Tragicomédia liberal

Por Rafael Libardi

Quando o Ítalo me convidou para ser colunista do Terça Livre, fiquei pensando em um assunto relevante e urgente para começar bem a minha nova função. Foi aí que um liberalzão começou a se portar como pombo nas minhas postagens do Facebook e eu percebi que a fortuna de Maquiavel não é privilégio exclusivo dos governantes. O homem simples-branco-heterossexual-cristão-conservador também tem seus lances de sorte.

O que tenho a dizer hoje a vocês é que personagens se repetem ao longo da história. Primeiro veio Lutero e a libido reformadora. Aí deram-lhe casacas, pó-de-arroz, perucas espalhafatosas e ele transformou-se em Robespierre. Em seguida arrancaram-lhe os badulaques, botaram lá um barriga postiça e deixaram a barba crescer; nasceu Marx.

Com os liberais não foi diferente, é claro. O assistente de palco pegou o idiota útil da esquerda pelo colarinho e o levou ao barbeiro. Depois deu aquele banho de shopping e o matriculou num cursinho de Escola Austríaca. Pronto! O liberalzão que faz vezinho de lado com os dedos saiu tinindo, como dizem em São Manér.

Um leitor desatento – ou meio liberal – certamente gostaria de entender a bagunça. Explico. É que, no seu culto à liberdade platônica, o liberalzão nem percebe que faz o trabalho de graça para os comunas. Aliás, a coisa é tão escancarada que não seria de todo estranho se o próprio comuna o defendesse por trabalho análogo à escravidão. Seja como for, fato é que o próprio Fidel já sabia disso 50 anos atrás, no encontro que se deu em Havana, com Salvador Allende. “Devemos defender a campanha dos usuários de drogas em nome dos direitos individuais”, disse o tirano. Ele sabia, portanto, que a “agenda liberal” não tem nada de liberdade, trata-se apenas de dominação psicológica e controle social.

Mas isso tudo é implicância de conservador chato, moralista e inflexível, obviamente. E também é pura nostalgia cristã o fato de que Deus nos concedeu uma liberdade guiada, e não absoluta, porque nos foi dada para ser desfrutada de acordo com os preceitos que Ele estabeleceu. Do contrário, vender drogas na cantina da escola e na favela seriam atitudes equivalentes em termos morais – abortar e comer o feto abortado, também. Como já sabia São Paulo, tudo podemos, mas nem tudo nos convém. E esse é o ingrediente que falta aos liberais.

Não obstante, como nem só de pão vive o homem, nem só de liberdade vive o liberalzão. Em sua dieta também estão a gestão da coisa pública e o livre-mercado, aqui genericamente entendido como Capitalismo. Assim, o mantra que guia o liberalzão; a campainha pavloviana que o faz salivar de emoção é a sentença “Capitalismo, logo Direita”. Ocorre que o Capitalismo nunca foi o Obi-Wan dos comunas. O verdadeiro inimigo do Darth Vader vermelho chama-se Cristianismo, já que o Capitalismo nunca passou de um cachorro que os diabinhos conseguiram prender na coleira. Nem Mao, nem Stálin, nem Lênin o disseram, mas o próprio Engels: a Revolução Industrial foi o mal necessário para que a ordem cristã começasse a ruir. Por quê?

Bem, porque toda revolução vem para destruir a ordem vigente, isto é, para transformar social, economica, politica e espiritualmente as estruturas da sociedade. O que o Capitalismo fez nos Séculos XVIII e XIX, por conseguinte, foi arrebentar a super-cola que mantinha as pessoas grudadas à sociedade familiar. A super-cola, evidentemente, é o Cristianismo, que foi gradualmente substituído pelo chão de fábrica e pelo tripé iluminista da Revolução Francesa (LIBERDADE, Igualdade, Fraternidade). Essa ruptura é que abriu a fenda necessária para que o Estado moderno entrasse e transformasse o antigo mundo cristão, sobrepondo os valores impressos em cada muro da antiga ordem pelos novos valores jacobino-capitalistas, recebidos com grande entusiasmo pelos comunas. Logo, quando você ouve um cabeludo remelento dizendo que vivemos na “sociedade materialista do consumo”, ele está certo, embora nem sonhe que o próprio Comunismo é que nos leve a isso. Da mesma maneira, está certo o liberalzão que vê o inimigo no Estado, apesar dele nem fazer idéia de que o Liberalismo é que ajudou a criar o monstro. É por isso que o liberalzão enxerga a salvação em João Dória, no partido NOVO e nos tucano-batutinhas do MBL, já que a trinca seria a suposta portadora do Graal liberal.

Pouco lhe importa que Dória esteja trazendo o islamismo ao país e que tenha Hillary Clinton e Michael Bloomberg como referências, justamente os seres mais estatizantes do planeta.

Pouco lhe interessa que os maiores doadores do NOVO sejam a nata do sistema financeiro que bancou as campanhas de Lula e Dilma, precisamente os sujeitos mais oportunistas da face da Terra.

Pouco lhe afeta que o MBL seja a nova geração do PSDB, rigorosamente composta pelos moleques mais despreparados da auto-proclamada “direita”.

Tudo vale a pena se a grana não é pequena, não é mesmo?

Dessa forma, no que diz respeito ao cenário político, a única diferença entre um liberalzão e um beneficiário do Bolsa-Família é que este vende o voto por fome enquanto o outro o faz por tesão ideológico. Na análise fria dos fatos, o liberalzão é ainda mais culpado do que o pobre-coitado que precisa sustentar a família, porque padece de uma ignorância criminosa que tinha o dever de não possuir.

Digo, pois, que seguirá no erro qualquer pessoa que faça suas escolhas pelo slogan “Capitalismo vs. Socialismo”. Os liberais não são, nunca foram e nunca serão A “direita”, ainda que, ao melhor estilo Luís XIV, sigam proclamando que o são. Se existe alguém que pode verdadeira e entusiasticamente entoar o bordão “La droite c`est moi”, este alguém é o Cristianismo, dado que o movimento revolucionário é o porta-voz do Mal na Terra. Nessa batalha, portanto, cabe a cada um escolher o personagem que mais lhe convém: se o revolucionário, o idiota útil ou o cruzado. Isso é o que definirá os rumos do país.

Vejo vocês na próxima.

  • Yuri De Meireles

    Rafael,

    Parabéns pela visão lúcida e clareza impar na exposição das suas ideias. Acompanho você faz pouco tempo no facebook, mas esse seu artigo já é mais do que suficiente para reforçar mimhas impressões de que você está fazendo entre os mais bem preparados e lúcidos alunos de Olavo de Carvalho: eu desde já te enxergo no mesmo patamar de Felipe Moura Brasil, Rodrigo Gurgel e Flávio Quintela.
    No que diz respeito ao artigo, concordo com ele, os liberais não conseguem enxergar quem é o verdadeiro inimigo porque não se prepararam o suficiente. Os esforços deles sào limitados a questões secundárias e periféricas como economia e gestão da máquina pública. Isso quando não são eles próprios os inimigos, como no caso do Joel Fonseca do NOVO e o Renan Santos do MBL. Muitas vezes eles acabam mesmo sendo parte do problema e não podemos virar as costas para esse problema pois as coisas sempre podem ficar piores, sempre.

    • Yuri De Meireles

      Recomendo a todos desde já o ” Sorria, Você está sendo Enganado” do Rafael C. Libardi. Já reservei o meu. Este livro tem uma proposta muito interessante. Tenho certeza de que as minhas expectativas serão preenchidas.

  • CHR

    que texto sujo, canalha e desonesto
    Vc critica o posicionamento da esquerda em relacao a algumas pautas, porem diz que a questao de liberacao de drogas e para ter controle social, porem defende que um estado(da maneira que vc defende) controle as coisas que individuos podem fazer.
    Voce nao passa de um canalha coletivista que quer que individuos sejam posse do estado que voce defende como sendo o correto
    Duplipensar da direita, vemos aqui
    ps: o proprio lema da rev francesa e incoerente pois NAO ha igualdade (socialismo) e liberdade.