Luis VilarNotícias

Ortega y Gasset: a autêntica filosofia contra a picaretagem…

Chega ao Brasil a obra Origem e Epílogo da Filosofia de José Ortega y Gasset (publicado pela Vide Editorial). Nesta obra, Gasset se desprende de qualquer possibilidade de rótulo para colocar a autêntica filosofia em seu devido lugar.

Nessa caminhada, mostra o quanto – ao longo da História da Filosofia – as palavras que antes tinham um significado profundo que não as dissociava da realidade, pelo compromisso com a busca pela verdade, hoje, dentro de ideologias, são apenas vocábulos vazios sem qualquer compromisso verdadeiro com a vida intelectual.

Por esta razão, um livro fundamental!

José Ortega y Gasset é um pensador ímpar no século XX, seja pelo conceito trabalhado do homem-massa, seja pelo desenvolvimento da ideia do insubordinável do ser que nos leva a um processo de anamnese ou ainda por nos ensinar que buscar a verdade é ir de encontro ao que não se banha no rio do tempo.

Provocativo, Ortega y Gasset nos mostra o perigo da paixão pela opinião própria, quando desprezamos que muito daquilo que pensamos é fruto das correntes de poder que atuam sobre nós.

O que é mais essencial? Ter uma opinião própria ou uma opinião verdadeira? Eis uma indagação presente, por exemplo, na película O Jardim das Aflições, que nos apresenta um pouco do pensamento do filósofo Olavo de Carvalho.

Em Origem e Epílogo da Filosofia, o leitor vai se deparar com isso em diversos momentos, como quando Ortega y Gasset nos remete ao que se compreende como refutação nos choques entre as correntes filosóficas no tempo.

O autor nos mostra que a refutação, neste sentido, não é a rejeição completa e destruidora do passado, mas sim a busca por sempre completar os pontos em que a filosofia tangencia a verdade, como se ali recuperássemos os ensinamentos bíblicos de Paulo, onde sempre – neste mundo – estamos vendo em partes para um dia – e somente um dia – vermos face a face.

A filosofia é esta busca no tempo, compreendendo que os questionamentos profundos levantados por cada filósofo, em sua época, nos coloca nos “ombros dos gigantes”, como diria o pensador Roger Scruton.

Ortega y Gasset destaca que, em nosso presente, há sempre o choque entre o passado vivido e o futuro esperado, não sendo possível desprezar as gerações com seus erros e conquistas quando nos embrenhamos na filosofia.

Por esta razão, uma das reflexões mais belas da obra é sobre a posição do cético. Para Gasset, o cético não é aquele que filosofa com o martelo de Nietzche, mas o que mantém um olhar investigador sobre as coisas observáveis, não querendo destruí-las antes mesmo de compreendê-las.

“Nossa filosofia é da forma que é porque está montada sobre os ombros das anteriores – como esse número da “torre humana” que os acrobatas fazem no circo. Ou, se prefere outra figura, veja-se a filosofia da humanidade como um longuíssimo caminho que é preciso percorrer século após século, mas um caminho que, à medida que se vai fazendo, vai se dobrando sobre si mesmo, e, posto sobre as costas do caminhante, de caminho se transforma em bagagem”, salienta Gasset.

Ao me deparar com esse trecho, vejo o quanto pensadores como este são essenciais ao conservadorismo em sentido filosófico. Afinal, o conservadorismo – a meu ver – é o que transforma “o caminho em bagagem”. Mas não por nostalgia reacionária do passado, e sim por ter no presente as armas necessárias para refletirmos o que queremos para o futuro.

Bem diferente das ideologias seculares que se acreditam com fórmulas prontas a serem aplicadas da maneira mais racionalista possível para fundar um novo homem em um novo tempo, numa utopia revolucionária em busca do paraíso na Terra.

Ah, se nossos jovens se deparassem mais com Ortega y Gasset…

É aí onde entra a posição cética descrita pelo filósofo: “Fique assentado, portanto, que o verdadeiro cético não descobre o seu ceticismo de mão beijada, tal como o homem contemporâneo. Sua dúvida não é um “estado de espírito”, mas uma aquisição, um resultado ao qual chega em virtude de uma construção tão laboriosa quanto a mais cerrada filosofia dogmática”.

O pensador nos mostra que na Grécia antiga era impossível entender o cético como em tempos modernos: aquele racionalista que duvida de tudo o tempo todo e tem a fórmula pronta do alto de sua sabedoria, desprezando tudo que não é materialismo como se superstição fosse. Ou seja: o profissional da dúvida que é incapaz de crer em algo a não ser no que sua própria mente elabora.

O cético grego passa a ser terrível não por não crer em nada. Todavia, assim era visto “porque vinham até você e lhe extirpava a crença nas coisas que pareciam as mais seguras, metendo na sua cabeça, como se fossem afiados bisturis, uma série de argumentos rigorosos, fechados, dos quais não havia maneira de se safar”. Não se tratava de uma fé em uma ideologia que substituia crenças usando de um falso corpo doutrinário que esconde um objetivo político e, justamente por isso, se vende como inquestionável.

Ortega y Gasset nos mostra a figura do real investigador ou o “perscrutador” como ele chama, que é incansável na busca pela verdade. Olhar para a filosofia como olha Ortega y Gasset é uma lição para o nosso tempo. Origem e Epílogo da Filosofia surge nas prateleiras das livrarias brasileiras como uma luz na escuridão provocada pelos picaretas de plantão e seus livros de pseudo-filosofia e auto-ajuda.

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3 Comentários

  1. Excelente artigo. Minha meta é escrever um texto tão bom quanto este. Ortega y Gasset é, realmente, essencial para a formação do pensamento da juventude – ainda mais nos dias de hoje – e para o conservadorismo.

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