Luis VilarNotícias

Uma lição de Tocqueville após o atentado contra Bolsonaro

Em um de seus discursos, ao identificar a latência de um pensamento revolucionário, Alexis de Tocqueville refletiu sobre seu tempo:

“Diz-se que não há perigo, porque não há agitação; diz-se que, como não há desordem material na superfície da sociedade, as revoluções estão longe de nós (…) Senhores, permitam-me dizer-vos que creio que vos enganais. Sem dúvida, a desordem não está nos fatos, mas entrou bem profundamente nos espíritos”.

As palavras de Tocqueville podem soar nos nossos tempos.

Há muito que a mentalidade revolucionária vem sendo estimulada nos meios acadêmicos; de forma epidêmica prega contra um conservadorismo filosófico e faz desse um espantalho, como se uma força reacionária fosse (no sentido de se agarrar de forma nostálgica, com unhas e dentes, a um passado).

Mas, desde Edmund Burke que o conservadorismo é uma voz de alerta diante das desgraças que se travestem em um conjunto de slogans que pregam o “mundo melhor”, todavia apresentam como realidade as mortes, o genocídio e tiranias piores que os governos ou desgovernos que fingem combater. O conservador busca justamente a verdade que não se banha no rio do tempo, conservando uma série de valores essenciais ao progresso e a verdadeira liberdade.

Nas ações de todo o revolucionário, no entanto, há a crença pueril de ser vanguarda e um agente histórico travestido de um dever sagrado em nome do futuro que nunca chega. Porém, ao contrário, abre as portas da tragédia como foi com o jacobismo, com o bolchevismo, com o nazismo e tantos outros.

Apoiados em ideologias ou pseudo-cientificismos são os heróis “missionários” do vindouro a prometer o paraíso na terra. Assim, as ideologias seculares substituem suas consciências pelas causas, relativizando a vida e os atos cometidos em nome dessas. O que seria crime contra qualquer um, se em nome da causa “certa”, torna-se um ato aceitável, defensável ou justificável a depender do contexto.

Assim foi com Adélio Bispo. Se agiu só ou em conluio, se agiu a mando de uma estrutura partidária ou não, é fruto da mentalidade revolucionária do mesmo jeito… Até mesmo a evocação a Deus é uma mentira revolucionária, pois Adélio Bispo como qualquer outro revolucionário assumiu para si uma causa que ofuscou sua consciência e fez concreto o ódio que muitos já emitiam em mensagens pela internet ao desejar a morte do presidenciável Jair Messias Bolsonaro por discordar dele.

Os mais “recatados” apenas se apoiavam no tal “ódio do bem” para fazer de Jair Bolsonaro uma caricatura a ser resumida em xingamentos dissociados da realidade, como “fascista”, “homofóbico”, “pregador da violência” etc. Nem procuram, porque assim desejam, se darem conta de que a violência a qual Bolsonaro fala é um último recurso diante dos violentos que não podem ser combatidos com flores, argumento ou poemas, como é o caso da criminalidade crescente nesse país.

Bolsonaro, como qualquer ser humano, possui seus defeitos e ideias das quais é possível sim ser discordante. Em uma democracia, discordar deve ser possível sempre. Mas falácias se dissolvem de forma tão simples, como um “meme” em que o presidenciável é atacado com ovos, tem sobre si purpurina despejada em ato de protesto, e até mesmo é cuspido, mas nunca reagiu. O respeito pela liberdade de imprensa também é visível, pois não tenho conhecimento de perseguição ou processos contra algum de seus detratores.

Ao contrário, Bolsonaro os enfrentou por meio das discussões, mesmo quando foi mais duro em função do calor do momento (ou porque a dureza cabia mesmo, já que não se pode ter moderação em defesa da verdade), como ocorreu em debates com Marco Antonio Villa, por exemplo.

Todavia, para a mentalidade revolucionária tanto faz os fatos. É preciso construir a narrativa. Para isso, quando Bolsonaro está errado, ele tem que apanhar. Quando está certo, tem que apanhar também. Quando reconhece seus erros – como já ocorreu em várias entrevistas, onde disse que amadureceu com o tempo e mudou posturas – não cabe ao inimigo o benefício da dúvida. É preciso atacá-lo. Colocá-lo como um mentiroso ao mesmo tempo em que se enaltece as mentiras dos ídolos dos revolucionários.

É preciso da forma mais autoritária possível classificá-lo como um anti-democrata, ainda que isto por si só seja um contra-senso. Mas é este espírito que vê perigo em um espantalho criado, mas não enxerga o real perigo de todo um estamento burocrático unido contra um só homem, que não entende o terreno fértil para revoluções e acontecimentos lamentáveis quando tudo parece calmo. É o que Tocqueville colocava.

Não me importa aqui, caro leitor, se você vota ou não em Bolsonaro. O voto é seu. Você faz dele o que quiser. Importa sim, reafirmar uma verdade incontestável: Bolsonaro, nesse episódio, foi vítima diversas vezes. Foi vítima da facada e depois das narrativas mais cruéis, que colocavam em dúvida até mesmo o atentado, sem o menor respeito por seus familiares. Não digo apenas aqueles calejados pela política como Eduardo, Flávio e Carlos. Falo de uma filha, da esposa, da ex-esposa, dentre tantos outros.

Estas, incluindo os filhos políticos, não sofrem apenas pelo político ou pelo que ele representa enquanto político para elas. Sofrem por amar uma pessoa, como cada um de nós amamos profundamente os nossos. Perceber isto é ter o mínimo de empatia e amor ao próximo. Aquela que devemos ter – e como cristão prezo muito por isso – até mesmo por adversários. Uma injustiça contra quem não gosto, por exemplo, segue sendo uma injustiça. A revolução, por exemplo, subverte isto, pois não há senso a não ser a ideologia professada. Por ela, tudo!

Por isso, Michael Oakeshott já criticava esse racionalismo e essa fé política; colocava assim o conservadorismo como postura filosófica da busca pela verdade, consequentemente anti-ideológica em seu nascedouro.

Presto minha solidariedade a Bolsonaro. Desejo sua rápida recuperação.

Que o episódio nos sirva de lição para entender o que está por baixo dessa superfície que Tocqueville coloca, que aponta para o radicalismo dos revolucionários que vão se infiltrando passo a passo, preparando o terreno com um conjunto de ideias que traveste o fim político, até que chegue – como já pontuou Saul Alinsky – alguém que execute tais ideias, da maneira como for e como puder, dentro de uma bolha ideológica onde discursos já estarão prontos para colocar a culpa na vítima. Eis o perigo.

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10 Comentários

  1. Lamentável que o Brasil tenha sido tomado por uma onda de violência e falsas notícias (fake news).
    Lamentável ver que no atual cenário político, não haja espaço para debate amplos, só rivalidades.
    Lamentável ver os formadores de opniões concentrando suas forças para destruir o conservadorismo e o progresso. E ainda mais: promovendo intelectualmente (e até na prática) atitudes de ódio e destruição.
    Não param para ouvir, entender e pacificamente debater idéias contrárias. O “discordar” passa sempre pela infame violência, que tanto “pregam” contra! Enfim… vivemos em uma geração em que os jovens estão sendo “programados” sem sequer ponderar sobre a proposta ou discurso alheio. Sem leitura suficiente para ambos os lados e assim opniar com consciência. É só a “religião” socialista extremada e armada que consideram, que como o discurso do Estado Islâmico.
    Obrigada por seu artigo é muito relevante! Lamentavelmente esquerdistas radicais, não tem tolerância suficiente para ler este tipo de material.
    Falo com propriedade, pois já fui de esquerda. Atualmente me envergonho muito em dizer isso, apesar de nunca ter me deixado tomar pelo extremo e nem pelo ódio, somente pelo atraso e retrocesso intelectual. A parte boa é que “a luz raiou” e me tornei um ser pensante!

  2. Luis Vilar como sempre elevando o discurso, trazendo a verdade dos fatos e ampliando meus horizontes de consciência.

  3. Sem dúvida muito bom o texto. Observo realmente isso que foi posto, a preocupação daqueles que discordam de Bolsonaro não é com sua recuperação, se está bem etc, estão preocupados em difamá-lo, procurar mil desculpas para desqualificar a veracidade do ataque sofrido por ele, cegamente se atiram contra quem pensa diferente sem nem entender a fundo o por que agem dessa forma.

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