos “idiotas, bufos, hipócritas, impostores, ignorantes, estúpidos, animais”.

 

Em 24/01/1616, em sessão do Santo Ofício, os consultores apresentam seu parecer sobre a controvérsia. Qualificam duas proposições:

1o — Sol fixo. É considerada falsa e absurda do ponto de vista filosófico e formalmente herética, por estar em contradição com várias passagens da Sagrada Escritura, de acordo com o sentido literal e a interpretação corrente dos Padres da Igreja.

 

2o — Rotação da Terra e translação em torno do Sol. Falsa e absurda, do ponto de vista filosófico, e errônea na fé.

No dia seguinte, há uma reunião dos Cardeais, sob a presidência do Papa Paulo V, para avaliar o parecer dos consultores e pronunciar uma decisão. Foram tomadas duas medidas:

1a—O Cardeal Belarmino é encarregado de, em audiência particular, convencer Galileu de abandonar a teoria copernicana. Galileu nega-se a tal. Recebe, então, de Belarmino, diante de um comissário da Inquisição e de outras pessoas, o preceito formal de não sustentar, ensinar ou defender tal teoria. Galileu promete obediência. Não houve processo formal, nem sentença, abjuração ou penitência.

 

2a — Por decreto da Sagrada Congregação do Index, foram proibidos os livros de Copérnico, de Foscarini e, de forma geral, dos que defendiam o sistema heliocêntrico. Nenhuma referência nem à obra nem ao nome de Galileu.

 

Observe-se que a obra de Copérnico, já com 80 anos, até então tinha sido deixada pela Igreja Católica à livre discussão, e havia eclesiásticos que a defendiam. E nela baseou-se a reforma do calendário, já referida.

 

O que provocou, depois de tanto tempo, sua proibição, foi a atitude de Galileu, querendo impor como certa, verdadeira, uma teoria para a qual não tinha provas objetivas. Pelo contrário, insistia em uma prova falsa, a das marés. E jamais ele ou outro contemporâneo conseguiu explicar o paradoxo do vento de 1.440 km/h, na linha do Equador, que “deveria” existir em virtude da rotação da Terra. Galileu, lançando mão de razões exegéticas e insistindo em uma reinterpretação da Bíblia, acabou forçando uma decisão imatura e lamentável da Sagrada Congregação do Index.

É de destacar que, em 11/03/1616, Paulo V recebeu Galileu em audiência particular. Considera-o um verdadeiro filho da Igreja e reconhece a retidão das intenções de Galileu, dizendo-lhe que nada temesse de seus caluniadores.

3.2. O Segundo Processo (1633)

 

Em novembro de 1618 apareceram três cometas na Europa. Foi o estopim para recomeçarem as discussões, com Galileu violento no falar como antes.

Entre 1624 e 1630 Galileu escreve um novo livro, “Diálogo sobre os dois Sistemas Máximos do Mundo, o Ptolomaico e o Copernicano”. Galileu comunicara ao Papa Urbano VIII que pretendia escrever esse livro. O Papa o apoiara, aconselhando-o, porém, a não entrar em conflito com o Santo Ofício e a tratar o sistema de Copérnico como hipótese. Uma recomendação perfeitamente correta para os dias atuais, pois agora é ponto pacífico que em ciência nada é definitivo.

 

Em maio de 1630 Galileu vai a Roma para obter o necessário “Imprimatur”. O encarregado de examinar seu livro, Pe. Riccardi, era amigo pessoal de Galileu. Concluiu que eram necessárias algumas correções:

 

1o — Mudar o título, que era “Diálogo sobre as marés”, porque destacava muito o único argumento (e errado) de Galileu para provar o sistema copernicano.

2o — Alterar algumas passagens.

3o — Alterar o prefácio, de modo a não apresentar o sistema heliocêntrico como verdade segura, mas sim como hipótese.

 

Diante disso, Galileu resolveu imprimir o livro em Florença. Riccardi concordou, desde que Galileu lhe trouxesse o primeiro exemplar da obra, com as devidas correções, para receber “Imprimatur”.Galileu argumenta com a peste, que dificultava a comunicação entre as duas cidades. Mais uma vez, cede Riccardi, concordando com o exame da obra em Florença, bastando enviar a Roma o título e o Prefácio.

 

Em Florença, Galileu consegue que o revisor seja outro amigo seu, Stefani, que foi induzido a pensar que a obra já tinha sido aprovada em Roma. Stefani concedeu a autorização. O título e o prefácio foram enviados a Roma para aprovação e o livro foi publicado em 1631.

 

Quando Riccardi recebeu um exemplar da obra completa, viu com surpresa que, antes da aprovação florentina, figurava a sua. E sem nenhuma correção no corpo do livro: o sistema copernicano era apresentado em toda a obra, exceto no Prefácio, como verdade incontroversa.

 

Urbano VIII, pressionado pelos inimigos de Galileu, e considerando a desobediência formal à proibição de 1616, passou o assunto á Inquisição.

 

A comissão encarregada de examinar a obra grupou a censura em oito pontos, esclarecendo nas conclusões que todos eles podiam ser corrigidos (asmarés como falsa prova, apresentar o sistema copernicano apenas como hipótese, etc). Mas, acrescentava, a desobediência era um agravante bastante sério (o grifo é nosso, pois as conclusões da comissão mostram que o problema era, basicamente, disciplinar).

 

Galileu, chamado a Roma para julgamento, depois de vários adiamentos (doença, velhice, peste, inundações, foram os motivos alegados), lá chega em 12/02/1633. Hospedou-se inicialmente no palácio do Embaixador de Florença; depois passou a residir no edifício da Inquisição, em aposentos do Fiscal da Inquisição, “cômodos e abertos” (nada de aprisionamento em masmorras, “a pão e água”, como diz uma das lendas).

Foi submetido a quatro interrogatórios:

— No primeiro negou que houvesse defendido o sistema heliocêntrico em seu livro.

— No segundo declarou que, relendo o livro, reparara que em alguns trechos o leitor podia realmente pensar que ele defendia tal sistema.

— No terceiro desculpou-se por desobedecer á proibição de 1616, afirmando que a advertência tinha sido verbal e que não se recordava de uma ordem para ele em particular.

— No quarto e último interrogatório (em 21/06/1633), quando lhe perguntaram solenemente se defendia o sistema copernicano, respondeu negativamente.

 

No dia seguinte, em Decreto do Santo Ofício, é publicada a sentença, na qual consta: “. . . é absolvido da suspeição de heresia, desde que abjure, maldiga e deteste ditos erros e heresias. . . “. Galileu ouviu de pé e com a cabeça descoberta a leitura de sua condenação (três anos de prisão; recitação semanal dos sete salmos penitenciais, por três anos). Depois, de joelhos e com uma mão sobre os Evangelhos, assinou um ato de abjuração, no qual declarava que era “justamente suspeito de heresia”.

 

Nesta ocasião, Galileu teria exclamado, batendo com o pé no chão: “e pure si muove” (e todavia se move). Lenda inverossímil, dadas as circunstâncias (estava de joelhos). É uma fantasia que apareceu pela primeira vez em 1757 (mais de um século depois), em obra de Baretti.

Além das penas pessoais, também foi proibido o livro de Galileu.

No dia seguinte, a sentença é comutada pelo Papa. Galileu vai viver no palácio do Embaixador de Florença e depois passa para a casa do Arcebispo Piccolomini, seu discípulo e admirador, em uma espécie de prisão domiciliar. Foi-lhe permitido voltar a Florença em 10/12/1633, cinco meses e oito dias depois da condenação.

Como se vê, nada de condenação por heresia, torturas, fogueira, etc. É verdade que durante o processo, em virtude de suas evasivas, foi ameaçado de tortura, de acordo com os trâmites processuais. Por outra, a tortura nunca era infligida a pessoas idosas ou enfermas. Galileu estaria isento por ambas as condições.

 

Da Referência 11, página 284, citamos: “Embora reconheçamos que o segundo processo teve, como gravame, a vaidade e a insinceridade de Galileu, devemos todavia lamentar profundamente a primeira condenação de 1616 como inquietante erro judicial, e como abuso de poder diretamente catastrófico em suas conseqüências” (proibição das obras de Copérnico).

Em 1637 fica cego. Em 1638 publica o livro “Diálogo das duas novas ciências”, que são a Resistência dos Materiais e a Mecânica Racional, básicas para vários ramos da engenharia.

Morre em 08/01/1642, assistido por um sacerdote, como bom católico.

 

4. COMENTÁRIOS

 

a — Muitos dos comentários a seguir são retirados da obra de Cintra (1).

— O episódio de Galileu é lamentável, mas compreensível, se levarmos em consideração o ambiente, costumes e mentalidades vigentes naquela época.

— A imagem Galileu versus Igreja, ou ciência versus Igreja, foi criada por pensadores anti-católicos dos séculos XVIII e XIX, para apresentar a Igreja como inimiga da ciência, do progresso e da razão. Muitos eclesiásticos estudavam sistematicamente astronomia e vários deles vinham defendendo o sistema heliocêntrico mesmo antes de Galileu, como o próprio Copérnico, que era cônego.

— A Igreja não queria proibir que se discutisse o sistema de Copérnico, mas apenas solicitava que não fosse apresentado como incontestável, enquanto não houvesse provas decisivas. O argumento das marés, que Galileu apresentou como prova máxima, era falso.

— Aliás, como já tínhamos comentado, pela atual filosofia da ciência, nada é definitivo em ciência; mesmo as teorias mais “badaladas” podem cair. Um exemplo é a famosa teoria do evolucionismo, de Darwin. Pelos conhecimentos atuais, não há “elos perdidos”. O que aconteceu foram mutações fortes, mudanças bruscas que geraram novas espécies, cuja estabilidade está cada vez mais comprovada. Uma espécie aparece “subitamente” e se mantém praticamente inalterada, até desaparecer. Sobre evolucionismo recomendamos a obra de Cintra (12), uma excelente e resumida apresentação do tema.

 

Outros exemplos temos na própria astronomia, com as diversas teorias sobre a formação dos planetas, sobre o universo em expansão, em contração, pulsante, etc.

 

— Parte do acontecido deve-se ao caráter de Galileu, polêmico, ríspido, agressivo, e ao fato de ter difundido prematuramente suas conclusões científicas, sem provas suficientes.

— Houve também um erro grave por parte de representantes da Igreja, que se intrometeram em matéria exclusivamente científica e condenaram um sistema astronômico, no processo de 1616.

 

b — Do filósofo cético-agnóstico Paul Feyerabend citamos (Ref. 13, pág. 64): “No tempo de Galileu, a Igreja se manteve mais fiel â razão do que o próprio Galileu e levou em consideração também as conseqüências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O processo contra Galileu era justo e racional”.

c — Palavras do físico Nicola Cabibbo, presidente do Instituto Nacional de Física Nuclear da Itália (Ref. 14, pág. 29): “Se examinarmos o processo, vemos que Galileu não foi condenado pelas suas teses científicas, mas porque tentava fazer teologia. O próprio Galileu afirmava, errando: visto que a Terra gira em torno do Sol, devemos mudar a Sagrada Escritura. Nesse caso, quando Newton descobriu a gravitação universal e Einstein a relatividade, deveríamos ter mudado de novo os textos sagrados”.

d — Filósofo laico Emanuele Severino, falando sobre a reabilitação de Galileu pela Igreja (Ref. 15, pág. 33): “recitando o ‘mea culpa’ sobre Galileu, a Igreja atribui à ciência um valor absoluto justamente hoje, quando a ciência reconhece que não tem verdades absolutas e indiscutíveis, É estranho que não levem em conta as considerações do Cardeal Belarmino, que aconselhou Galileu a expor as suas teorias em forma de hipótese e não de verdades absolutas. A postura de Belarmino era muito mais moderna, com uma consciência crítica do saber científico superior à de Galileu”.

 

e — Em 03/07/1981, o Papa João Paulo II nomeou uma comissão de teólogos, cientistas e historiadores, a fim de aprofundarem o exame do caso Galileu. Os resultados foram apresentados após onze anos, em 31/10/1992. Neste mesmo dia, 350o aniversário da morte de Galileu, realizou-se sessão solene da Pontifícia Academia de Ciências. Do discurso que então proferiu João Paulo II extraímos os seguintes trechos (16):

“Galileu rejeitou a sugestão de apresentar o sistema de Copérnico como uma hipótese, até ser confirmado por provas irrefutáveis. Tratava-se de uma exigência do método experimental, do qual ele foi o iniciador genial.” (Isto é, Galileu errou em seu próprio terreno.)

 

“O problema que os teólogos da época se puseram era o da compatibilidade do heliocentrismo e da Escritura. A ciência nova, com os seus métodos e a liberdade de investigação que eles supõem, obrigava os teólogos a interrogarem-se sobre os seus próprios critérios de interpretação da Escritura. A maioria não o soube fazer. Paradoxalmente, Galileu, fiel sincero, mostrou-se sobre este ponto mais perspicaz do que os seus adversários teólogos. Se a Escritura não pode errar, escreve ele a Benedetto Castelli (em 1613), alguns dos seus intérpretes e comentaristas o podem e de muitas maneiras. Também é conhecida a sua carta à Cristina de Lorena (em 1615), que é como que um pequeno tratado de hermenêutica bíblica.”

 

“A maioria dos teólogos não percebia a distinção formal entre a Escritura Sagrada e a sua interpretação, o que os levou a transpor indevidamente para o campo da doutrina da fé uma questão, de fato relevante, da investigação científica.”

 

“Recordemos a frase célebre atribuída a Baronio: O Espírito Santo quer nos dizer como se vai para o céu; não como vai o céu.”

“Belarmino, que tinha percebido o que estava realmente em jogo no debate, considerava que, diante de eventuais provas científicas do movimento orbital da Terra ao redor do Sol, devíamos interpretar, com uma grande circunspecção, toda a passagem da Bíblia que parece afirmar que a Terra é imóvel, e ‘dizer que não o compreendemos, antes de afirmar que é falso o que se demonstra’ (Carta ao Pe. A. Foscarini, 12/04/1615)”.

 

f — João Paulo II recordou um fato histórico pouco conhecido: Galileu já tinha sido reabilitado por Bento XIV em 1741, com a concessão do “Imprimatur” à primeira edição das obras completas de Galileu. Em 1757, as obras científicas favoráveis à teoria heliocêntrica foram retiradas do Index de livros proibidos. Em 1822, Pio VII determinou que o “Imprimatur” podia ser dado também aos estudos que apresentavam a teoria copernicana como tese.

 

g — Destacando alguns pontos do que foi apresentado neste trabalho, diremos que a condenação de Galileu foi devida ao modo como ele defendeu o sistema heliocêntrico. Quis prová-lo com argumentos bíblicos (incidindo no erro que condenava em seus oponentes, ele, o criador da experiência científica), errou no argumento das marés e insistiu na necessidade de uma pronta reinterpretação de certos trechos da Bíblia. A condenação de 1633 deveu-se à desobediência de Galileu ao compromisso assumido em 1616. Neste processo, sim, os representantes da Igreja cometeram um grave erro, opinando em matéria de interesse exclusivo da ciência, ao declararem um sistema astronômico contrário â fé.

 

Houve acertos de ambos os lados no campo oposto. Galileu com seus comentários sobre a correta interpretação da Bíblia (“um pequeno tratado de. hermenêutica bíblica”, no dizer de João Paulo II). Belarmino e outros eclesiásticos apregoando o que hoje é um princípio fundamental da ciência: nela, nada é definitivo (o heliocentrismo devia ser apresentado como hipótese, não como verdade incontestável). Eles tiveram uma concepção dos fundamentos do saber científico superior à de Galileu, cientista renomado e criador da experiência cientificamente conduzida.

 

BIBLIOGRAFIA

1 — Jorge Pimentel Cintra — “Galileu”. Ed. Quadrante, São Paulo, SP, 1987.

2 — Franco Massara — “Os grandes julgamentos da história — Galileu Galilei”. Otto Pierre Editores Ltda., São Paulo, SP.

3 — Estêvão Bettencourt — “O caso Galileu Galilei”. Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, RJ, Ano XXIV, no 267, março-abril 1983, p. 90-97.

4 — Mário Viganó — “Algumas considerações sobre o caso Galileu”. Cultura e Fé, Porto Alegre, RS, n? 32, janeiro-março 1986, p. 11-26.

5 — D. João Evangelista Martins Terra, SJ — “O Negro e a Igreja”. Ed. Loyola, São Paulo, SP, 2a ed., 1988.

6 — Estêvão Bettencourt — “híistória do Cristianismo”. Pergunte e Respoderemos, Rio de Janeiro, RJ, Ano X, no 114, junho 1969, p. 261-272.

7 — Estêvão Bettencourt — “No caso Galileu Galilei: que houve?”. Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, RJ, Ano XXI, no 250, outubro 1980, p. 420-428.

8 — Antonio Socci — “Iluminados e caçadores de bruxas”, 30 Dias, São Paulo, SP, Ano V, n? 6, junho 1990, p. 68-71.

9 — Estêvão Bettencourt — “O martelo das feiticeiras”. Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, RJ, Ano XXXII, no 354, novembro 1991, p. 495-508.

10  — Boulanger — “Manual de Apologética”. Livraria Apostolado da Imprensa. Porto, Portugal.

11  — Tüchle e Bouman — “Nova história da Igreja. Ill — Reforma e Contra-Reforma”. Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 2a ed., 1983.

12  — Jorge Pimentel Cintra — “Evolucionismo. Mito e realidade”. Ed. Quadrante, São Paulo, SP, 1988.

13  — Joseph Ratzinger — “O desafio da homologação religiosa”. 30 Dias, São Paulo, SP, Ano V, n? 5, maio 1990, p. 62-67.

14  — Lucio Brunei li — “Galileu, o teólogo”. 30 Dias, São Paulo, SP, Ano VI, n9 10, novembro 1992, p. 29.

15  — Antonio Socci — “Academia ou política?”. 30 Dias, São Paulo, SP, Ano VII, n? 1, janeiro 1993, p. 32-35.

16  — L’Osservatore   Romano,  edição   portuguesa,   n?     45   (1.098), 08/11/1992, p. 554-555.

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Um Comentário

  1. Parabéns pela matéria e obrigado pelos ensinamentos.
    Exatamente tudo o contrário do que “conhecia” desse episódio.

    Grande abraço e que Deus nos abençoe.

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