ArtigosLuis Vilar

Um pai, livros e um filho…

Como diz Sherlock Holmes, no conto da Liga dos Ruivos: “seguirei acumulando fato após fato em suas mãos até o momento em que seu raciocínio ruirá sob o peso deles, admitindo que tenho razão”.

É, senhores, Holmes nos concedeu, por meio da literatura de Arthur Conan Doyle, a melhor definição daquele chato que insiste em incomodar os ideólogos com uma pergunta tão fora de hora: “Mas e a porra da verdade?”.

Mas, o texto não é sobre Holmes, mas sobre meu pai e o que ele jogou em minhas mãos para que eu pudesse ruir. Como sou grato às quedas e às reconstruções…
Agradeço todos os dias meu pai por várias coisas que fez em vida. Entre elas, me transformar em um leitor por vias indiretas e diretas.

Meu pai lia muito. Tinha uma biblioteca em casa, mas sempre comprava para mim HQs e livros que ele afirmava ser “de acordo com a minha idade”. Porém, subversivo em demasia, eu aproveitava os momentos em que ele não estava em casa para invadir sua biblioteca.

Aos 12 ou 13 anos pensava: “De acordo com a minha idade? Quem ele pensa que eu sou que não sou capaz de entender ou ler os livros dele!”. E assim, desafiava o perigo, ao retirar um dos livros de sua estante sempre colocando outro no lugar para não deixar o “vazio” como rastro.

Escondia o livro “fora da faixa etária indicada” debaixo do travesseiro para ler quando ninguém estivesse por perto. Descobri Edgar Allan Poe, Hermann Hesse, Arthur Conan Doyle, Thomas Mann e outros desta forma.

Achava-me o “espertão” ao invadir o ambiente sagrado de meu pai em surdina. Mas, não deixava de lado os livros que ele me dava, pois ele sempre perguntava o que eu tinha achado de Robert Louis Stevenson, por exemplo. É, eu tinha que conversar sobre a obra com ele. Eu contava a história e lá vinha ele com reflexões sobre os personagens e a realidade. Até sobre as HQs ele perguntava. Neste caso, só eu falava, pois ele não as lia.

E assim foi até o dia em que do nada ele indagou: “E aí, está gostando de Sherlock Holmes?”.
Eu gelei. O “espertão” havia sido descoberto. Gaguejando disse: esse aí eu nunca li. Meu pai retrucou: “Então você acha que só colocando o livro debaixo do travesseiro vai compreender a história?”. Após a frase, o coroa começou a ri. Naquele dia, ele me levou para a sala onde guardava os livros e mandou eu pegar um qualquer. Peguei o estrangeiro de Albert Camus.

Assim foi até o fim da vida. Foi nascendo uma paixão por livros como uma herança. Assim aprendi a ler até o que não gostava, como o Catecismo da Igreja Católica e os livros de Allan Kardec. Meu pai não era espírita (muito pelo contrário), mas conhecia Kardec de cor. Era um católico enquanto eu era ateu, mas conhecia mais ateus que eu. Discutíamos horas sobre variados assuntos e eu sempre levava uma surra intelectual. Hoje, sou católico e amo a Igreja. Mas aí é outro papo!

Saia “puto da vida” e tinha que ler mais para um dia vencê-lo no debate. Era o meu sonho! “Um dia esse velho não vai conseguir me refutar”. Ainda lembro do “veja, segundo Edmund Burke…” e lá vinha o resto da reflexão. Eu lá sabia quem porra era Burke…quanto mais Tocqueville dentre tantos outros.

O mais engraçado era observar o velho citando essa turma ao mesmo tempo em que bebia uma cerveja em copo de requeijão, ouvia Nelson Gonçalves e comia galeto com a mão, sentado e uma cadeira de ferro dobrável como e estivesse em um botequim. Não perdia a simplicidade, nem bancava o intelectualóide. Apenas – de fato – vivenciava o que acreditava: que a cultura não era adorno ou verniz, mas algo a ser vivido.

Discordava de muita coisa que ele falava na época, mas admirava aquela honestidade.
Admirava até como levou até o fim uma fazendinha pequena no interior de Alagoas que nem dava lucro, mas prejuízo. Eu dizia: “Pai, vende aquilo lá. Com o dinheiro o senhor pode montar um negócio aqui em Maceió”. Ele: “Se eu fizer isso, me distancio do que sou e deixo de lado pessoas que dependem daquilo ali. Há pessoas que vivem daquela terra e um homem sustenta até o fim aquilo que ama”. As razões dele, muitas vezes, eram incompreensíveis para mim. Mas, admirava sua força de vontade e compromisso com as coisas que assumia.

No leito do hospital, já perto de morrer – dentro de uma UTI, mas ainda consciente – me fazia, no horário das visitas, ler, no smartphone, todos os emails de trabalho que recebia e responder um por um, dando direcionamento, fazendo cálculos, apresentando soluções para a empresa na qual trabalhava etc. Eu: “Pai, isso é prioridade agora?”. Ele: “Pode não ser para você, mas é o compromisso que eu assumi com os outros. E não é porque eu vou morrer que devo deixar os outros nas mãos. Eu recebi por isso”.

São tantas histórias com aquele velho. Que há muitas coisas de suas lições indiretas que apenas hoje compreendo. Quando passei no vestibular, ele chegou “em casa” com um engradado de cerveja. Eu feliz, brinquei: “É, pai, agora vou ser dono do mundo, essa porra!”. Ele mandou ver sem dó nem piedade: “Seja servo da verdade, porque querer ser dono do mundo é coisa de canalha”. Só não engoli seco porque tinha cerveja.

E assim era o velho.

Sempre chegava com fatos e mais fatos despejando em minhas mãos até eu ruir com o peso deles e admitir que ele tinha razão. Quando me converti ao Cristianismo foi a primeira coisa que pensei: “Cacete, mesmo não estando mais no mundo, esse velho ainda fica derrubando um caminhão de fatos nas minhas mãos. Até quando vou ruir e ter que reconstruir sobre essas ruínas?”. Foi como se tivesse escutado uma voz na minha consciência: “Ô desgraçado, quantas vezes você acha que eu rui e me refiz para poder dizer tudo o que tinha a dizer a você?”.

Quem ousaria dizer que aquela voz interna não era ele.

Meu pai foi tipo um Sherlock Holmes para o qual nada passava batido. Eu fui meio que um Watson a escutar tantos “é elementar, seu porra”. Assim como Watson, eu anotava tudo. Hoje, a biblioteca dele não existe mais. Porém, no apartamento onde moro, cada pequeno livro espalhado pela casa, a estante lotada, e um banheiro desativado no qual um monte de livro está encaixotado, é também a presença dele.

O último presente que dei a meu pai foi um relógio e um livro do Lira Neto que era a biografia de Padre Cícero. O último livro que ele me deu de presente foi uma edição de luxo do Dom Quixote. “Por melhores que sejam nossas intenções, há moinhos de vento que são apenas moinhos de vento”, salientou o velho.

É verdade!

Mas esse moinho de veto cujas pás se movimentam pelas águas da saudade é sim um gigante terrível de ser combatido diariamente. Nesse combate, meu pai, só resta se banhar nas águas da memória e saber que toda vez que as pás giram elas geram uma energia que produz lições o tempo todo.

Foram 30 e poucos anos de convivência, eu sei…muito pouco, né?! Muito pouco! Mas até hoje invado uma biblioteca metafísica para roubar o que o senhor escreveu em seu tempo na terra, ainda que sem deixar nada escrito. Vira e volta carrego algo para debaixo do meu travesseiro, mas sem deixar vazios naquela biblioteca.

No peito, uma esperança: a de quando nos reencontrarmos, você perguntar o que eu achei desses livros que levei escondido. E saiba, vou tentar lhe refutar…mas, puta que pariu, já sei, já sei, já sei: vou ser surrado novamente!

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18 Comentários

  1. Olá. Li num rompante por acaso porque o assunto parecia ser sobre livros. Sua narrativa é muito clara e envolvente. E seu pai, uma pessoa exemplar. Obrigada por compartilhar, essa longa página de memória, me preencheu por hoje. Sensação gostosa como um abraço.

  2. Não costumo ler e muito menos comentar, mas achei seu texto maravilhoso. Passou a emoção do que viveu e aumentou minha curiosidade em saber mais e ler até o fim.

  3. Marcante.
    Ótimo modo de vida pra lembrar-se do pai. Leitura. Oxalá eu consiga ser esse tipo de modelo para os meus filhos. Obrigado por compartilhar esses momentos da sua vida Luis.
    Parabéns.

  4. Olhos cheios de lágrimas. Foi um verdadeiro sniper. Imensa SAUDADE DO MEU PAI, também. Obrigado Luís.

  5. Tinha ouvido falar que o texto era emocionante, mas superou as expectativas. Lindo! Riquíssimo!

  6. Lindo texto, impressionate como fez eu nao parar de ler e ir ate o fim.

    E me fez repensar o quanto sou mediocre, no sentido de nao ter menhum biografia em que eu possa fundamentar pensamentos, isso claro alem da biblia.

    Exemplo a ser seguido, primeiro de seu pai e depois o seu

  7. Nossa que bela história! exemplo a ser seguido na busca do conhecimento, um prazer ler suas memórias. Grande Luis Vilar

  8. Fantástico, realmente a leitura molda as nossas vidas e esse artigo gera uma urgência de conhecimentos, que nunca será saciada. Se Deus me der filhos, ensinarei essa sua lição a eles.

  9. Convivi com seu pai parte da minha infância e da adolescência dele, nossas famílias eram amigas, morávamos na mesma rua. Ele veio estudar em Maceió, perdemos o contato. Anos depois meu irmão precisou de um favor, liguei e o que já se arrastava há meses sem solução, foi resolvido em três dias como ele havia prometido. Tive a oportunidade de visitá-lo alguns dias antes de sua morte e lembro até hoje da sua acolhida fraterna e carinhosa, como lembro da sua admiração ao me ver anos depois aqui em maceió ” Meu Deus carreguei esta menina nos braços.” Realmente Gilvan era um homem de bem que “tinha compromisso com as coisas que assumia.”

  10. Grande Villar! Muito obrigado por esse artigo. Sinta-se abraçado. Que Deus e Nossa Senhora lhe iluminem, como o fizeram com seu pai.

  11. Luis Vilar, sempre marcante em seus artigos.
    Muito bom, assim como tudo que escreve e o que apresenta.
    Obrigado por compartilhar conosco, está fazendo a diferença por onde passa e em todos que dedicam um tempinho do dia para ler seus artigos ou mesmo acompanhar o seu trabalho.
    Parabéns Luis Vilar.

  12. Meus olhos marejaram com sua história, não porque tive um pai semelhante ao seu, na verdade, meu pai é semianalfabeto, ele fez o que pode dentro de suas limitações, mas porque me vi como o pai que hoje sou frente a dura missão de guiar minha filha no caminho da verdade. Este é o legado que quero deixar para ela. Seu pai é o exemplo de um homem real que eu idealizei há muito tempo e tento seguir a duras penas.
    Obrigado pela partilha.

  13. Deus seja louvado pela vida de seu pai. Pela sua vida de filho. Pelos livros que vocês leram. Pelo seu texto cheio de simplicidade, verdade e com cheiro de família. Parabéns! Continue! O mundo carece de pessoas e textos reais. Seu texto revela vida!

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