O verniz da isentosfera

Hienas Rei Leão


Sorria, você está sendo filmado

A tempestade diária que se tornou o governo Bolsonaro fez escorrer a maquiagem da isentosfera.

Refiro-me aqui àquela parte da direita que se apresentou como a encarnação da superioridade moral, a raça superior ao melhor estilo nazista, os garotos preparados para o futuro, armados de paciência com os inferiores, que olhavam de cima para baixo os insetos conservadores, os melhores na moderação, nem um pouco radicais, embaixadores da diplomacia: a nova política feita carne.

Desta vez a chuva forte não derrubou a dona aranha. Não. Ela fez escorrer o verniz da elegância e mostrar o que se escondia por baixo: filhotinhos de raposa manca.

É o veneno de Lindbergh Farias que surge mais liberal. Mal entrou pra política, mal assumiu um mísero carguinho, o lobby bateu a porta e calcinha bateu o chão.

No final das contas, se enquanto Mises palestrava pela Argentina em 1959, Fidel Castro tomava o poder em Cuba pela via militar, hoje eles berram e esperneiam nos púlpitos da Câmara, enquanto o Foro de São Paulo implanta o sistema de reconhecimento facial chinês, tomando tudo pela via militar mais uma vez.

2019, 60 anos depois a mesma estratégia: eles tentam nos matar, mas senta aí jovem, larga esse fuzil e vamos conversar. Só que não. Esse negócio de eles atirarem enquanto argumentamos, já se provou ineficaz. E olha só: precisou de provas, a lógica não foi o suficiente.

Olavo? Teoria da conspiração. Foram de FHC, de Cunha, de Alckimin e Aécio. A nova direita, mais velha que andar pra trás.

Então os experts da política internacional viajaram à China, que agora é um lugar maravilhoso. Uma das sete maravilhas do cosmo inclusive. Nada opressora. Nada comunista. Só alegria. Alegres como cubanos que com um sorriso no rosto montam jangadas esportivas, para se aventurar no mar, e que curiosamente não voltam.

Ninguém vai criar no Brasil um campo de concentração similar aos da Coreia do Norte. Claro que não.

Num campo de concentração há:

  • vigilância constante;
  • controle disciplinar total;
  • repressão aos criminosos no primeiro piscar de olhos.

O que eles estão propondo é algo bem diferente do que acontece no agradável paraíso de Kim Jong-un. Na verdade, entre as inúmeras vantagens do que a China traz ao Brasil, destacam-se:

  • vigilância constante;
  • controle disciplinar total;
  • repressão aos criminosos no primeiro piscar de olhos.

É bem diferente, como podem observar.

Inclusive o History produziu o agradável vídeo abaixo, no qual se pode comprovar a eficácia das ideias maravilhosas, democráticas, fantásticas e supimpas.

Mas vamos deixar que implementem isso aí, enquanto isso provamos que somos fodões em debates de economia. Superiores.

Ataquemos Olavo de Carvalho, aquele astrólogo, que fica falando de Foro de São Paulo, que está implementando essa maravilhosa tecnologia na América Latina inteira. México, Equador, Colômbia, e outros países, já desfrutam da maravilhosa modernidade.

Chupemos os caciques da velha política, para provar como somos democráticos (e de repente ganhamos um carguinho, não é mesmo?).

A astrologia de Olavo não prevê leão em marte, mas vê com clareza: RETARDADOS NA POLÍTICA.

A propósito: retardados não no sentido pejorativo, daqueles que demoram pra entender as coisas, pra apreender o cenário no qual estão inseridos, mas retardados no sentido de mera leitura da realidade, no sentido daqueles que demoram pra entender as coisas, pra apreender o cenário no qual estão inseridos, o que é bem diferente, suponho.

Inclusive a nova direita agora tem uma nova bandeira também: #RuiCostaTemRazão , pois o governador da Bahia já anunciou o início do sistema na Bahia. Não é uma maravilha?

Afinal, o cara não pode estar errado, deve ser um democrata de direita, isento de radicalismos, apto ao debate, afável ao diálogo. Um verdadeiro Pondè, pra ser trucidado com classe.

Na versão do Rei Leão da isentosfera, Simba teria negociado com Scar, dado uns cargos pra hienas e evitado a guerra: tudo em nome da democracia, que afinal deve ser um fim em si mesma. Ia dar certo sim, como já está dando.

No final das contas, a cara dos isentos é essa aí.

Sobre o Colunista

Ricardo Roveran

Ricardo Roveran

Estudante de artes, filosofia e ciências. Jornalista, crítico de arte e escritor. Escrevo por amor e nas horas vagas salvo o mundo.

Twitter: @RicardoRoveran

17 Comentários

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  • Uma análise perfeita, do cenário paralamentar, que se tornou o loteamento partidário, na República Cleptocrática de Pindorama, onde segredados, vassalos e lacaios da corte portuguesa insistem num neocolonialismo retrógrado, que aguça a ganância comuno-capitalista, que sonha em implantar uma república comunista para o povo, enquanto saqueiam a nação de todas as formas possíveis!
    O “brasil”, não existe, virou tinta vermelha, para a realeza européia!
    A culpa, é do povo! Claro !

  • Hahahahaha, esse texto é o legítimo espernear de quem vê desmoronar o seu castelo de sonhos políticos, construido com a areia da ignorância e com a água de ideais pueris.

  • Excelente artigo!
    Sem liberdade de expressão não teremos nossa igreja, não teremos opinião para nada, talvez nem economia, não sabemos qual seria a liberdada para fazer comércio!

  • Texto mais do que perfeito meu amigo e já devidamente replicado e reblogado no O Liberal Caxiense. As máscaras da isentosfera tem todas de serem retiradas e a babacolândia liberteen tem mais é que ser exposta como as hienas carniceiras que são!

    Boa lembrança a do dinheiro na mão, calcinha no chão: não passam disso mesmo, de um bando de vadias novas, mas com o ranço de sempre da velha política lobbysta!

    Afinal o que um bom carguinho não faz, né?

  • Brilhante abordagem, com uma argumentação contundente.
    A guerra é aberta, escancarada. A casa está desmoronando e não é hora de discutir a cor dos móveis. A urgência está na eliminação dos cupins e na ancoragem das vigas. Depois a gente pode voltar a discutir se a cômoda combina com o sofá.

  • De Olavo para cá, muitas máscaras caíram. De Bolsonaro para cá, as máscaras que faltavam acabaram de cair. Muitas vezes usamos o termo “é tolo ou mal intencionado”. Nesse caso, não há tolice alguma! TODOS são mal intencionados mesmo! Não acredito nem na sonsice da Janaína Paschoal, que não se elegeu para a presidência da ALESP porque o sistema a derrotou, mas ainda assim, quer que Bolsonaro “dialogue” com ele! Qual que é a dessa mulher? Só posso concluir que colou em Bolsonaro para miná-lo (como muitos outros) e não para “ajudá-lo” – pois diz o ditado, muito ajuda quem não atrapalha. Numa guerra, quem fica em cima do muro acaba sendo atingido ou por um lado, ou por outro. Ou pelos dois. Nas próximas eleições. o MBL, por exemplo, será chutado pela esquerda e pela direita.

  • Entendo ser um caminho sem volta para a hegemonia de qualquer segmento ideológico na atualidade. A ordem, mesmo que imposta com mãos de ferro, traz o progresso e uma grande vantagem econômica para países com políticas econômicas capitalistas. Ou as potências ocidentais criam os seus próprios sistemas de controle e vigilância ou serão engolidas pela China, que não se preocupa com conceitos de democracia ou de direitos humanos, mas apenas com o controle e coesão da sua enorme população.

  • Acabei de ver uma foto da República Federativa das capitanias hereditárias de Pindorama!
    Um monte de espertos, que acreditam que a legislatura é uma profissão, que premia aos mais malandros e gananciosos com milhões e com o direito de morar depois, em Portugal!
    O dinheiro é um tipo de droga, com efeitos devastadores, na mente das pessoas que disputam cargos públicos, o fim da estabilidade é um passo formidável, é o fim de uma cultura exploratória, que corrompe o tecido da sociedade, com as piores práticas administrativas!
    O Brasil só será Brasil de verdade, depois da #REFORMA PARTIDÁRIA!
    O que a isentosfera, do centrão, com certeza não quer!

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