SOBRE O PROCESSO MOVIDO CONTRA O CANAL PORTA DOS FUNDOS

EDITORIAL

O PROCESSO MOVIDO RECENTEMENTE PELO CENTRO DOM BOSCO CONTRA O CANAL PORTA DOS FUNDOS traz à tona uma incontornável diferença entre o pensamento liberal e o conservador, que não impede colaborações e coalizões, mas que mostra por que em última instância o liberalismo não é capaz de fazer resistência ao desmoronamento da sociedade, especialmente quando se tenta evitar este desmoronamento em seus princípios.

Pois, para o liberalismo, a lei de ultraje a culto está tão errada quanto para um conservador será errada uma lei que pretenda obrigar o ensino da ideologia de gênero nas escolas. Revise novamente a frase anterior, caro leitor, pois ela é tão verdadeira quanto grave.

Para o liberalismo, é tão abominável proteger contra vilipêndios o culto cristão (e isso numa sociedade predominantemente cristã, e fundada em princípios cristãos!) quanto proteger o delírio que é a ideologia de gênero.

Isso porque o liberalismo é radicalmente relativista quanto à idéia de um bem comum objetivo e reconhecível — ou melhor: postula que a percepção deste bem não é objetiva o suficiente para que deva ser promovido coletivamente na instância estatal. Para fins de preservação legal positiva, não deriva da natureza humana senão a evidência de dois tipos de bens, a saber, a liberdade de ação e a propriedade resultante desta liberdade de ação. O estado se encontra, portanto, no dever de proteger a liberdade de ação, mas proibido de tentar promover boas ações. À primeira vista isto parece desejável a um povo como o nosso, que só tem tido péssimos exemplos de estado nos últimos 35 anos — alguns diriam que, salvo raras exceções, nos últimos 128 anos — e que só conheceu um estado empenhado em promover e preservar vícios. Mas esta proposta, de atar as mãos do estado em matéria moral, por mais que pareça acertada, cria na verdade um impedimento radical para qualquer projeto de solução da crise em que vivemos, pois esta crise é MORAL em sua essência. Não econômica, mas moral.

Um exemplo evidente disso é o da defesa do livre mercado, uma bandeira constantemente levantada pelos liberais, que explicam incessantemente como temos burocracia demais, proteção demais, ingerência demais. Ora, até os políticos que implementam burocracias insuperáveis sabem muito bem como suas decisões entravam a economia. Não são idiotas. Mas eles as implementam mesmo assim, seja porque com elas geram cargos e outras oportunidades de desvio de dinheiro público, seja para não ser demonizados por uma grande imprensa engajada na destruição da sociedade, seja para não perder favor com entidades globais bilionárias, seja para intensificar o controle sobre a sociedade em prol de um projeto revolucionário, etc. etc. Aliás, alguns desses políticos são também os primeiros a defender o livre mercado em certas situações de crise, quando vêem que não lhes será possível parasitar uma economia moribunda. O problema — ao menos hoje — não é ignorância do povo quanto ao fato de que temos burocracia demais, ou a ignorância dos políticos, mas a baixeza moral destes políticos e magistrados, que os move a dizimar e escravizar seu povo em favor próprio. Apontamos este fato óbvio apenas para indicar como, quando vamos à raiz do problema, é inócua no melhor dos casos qualquer corrente de pensamento que defenda que, por princípio, a coletividade está proibida de usar o estado para coibir aos menos os casos mais graves e escandalosos de baixeza moral. Isto não é apenas errado, mas perpetua o atual problema. Se acrescentamos a este quadro o conhecimento da natureza humana ferida e de sua constante tendência ao pecado, de quão fácil é abraçar o vício e de quão difícil é abraçar a virtude, este erro do pensamento liberal o transforma de inócuo a nocivo: pois, numa sociedade onde os vícios têm os mesmos direitos das virtudes, ou onde as virtudes são desprotegidas na mesma medida em que o são os vícios, a tendência humana é a de abraçar o vício. Liberais apontarão e denunciarão (corretamente) como se degeneram aqueles que abraçam os vícios promovidos pelo marxismo cultural, mas serão os primeiros a impedir qualquer cerceamento público desses mesmos vícios, o que facilita sua glorificação e imitação. Infelizmente parecem ignorar que a imitação é o modo primário do aprendizado; que um povo desmoralizado pode se emendar se estimulado a imitar quem pratica a virtude (ainda que a virtude lhe pareça inicialmente estranha e indesejável) mas que pode também corromper-se ainda mais se estimulado a imitar quem pratica o vício (ainda que o vício lhe pareça inicialmente estranho e indesejável).

Para o liberalismo, qualquer coisa além da proteção da liberdade (inclusive da liberdade para escravizar-se ou destruir-se com drogas) se torna tirania. Nisto, são tão relativistas quanto qualquer sociólogo da USP, e infelizmente não percebem este entrave gigantesco para a solução do atual problema societário em que vivemos. Lutarão tanto contra a lei de vilipêndio a culto quanto contra a lei que obriga a ensinar a vulneráveis mentes em formação que “ser homem” e “ser mulher” são escolhas tão arbitrárias quanto hoje comer peixe e amanhã frango.

Seu problema não é a matéria em discussão (para eles indiferente e limitada a juízo de foro privado), mas a noção de que o estado tenha por princípio a missão positiva — que ele hoje se nega a cumprir, e só a cumpre quando acuado pelo povo — de promover bens e coibir males, sempre balizado por princípios de prudência e subsidiariedade. O liberalismo lutará contra isso porque vê a liberdade como limite do bem comum objetivo, e quem pensa o contrário — alguém já ouviu isso da boca da própria esquerda que eles tentam combater? — é “totalitarista”, é “autoritário”, é “fascista”.

PS: O adjetivo “Livre” em “Terça Livre” não exalta a faculdade do livre arbítrio em si, que o liberalismo trata como sinônimo de liberdade, mas a condição de liberdade em seu sentido mais pleno e verdadeiro: o de um livre arbítrio que, aperfeiçoado pelo conhecimento da verdade e pela prática da virtude, torna-se desimpedido para escolher o bem.