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PhD fala sobre impactos da pesquisa científica na Economia

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Entrevista com Emanoel Barros, professor associado do Núcleo de Gestão – UFPE, PhD em Economia, Université Paris 1 – Pantheon Sorbonne, França, Pós-Doutorado em Economia pelo Centre National de Recherche Scientifique, Paris, França.

Pergunta: De acordo com dados apurados por um professor da UnB, a pesquisa brasileira vem perdendo impacto a passos largos: passou do lugar 29o de 48 países em 2005 para 63o de 73 países em 2018, e segue caminhando para o último lugar, que neste ritmo, está previsto ser alcançado em 2023. Num cenário global marcado pela competição acirrada entre pesquisadores, o que acontece com um país cuja produção acadêmica perde relevância dessa forma?

Resposta: Antes de dar uma resposta precisa a esta questão, é preciso entender o que significa impacto científico do ponto de vista econômico. Tudo num país tem um valor monetário, para se produzir algo, é preciso ter o seu retorno em renda (para consumo) e em lucros (para empreendedores). Partindo desse pressuposto, produção científica representa mais poupança para um dado país. Interprete a poupança como a capacidade que o setor privado de um país tem de gerar riquezas para materiais e imateriais para o futuro, aumentando seu bem-estar paulatinamente ao longo do tempo. Assim, a descoberta de uma vacina aumenta a longevidade das pessoas, que, em consequência, aumenta o valor agregado da poupança nacional (dado que podem se tornar empreendedores ou consumidores).

Vale salientar também que é o setor privado (empresários) que gera o maior volume de poupança, pois são eles que compreendem como a sociedade funciona; Ou seja, quais produtos fornecer (dada a tecnologia disponível) para garantir o bem-estar constante ao longo do tempo. A competição entre empresários é algo essencial nesse processo, pois mobiliza verdadeiros esquadrões de cientistas para chegar à descoberta de vacinas, smartphones, medicamentos, roupas (a moda também é uma tecnologia), utensílios, meios de transportes rápidos e eficientes, etc.

Tomando o exemplo do Thomas Edison e Westhinghouse no século XIX, ambos foram grandes competidores, tentaram até por via judiciais anular o trabalho um do outro, mas um criou a lâmpada e a corrente simples, e o outro criou a corrente cruzada, melhorando o bem-estar de toda a Humanidade. Assim, empresários e cientistas vão sempre competir, é essa competição saudável que distingue o que permanece (para o bem da sociedade) e o que se esvai (pois é substituído por algo mais dinâmico e eficiente). É assim que a fábrica de castiçais perdeu espaço para as fábricas de lâmpadas e a máquina de datilografar cedeu lugar ao computador, melhorando no médio e longo prazos a qualidade de vida de todos os países.

Até agora consideramos o efeito da tecnologia como dada. Contudo, a tecnologia é dinâmica, ela é endógena, decidida dentro de um país, dentro da lógica de funcionamento das instituições locais, dos costumes e necessidades de sua sociedade. Aí nasce um outro tipo de tecnologia, a empreendedora. Refiro-me aqui ao criador de um aplicativo para o Android ou para a Apple Store, atendendo à demanda da sociedade por internet banking, ou por compra de passagens aéreas sem necessidade de se deslocar ao aeroporto ou agência de viagem física, dentre outros. Esse empreendedorismo, formado normalmente por pequenos e médios empresários, geram riqueza e renda onde atuam. Empregos são criados, novas habilidades cognitivas são desenvolvidas, novas profissões são implementadas e outras deixam de existir (Ex: o mimeógrafo e a fotocópia). Hoje temos verdadeiras coleções de livros online à nossa disposição, não precisamos mais fazer fotocópias.

Manter a competição empreendedora voltada para atender a sociedade implica em tirar pessoas da pobreza, pois se gera efeitos indiretos (certificados, cursos, licenças, etc) ligada à tecnologia desenvolvida. Pessoas que não se encaixavam num padrão descobrem novas habilidades diante do novo cenário tecnológico e começam a gerar poupança para a economia, pois conseguem emprego. E assim, diminui-se monopólios, diminui-se preços e o Estado arrecada (em volume) três vezes mais do que arrecadava antes da implantação da tecnologia. Isso tudo porque um dia um jovem empreendedor decidiu criar um smartphone, ou um aplicativo, ou um sistema operacional, ou um medicamento, ou um aplicativo de localização para automóveis, etc.

Dessa forma, se o Brasil está caminhando para o último lugar em impacto científico (em 2023), estaremos apenas repondo tecnologias existentes ou repondo as depreciações de nossos capital físico. Não haverá estímulos à inovação, pois a ciência perde sua finalidade: entender a sociedade. Universidades passam a ser centros onerosos de replicações de trabalhos científicos desenvolvidos em outros países e, sem empresas para interagir com elas, os cientistas param de competir. Não haverá aumento de poupança privada, e o governo será forçado a gerar ilusão monetária continuamente para manter o PIB positivo.

Ilusão monetária significa a manutenção de empregos via subsídios e créditos, pois o país não tem planejamento de melhora do bem-estar para o futuro. Os empresários e consumidores se viciam no dinheiro do governo, e não competem, querem apenas manter o status quo, o dinheiro do governo passa a alimentar todos os campos onde a tecnologia competitiva empresarial deveria atuar. A desigualdade de renda persiste e aumenta, levando a sociedade a ver o governo como uma “entidade paternalista”, que os deve salvar. Há perda de criatividade por parte da população. Sem competição, há morosidade e onerosidade, dado que o crescimento populacional aumenta de forma exponencial e o governo é obrigado a se endividar para fazer face às necessidades das pessoas que veem nele o único meio de salvação.

Pergunta: Qual é o impacto, para a formação de profissionais, deste fenômeno observado nas últimas duas décadas? Em outras palavras, o apagão científico vai gerar um apagão educacional?

Resposta: Sem interação entre universidade e empresas, a competição acaba. Os agentes econômicos (empresas e famílias), espelhando-se somente do governo, vão perpetuar a indústria da dependência. Sem criatividade, perder recursos que mantém o status quo funcionando passa a ser um suicídio social. O Estado começa a ditar como as pessoas devem proceder, o estímulo ao empreendimento é cerceado (pois rompe as barreiras da proteção garantida pelo Estado). As formações profissionais são ditadas pelo Estado, e muda, dependendo da vertente política que assume o poder, num verdadeiro “efeito sanfona” de gastos e arrochos fiscais. Na verdade, isso já está acontecendo no Brasil. Por isso a grande resistência encontrada pelo Ministério da Educação em implementar o Future-se e outros programas que visam trazer novamente o empreendedorismo e a inovação (e o contado empresarial) às universidades.

A estabilidade do funcionalismo público no setor de Educação é ainda um outro agravante, pois, se não há competição, e tudo é ditado pelo Estado, não há necessidade de prestar contas ao pagador de impostos (que financia seus salários). O apagão científico e educacional não virá, ele já está aí!

Pergunta: Um país sem relevância acadêmica tem condições de concorrer no cenário global, marcado pelo investimento pesado em pesquisa e desenvolvimento? Ou seja, o país vai sofrer um apagão econômico resultante do apagão científico?

Resposta: Sem relevância acadêmica, não há condição de concorrermos no cenário internacional, daí os resultados ínfimos em impactos de nossas pesquisas científicas em comparação com as mais diversas universidades do mundo. O Qualis CAPES foi apenas uma forma de mascarar a irrelevância da ciência brasileira. Somos replicadores, não formadores de ciência. Sem competição e sem empresas interagindo com nossos cientistas, todos os recursos direcionados pelo Estado à Educação serão utilizados em ideologias que venham manter o establishement da Educação atual. O dinheiro não gera efeitos práticos, não importa sua quantidade. Os cientistas perdem a capacidade de entender a sociedade.

Do ponto de vista econômico, o governo terá de viver sempre financiando empresas e famílias via crédito, ou via redução temporárias de impostos. Se houvesse tecnologia e ciência de ponta criadas dentro do país, as empresas e as famílias retomariam suas prerrogativas de criação da economia, gerando (por si mesmos) mais empregos, aumentando assim o volume de impostos arrecadados pelo governo. Esse aumento não incha a máquina pública, que passa a ter superávit em suas contas. A consequência inevitável é a redução natural de impostos no médio e longo prazos. O Estado não assume mais funções que competem ao setor privado atuar. Há redução da desigualdade social e sempre haverá novas oportunidades de criação de algo, a alma empreendedora nasce em todos os cidadãos!

Sem ciência de impacto e sem novas tecnologias internas, o governo será forçado a aumentar impostos e taxar grandes fortunas para dar conta do processo de produção econômico totalmente dependente dele. Estabelece-se monopólios, cria-se atos corruptos favorecendo empresas específicas, o Estado tem suas contas deficitárias, sendo obrigado a imprimir cada vez mais títulos públicos, fazendo a dívida pública aumentar exponencialmente. Sem credibilidade futura, o mercado financeiro passa a considerar o país um investimento de risco, levando o país a ser alvo de especuladores que lucram em cima de crises ligadas a calotes na dívida pública ou instabilidades no governo.

O aumento da instabilidade econômica força o governo a gerar títulos com maturidade alongadas, mas a taxas de juros quatro vezes maior à anual. Os juros da dívida pública aumentam. Esse cenário foi vivenciado em toda sua plenitude no período entre 2015-2018, frutos do endividamento de risco da era Lula-Dilma para manter o Estado mantenedor e influenciador da economia. Quando não se tem ciência, se tem dívidas!

Se o Estado persiste nessas dívidas (e no perfil de influenciador da sociedade), assumindo funções do setor privado, ele será obrigado a dar calote em suas dívidas (Ex: Argentina) e fechar-se ao mercado financeiro internacional. Sem crédito, impedirá que os cidadãos transfiram suas poupanças para investimentos em outros países (ou em ações ou títulos). Os preços começam a aumentar (pois há um reversão entre o longo prazo e o curto prazo). Não faz mais sentido (para o cidadão) poupar, ele consome tudo hoje, gerando um verdadeiro “carpem diem” nacional. A economia implode, o Estado vem à falência e a miséria se instala de forma sem precedente (Ex: Venezuela).

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