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Quanto mais bolsonarista, menos petista

 


Comparar o movimento bolsonarista ao petismo é evidentemente a nova estratégia de parte da imprensa, liberais e outros movimentos de centro-esquerda, que procuram construir uma fórmula apta a manter o PT longe do poder enquanto alienam o eleitorado conservador da base bolsonarista. Por mais esdrúxula que seja a comparação, a mera existência de uma militância governista sólida parece conectar as situações, e o eleitor de Bolsonaro se pega acuado, sem entender como se deflagrou o ataque, ou como defender sua posição política, contrária a tudo que o PT representa. O ataque progressista é relâmpago, feroz e, como a blitzkrieg nazista, tem como objetivo impedir que o inimigo consiga se recompor e contra-atacar. O assalto é de conteúdo incongruente, mas o método é sofisticado. O alvo da investida vertiginosa é um dos alicerces da mente humana: a construção do imaginário por meio de associações.

Os sentidos humanos transferem à alma conceitos únicos e disformes que geram um universo inteligível por meio de associações existentes apenas no plano da imaginação. Diante disso, somos, sempre, acometidos pela tentação de descrever coisas e situações não pelo que são – com suas propriedades manifestas no mundo fenomênico – mas por associações absolutamente arbitrárias e muitas vezes antagônicas, criadas e recriadas constantemente a fim de se desenhar um imaginário lúdico e infantil.

Ao depararmos com algo novo, tendemos a traçar comparações com aquilo que já conhecemos, ainda que a associação seja unidimensional e os objetos confrontados naturalmente antagônicos. Assim o fazemos não por método ou convicção, mas por intuição e, principalmente, para criarmos um canal entre a informação nova – ainda amorfa e abstrata – e a antiga, já devidamente ordenada na memória. Logo, por estarem no mesmo plano mensurável, calor e frio se equivalem; por sua dimensão, o deserto é visto como mar de areia; e sob o prisma cronológico, da vida arranca-se a morte, que passa a ser sua antagonista.

Na realidade brasileira, nada parece mais inédito do que o atual Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. Ímpar como candidato e político, Bolsonaro tornou-se alvo óbvio de equiparações. Todavia, como sói ocorrer na política, as comparações não seguiram o curso natural da mente humana, mas foram instrumentalizadas.

A imensa maioria dos jornalistas brasileiros, esquerdistas convictos e aversos à democracia, inicialmente classificaram Bolsonaro por meio de associações óbvias ao homem socialista. O então candidato seria um político fascista, neonazista e radical de extrema direita. Porém, a pressa em classificar Bolsonaro nada dizia sobre o candidato em si, mas desvelava a cosmovisão da imprensa. É da natureza humana a tentativa de influenciar seus semelhantes por meio de associações. Para tanto, o indivíduo compara o que lhe é agradável ao que é universalmente aprazível; e o que lhe é repugnante àquilo que é reconhecidamente abjeto. Se a imprensa buscava retratar Bolsonaro por associação, é porque não o conhecia, ou deliberadamente optava por não o descrever com fundamento na realidade; e se nesse processo utilizava as balizas mais extremas, seu intuito era de influenciar e não de informar.

Consumada a vitória de Jair Bolsonaro, a comparação de seu governo com regimes ditatoriais do passado se fez inexequível. Além do mais, as associações grosseiras e desapegadas da realidade não surtiram os efeitos desejados no eleitorado bolsonarista.

Diante de um governo inédito, guiado por um agente histórico imponderável, a imprensa redirecionou seus esforços descritivos. Bolsonaro não é mais um radical de extrema direita, mas o substituto natural do “lulopetismo”, agrupamento político infame de esquerda e caracterizado pela corrupção endêmica. Novamente, o paralelo revela pouco sobre o governo e sua base, mas muito sobre o público-alvo da imprensa brasileira. Ao tentar esculpir o imaginário popular, oposição e imprensa, juntos, empenham-se em convencer os incautos de que Bolsonaro é idêntico a Lula, e que bolsonaristas são os novos petistas; e se não são idênticos em substância, equivalem-se em método e extremismo. Não basta mais que Bolsonaro seja detestável para a imprensa, já derrotada. Agora, o capitão deve se tornar repulsivo para seus próprios eleitores, adversários inflexíveis do petismo.

É impossível apontar qualquer ponto de semelhança ideológica ou pragmática entre o governo Bolsonaro e o governo de Lula. Contudo, a comparação não leva em conta as semelhanças, mas justamente a distância entre os grupos sobre o mesmo tabuleiro político. Ambos são tão diferentes que podem ser descritos como um sendo o inverso do outro. Então, diz-se que a escolha por um ou pelo outro é idêntica, mas ao contrário. Este verdadeiro exercício de demência denota que a referida associação não passa de estratagema político para esmorecer a oposição à esquerda, que de forma alguma deseja sentir-se ligada ao socialismo cleptomaníaco do PT.

Da livre iniciativa à legitima defesa, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva são diferentes em absolutamente tudo, e se não são comparados por semelhança, certamente o são por oposição e hipérbole. Também suas militâncias são como água e óleo. Bolsonaristas buscam a honestidade de maneira intransigente, enquanto petistas ignoram os mais comezinhos princípios da boa-fé. Ao comparar movimentos políticos tão distintos e inconciliáveis, a imprensa organizada aposta todas suas fichas em sua capacidade de moldar o imaginário do brasileiro, fazendo algo bom ser visto como ruim com base em apenas um único elemento comparativo: intensidade. No uso de tal metodologia, chega-se às mais obtusas conclusões, e.g.: que a defesa apaixonada da liberdade é um atributo hitlerista, porque intensa; ou que a salvaguarda férrea do capitalismo é qualidade stalinista, pois radical.

Apesar de nosso subconsciente ser rapidamente moldado por associações, o exercício da razão – desenvolvido na fase adulta – ordena aquelas associações lúdicas e primitivas, cuidando para que o raciocínio maduro não descambe ao absurdo e à imbecilidade. Expressões como “bolsopetismo” ou “PT ao contrário” presumem um interlocutor desprovido de pensamento desenvolvido, ainda cativo das associações infantis. O alvo da imprensa é o idiota. Portanto, se o leitor conhece alguém que repete o mantra do “é-o-novo-PT”, ajude o imbecil a remover o alvo da própria testa.

 

Enrico Bianco, Coalizão Conservadora

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