Luis Vilar

Sertillanges e os intelectuais: a verdadeira busca não é o aplauso, mas estar certo!

Tenho um respeito enorme por quem dedica a vida aos estudos de forma séria. Isto independente de se traduzir em títulos acadêmicos (o que é legítimo e pode ser uma forma de reconhecimento justa) ou não, pois a verdade não se mede por isso, já que ninguém é dono dela e o estudo compenetrado e compromissado é uma forma de se estar a serviço desta VERDADE.

Desde que li A.D Sertillanges em A Vida Intelectual, sai convencido de que tal esforço sobre-humano de se buscar esta vida não é para mim. Gosto de estudar, mas sou indisciplinado e meus métodos só servem a mim mesmo, como os fichamentos malucos que eu crio e que fazem com que só eu mesmo me encontre em meu caos. Isto aumenta ainda mais o meu respeito por quem segue tal vida e de fato merece o título de intelectual. Não é para qualquer um, apesar do termo ter sido banalizado. É uma coragem sobre-humana e um desapego gigantesco que leva à verdadeira vida intelectual.

Ele é tão banalizado nos dias de hoje que eu realmente fico constrangido que alguns amigos usem tal termo em relação a mim. Só não fico puto por creditar à generosidade destes. Eu não me enxergo na vida que Sertillanges propõe e que para mim é o exemplo do intelectual, desde quando ele fala do isolamento à consagração ao amor ao saber. Creio até que é uma vocação, pois a verdadeira intelectualidade não é orgânica, no sentido de estar presa a uma engrenagem para dar uma pseudo-lógica aos fatos em nome de uma visão política ou ideológica.

Os verdadeiros intelectuais – como Georges Bernanos – se desprendem disso. Lembro aqui do sentido presente em uma frase irônica do Olavo de Carvalho, quando ele diz: “não sou de direita nem de esquerda. Sou da mamãe”. É isso!

Ainda que não seja isento, o intelectual abraça a verdade acima de suas convicções, tratando as próprias opiniões a chicotadas para saber se se sustentam. Isso faz com que ele não esteja em maioria ou minoria, mas só. O que diz, a priori, não agrada nem desagrada, podendo gerar desconfortos, impactos e até a rejeição de quem o admira por outras posições já firmadas. A preocupação não é agradar ou não, mas dizer a VERDADE.

Antonio Gramsci vulgarizou esse entendimento e colocou o intelectual como sinônimo de classe falante dentro de um processo orgânico que serve a uma revolução cultural, uma engenharia-social, em que o “pensador” é o rosto não confesso de uma ideologia ou um partido, na busca por fazer com que uma massa abrace tal visão, sem muita reflexão do que abraça, e passe a viver dentro da bolha ideológica sem sequer precisar abraçar tal ideologia.

Faz-se uma redoma, uma censura ideológica a medir “opiniões” e relativizar a verdade desde que dentro dessa bolha. Afinal, tudo que sair dela será visto como um repulsivo extremismo, impróprio de ser dito e combatido por uma das faces desta censura ideológica que chega ao cúmulo de virar auto-imposta: o politicamente correto.

Logo no primeiro capítulo de sua obra, Sertillanges coloca que “falar de vocação equivale a designar os que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida, ou porque dispõem de vagar para se entregarem ao estudo, ou porque, no meio das ocupações profissionais, reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito”.

Vejam, há aí um compromisso com a própria centralidade da psiquê, com a fuga das fogueiras das vaidades, com o isolamento para que se pense sobre o que se pensa e investigar a origem das próprias ideias que se estar a professar. Só isso já rompe com as “pressões” dos “clubinhos de reconhecimento” que, por meio de discussões masturbatórias, se auto-referencia como detentores de verdades a serem proclamadas para o senso-comum.

Sertillanges fala do compromisso com a verdade, consigo mesmo e com viver integralmente esse processo sem se importar com as pressões externas e estando até mesmo sujeito ao assassinato de reputação em nome do amor ao saber, ao dizer o que deve ser dito. Por isso que o próprio autor afirma que “uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração, continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouver comunicar-nos”.

E aí, como também reflete o pensador, quem se aventura nesse caminho sem ter o pé firme, vai sofrer de antemão com decepções. A primeira delas talvez seja a tentativa açodada de quem escuta tudo já na busca de enquadrar em um rótulo disposto em conjecturas binárias: ou se isto ou se é aquilo. “A vida de estudo, sendo austera, impõe duros encargos”. Um destes são privações de várias formas “ao se dar de alma e coração à conquista da verdade”.

Sinceramente, esforço-me para ter em mim 10% do que Sertillanges fala. O autor coloca como exemplo de vida intelectual o Santo Tomás de Aquino. Eu concordo. Aquino mostra a realização plena de si mesmo na busca pela VERDADE, afastando-se das eurísticas mentiras que afagam a alma e nos fazem ser aceitos em determinados contextos onde “parecer inteligente” é vomitar o que só nos serve de adorno em reuniões cheias de tapinhas nas costas e distribuição de serviços aos “intelectuais” em nome de uma causa.

Percebam a clareza desse texto de Sertillanges:

“Todos os caminhos, exceto um, são maus para vós, visto que todos se apartam da direção onde se espera e se requer a vossa ação. Não sejais infiel a Deus, nem a vossos irmãos, nem a vós próprios, rejeitando um apelo sagrado. Isto supõe que se abraça a vida intelectual com intenções desintereisseiras e não por ambição ou vã glória. Os guisos da publicidade só tentam os espíritos fúteis. A ambição, que quisesse subordinar a si a verdade eterna, ofendê-la-ia. Brincar com as questões que dominam a vida e a morte, com a natureza misteriosa, talhar-se um destino literário e filosófico à custa da verdade ou fora da dependência da verdade, constitui um sacrilégio. Tais intentos, sobretudo o primeiro, não conseguiriam manter o investigador; depressa o esforço esmoreceria e a vaidade haveria de entreter-se com bagatelas, sem curar das realidades”.

Tão forte quanto não é fácil. Como diz em Eclesiastes, “vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades. Tudo é vaidade”.  Fugir dessa redoma, que emula uma intelectualidade quando se vira referência de algo, passa a ser um desafio de quem abraça a vida intelectual, pois quando se busca a VERDADE e o compromisso é com a VERDADE, o isolamento sempre vem por força das circunstâncias. E aí, com o que estará compromissado o tal intelectual: com o que enxerga ou com o que conquistou e acredita ser sua paga?

É que no “panteão dos deuses” se obtem sem gastar. Esse é um desejo que corrompe os corações: o desejo de ser reconhecido pelo que se acredita que se vale. Isso também corrompe. Por isso que Sertillanges chama atenção para o que considera ser “um desejo universal”. Porém, é duro: “mas desejo de corações covardes e de cérebros enfermos. O universo não acorre ao primeiro sussurro e para que a luz de Deus baixe a essas lâmpadas, é necessário que as vossas almas a peçam instantemente”.

O verdadeiro intelectual é aquele que tende a querer o que a verdade quer; “consenti, por causa dela, em vos mobilizardes, em vos fizerdes nos seus domínios, em vos organizardes, e porque vos falta a experiência, em vos firmardes na experiência alheia”, complementa Sertillanges.

E assim, nessa busca, não descuidar do alicerce do saber por conta do desejo de apresentar a casa pronta com o mais belo dos telhados. Para cada casa de palha, um lobo a solta ronda. O nome desse lobo é tempo. Senhor da razão que chega e derrubará tudo de forma fácil. Se compromissados estava com teu pequeno reino, tua casa não será sólida o suficiente para o Reino que verdadeiramente importa.

Sertillanges se tornou, para mim, um conselheiro, ainda que eu rejeite plenamente ser um intelectual. Sei das minhas falhas, do quanto o caminho é longo, e do quanto ainda estudo pouco para atingir tal nível de excelência e de desprendimento. Todavia, cada mergulho em Sertillanges me faz conviver melhor com alguns isolamentos que me afligem, como a perda de amigos na jornada e os elogios perecíveis que chegam.

Sertillanges nos faz aprender qual é o verdadeiro compromisso e em nome de quem os sinos dobram. Por fim, não se incomode em estar só. Incomode-se, antes de tudo, em saber se estar mentindo – deliberadamente ou não – e aplaudido e reconhecido por isso.

Tags
Ver mais

Artigos relacionados

4 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close