Terça Livre > Artigos > Allan Dos Santos > Quanto a “suprimir ou não suprimir” Judith Butler

Temos aí mais uma diferença entre o pensamento de cariz liberal e o conservador (ou simplesmente o da filosofia perene e da lei natural), que inevitavelmente viria à tona em nossos tempos.

A moral natural não diz que toda e qualquer idéia deva vir à praça pública sem nenhum critério prévio, pois nos ensina muito bem que sua própria admissão à praça pública dá a esta idéia o benefício de que ela poderia ser aceitável ou eventualmente normal. No momento em que uma sociedade se põe a discutir se deve “legalizar o aborto ou não”, ou “sexualizar as crianças ou não”, ou “dar testosterona a meninas e estrogênio a meninos ou não”, ou “comer carne humana ou não”, ela não deu um passo na direção certa, mas na direção errada.

O conservador (ou, novamente, aquele que simplesmente observa a moral natural) não abraça a idéia voltairiana de que não deva haver resistência nenhuma ao discurso em praça pública, pois sabe muito bem quantos monstros se esconderão sob a “liberdade de expressão”, como aliás estão fazendo agora. Mas pode exigir coerência daqueles que a abraçam.

Nada nos impede, quando nos opomos a comunistas e revolucionários de diversos matizes, de jogar contra eles sua própria — alegada — adoração à liberdade irrestrita de expressão, que se mostra deveras seletiva conforme as circunstâncias: quando ainda predomina na sociedade a opinião que odeiam, defendem a liberdade irrestrita, para poder atacar tal opinião; quando já predomina na sociedade a opinião que amam, eliminam a liberdade por completo, para proteger tal opinião. Dizemos: nem um, nem outro.

Se lhes lançamos o argumento de que: “você se diz um partidário da plena liberdade de expressão, e por isso agora não pode querê-la apenas para você, e deve tolerar minhas opiniões, não importa quão escandalosas elas lhe pareçam“, não estamos sendo inconsistentes se, de nosso lado, nos opomos a certas manifestações e debates cuja mera proposta pública consideramos escandalosa e radicalmente deletéria ao bem comum (como os casos exemplificados acima). Isto porque, em primeiro lugar, nunca sustentamos (como o fazem os liberais sinceramente, e os comunistas falsamente) que todo e qualquer debate é lícito e bom. Eles sim, e por isso estão atados a tal critério.

Ora, toda dialética se assenta sobre tópicos comuns tacitamente aceitos, e o truque destes movimentos tem sido (década após década) o de subverter os tópicos comuns da sociedade antepondo forçadamente a existência da dialética pública que retroativamente os renega. Uma sociedade que se obriga a levar a sério e acolher indistintamente em sua praça pública qualquer absurdidade (seja canibalismo, aborto, mutilações sexuais, pedofilia, o que for) é como um cidadão que deixa aberta a porta de sua casa a qualquer um, porque está obrigado a crer que todas as pessoas na rua são igualmente razoáveis e inofensivas.

Dizemos portanto que boicotes, abaixo-assinados, etc., podem sim ser realizados licitamente para manter certas posições à margem do aceitável. Os princípios nos parecem claros o suficiente. O que a prudência exige é saber aplicá-los a cada caso particular.

A energia destas medidas de rechaço deve sempre se pautar pelo que é cabível nas circunstâncias (e na sociedade) em que estamos imersos. Não podemos causar mais mal do que bem na tentativa de repelir o mal. Por exemplo: possivelmente a invasão de uma turba enfurecida é o que a exposição do Queermuseum e a do MAM ::mereceriam:: numa sociedade minimamente sã, mas 1- isso seria (pelo menos à primeira vista) um tanto incompatível com o grau de imperfeição moral da nossa própria sociedade atual, que promoveria tal invasão; e 2- a mídia teria então instrumentos para manipular o povo no sentido de apoiar aquelas monstruosidades “vitimizadas”, e o mal só aumentaria. No nosso atual momento, manifestações no local, boicotes, abaixo-assinados, denúncias formais ao MPF (no caso de violações da lei), estão perfeitamente dentro do aceitável. Mas isto pode mudar e o aceitável pode se tornar mais abrangente, caso os acintes à moral continuem se agravando e, em vetor contrário, a sociedade continue a emendar-se para estar à altura moral de poder exercer plenamente sua indignação.

Editorial Terça Livre
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